SÃO DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ
Ana Hertz
Abril de 2009
Saudades da Elis Regina cantando... E saudades do tempo em que minhas pernas obedeciam ao comando de meu cérebro! A primeira investida para melhorar a performance muscular, depois da perna e do joelho quebrados, foi entrar para uma academia de ginástica, com a supervisão de uma personal trainer muito boa. Depois, para juntar o útil ao agradável, matriculei-me numa escola de dança de salão.
O engraçado é que essa história de comer e coçar vai mesmo do começar. Quando descobri que as prefeituras de League City, onde moro, e a de Friendswood, bem ao lado, oferecem várias atividades para os seniors, fui eu atrás de mais atividade física. Temos, para escolher, jazzexercice, sapateado, clogging – a deliciosa dança irlandesa, e a line dance. Antes que me esqueça: para o cinema, desconto no Texas só para os de 62 para cima. Nos museus, com 65 podem pagar menos. Para minha sorte, nesses programas na prefeitura, basta chegar aos 55 para usufruir de tudo que oferecem para os mais antigos.
Toda animada, fui ver como era essa tal de line dance. Simplesmente, o que o nome já diz. As pessoas ficam alinhadas, uma ao lado da outra, formando quantas filas forem necessárias. Não se precisa de par, apenas de alegria e vontade. A professora, que beira os 70, tem uma energia de fazer inveja a qualquer jovem. Aos domingos, vai a dois eventos de dança e não pára um minuto. Fui testemunha uma vez, quando fui junto!
Nos primeiros dias, sentia-me uma completa desastrada, perto daquelas companheiras mais velhinhas do que eu (uma tem 85!) e que dançam sem perder o ritmo, o passo e, o que é o máximo, sem esquecer a coreografia! Em tempo... as mulheres se saem melhor do que os homens que também freqüentam as aulas. Com o tempo, fui aprimorando e não me saio tão mal assim. Adoro dançar o charleston. Como é divertido! E pensar que, quando lançado, o ritmo causou o maior escândalo por ser considerada uma dança por demais licenciosa!!
Fui num entusiasmo impressionante e acabei até fazendo hula-hula, a dança havaiana. Na primeira aula, enquanto rebolava como se estivesse envolta num sarong, percebi que deveria também fazer gestos com os braços e as mãos. Imitei a professora do jeito que pude, achando-me a mais ridícula das criaturas. Acabei percebendo que os gestos expressavam o que a canção dizia. No intervalo, Mary, minha amiguinha havaiana de 85 anos, explicou tudo. Como a música conta uma história, precisa ser dramatizada. Enquanto cantamos e dançamos, estamos representamos. E me vi encenando um pássaro em seu belo vôo enquanto dançávamos Yellow Bird. E não mais me achei ridícula. Entrei na cultura daquele povo tão interessante e fiquei com uma vontade enorme de visitar suas belíssimas ilhas, cada uma com a natureza mais exuberante do que a outra. Quem sabe por lá eu não aprimoro meu rebolado havaiano?
Por estar fazendo dança, acabei caindo nos braços da pintura em aquarela, outro programa para seniors da Prefeitura. E daí, para pintura em acrílico e, em um mês, acabarei metendo a mão na argila. Tudo free of charge. Quem quiser e puder, oferece um dólar por atividade, para ajudar os professores, todos voluntários, a pagar a gasolina. Quem poderia supor que eu, um dia, estaria pintando e fazendo esculturas? O produto final, podem todos acreditar, não é dos piores! Nada vai fazer parte do acervo do MOMA, ou do Louvre, mas tenho me divertido muito enquanto me lambuzo de tinta. Não estou pintando apenas o “sete”!
Constatei que os participantes não são pessoas desocupadas ou solitárias, o que poderia parecer num primeiro momento. A maioria tem atribuições, quando não profissionais, familiares. Eu já havia comentado que grande parte dos cidadãos americanos trabalha até não poder mais. Alguns outros fazem parte de grupos de terceira idade que se apresentam em retiros de idosos (dos mais idosos ainda!) e em hospitais, levando alegria, música, dança e carinho para quem precisa. Três amigas, inclusive a Mary, de 85 anos, participam do Stars and Stripes, um conjunto de 300 idosos que tocam cavaquinho! Divertem-se nos ensaios, uma vez por semana, e nas apresentações, duas vezes por mês, quando comparecem todos com o traje da banda, fornecido pela Igreja Presbiteriana que patrocina o grupo. Esclareço de uma vez – não precisam freqüentar a igreja ou seguir a doutrina para fazer parte do grupo. Qualquer interessado pode participar. Nisso, ainda não me arrisquei.
E sobre os “solitários”... um grande número deles é casado ou tem namorado, ou namorada. E alguns vão juntos! Vejo vários casais, tanto no programa de seniors, quanto nas aulas de dança de salão. Portanto, não podemos generalizar que sejam solitários ou desocupados.
Acabei sabendo que existe um programa de “avós adotivos”. Quem tiver mais de 55 anos pode se candidatar, tanto para voluntário, como para um contrato, com remuneração pelas horas trabalhadas. Atuam como professores particulares, mentores e, muitas vezes, fazem apenas companhia, oferecendo apoio moral e afetivo a crianças e jovens com necessidades especiais. E o Seniors Corps também tem um programa em que idosos ajudam outros idosos que precisam de companhia para desempenhar algumas tarefas domésticas ou sociais, como fazer compras, ir ao médico, visitar um amigo. No Brasil, as famílias, em geral, atendem a essas necessidades, enquanto por aqui isso é, algumas vezes, um pouco mais complicado.
Voltando ao assunto principal, a dança. A poucos domingos atrás, fui a uma igreja metodista, onde o grupo de line-dance ia se apresentar. Fui meio desconfiada, ao saber que a tal igreja se chama Cowboy Church. Parece inacreditável, mas até o pastor se veste de cowboy. Pelo que entendi, descobriram que estava meio difícil fazer a tropa freqüentar a igreja. Qual a melhor idéia? Venceu essa - contratam uma banda, quase sempre de música country, providenciam comes e bebes (refrigerantes, café e água) e, no meio do show, o pastor faz um mini-sermão de 5 minutos e temos resolvida a questão. A igreja tem o culto tradicional, por certo, mas também lança mão desse recurso para que os fiéis menos fiéis compareçam. E todo mundo sai dançando, na maior animação. E verdade seja dita – não dançar faz mal a saúde!
E lá vou eu e meus amiguinhos da terceira juventude nos divertindo muito com o “dois pra lá, dois pra cá” que tanto a Ellis recomendou. Ninguém se incomoda, ou se envergonha, de dançar meio torto, caso tenha um braço e uma perna um pouco prejudicados por um AVC ou apenas porque a idade chegou mesmo! Faz o que pode, sorri e vai dançando conforme sua própria música...e quem sabe um novo dois para lá e somente um para cá também dá certo? Não custa tentar.
domingo, 12 de abril de 2009
sexta-feira, 3 de abril de 2009
QUEM MATOU J.R ?
QUEM MATOU J.R.?
Ana Hertz
Março de 2009
Dallas é uma palavra que sempre me traz de volta coisas das quais não gosto. Um delas, a série com esse nome que cheguei a ver na televisão algumas vezes, foi assunto em variadas rodas durante muito tempo. Nos Estados Unidos, foi ao ar de 1978 a 1991 e, por incrível que pareça, a história não agradava apenas por essa freguesia. No mundo inteiro, as pessoas ficavam hipnotizadas. O tal capítulo em que o mistério sobre o atentado ao execrável J.R. seria desvendado foi visto, no planeta, por cerca de 360 milhões de pessoas. Algo realmente inacreditável. Foi uma histeria coletiva, tipo “quem matou Odete Roitman” na novela Vale Tudo, nos anos oitenta, só que em escala gigantesca. A outra coisa foi a morte de Kennedy.
Eu, sinceramente, não tenho a menor idéia de quem atirou em J.R. Gostava de Larry Hagman como Major Nelson, em Jeannie é um gênio. Mas o mundo só o reconheceu como artista a partir de seu desprezível personagem. Interessante esse fenômeno do bandido que vira o centro das atenções. Pelo que li, a trama iria girar em torno do irmão bonzinho, mas ele era tão sem graça que não teve a menor chance. A mulher do mau caráter tampouco era uma flor de pessoa. Chamava-se Sue Ellen e me lembro perfeitamente disso porque, logo depois, vivemos uma febre de menininhas sendo batizadas com o nome dela; enfim, essas coisas de moda televisiva.
Comecei lançando a pergunta – Quem matou J.R? - quando, na verdade, acho que nem o mataram. Ainda que saiba ser politicamente incorreto, confesso que era melhor que o personagem tivesse morrido mesmo, pois era infame. Tão infame quanto o astronômico preço dos anúncios para os intervalos do episódio revelador: cada interessado pagou a bagatela de quinhentos mil dólares por minuto! Para não ter que comentar, melhor mudar de assunto.
Resolvi conhecer Dallas por ser uma cidade com muitos museus interessantes e galerias de arte da melhor qualidade, razoavelmente perto, a cerca de 4 horas e meia de Houston. Peguei meu carro numa sexta-feira e lá fui eu, ouvindo Chico, Edu Lobo, Cesar Costa Filho pelo caminho. Nem senti o tempo passar. O Circo Místico e o Mirante da Amaralina me encantaram.
A primeira impressão é a que fica, diz o ditado. Se não existissem as exceções para todas as regras, eu nem estaria escrevendo sobre Dallas, e sim tentando esquecer todas as complicações com que me deparei quando cheguei. Primeiro, foi uma estrada com pedágio, cujas cabines não eram guarnecidas por seres humanos... apenas máquinas. E essas antipáticas maquininhas simplesmente rejeitaram nada menos do que seis notas de um dólar com as quais pretendia pagar os quarenta cents da taxa! Simplesmente, cuspiam todas as que eu inseria! Atrás de mim, uma fila de carros aguardando. Felizmente, os motoristas são super controlados... ninguém buzinou! Após muitas tentativas, uma das benditas foi aceita, e eu pude ir adiante. Podem imaginar a vergonha.
Depois da experiência desastrosa, fui procurar o Heritage Museum, que me parecia bastante interessante nos folhetos que tinha recebido. Consegui localizar a rua, mas não o museu propriamente dito. E comecei a achar que a vizinhança era meio estranha... fui embora, em busca do meu hotel numa cidadezinha próxima. Por causa de um trânsito louco, levei o dobro do tempo previsto para chegar a Irving. E não é que tampouco achava o hotel? O problema é que o GPS ficou sem sinal. Nessas cidades menores, ninguém anda na rua e não se tem a quem perguntar. Depois de rodar muito, num posto de gasolina encontrei uma bondosa alma que conhecia o lugar e aí foi fácil. Comecei a achar que tinha entrado numa furada.
Persistente como toda taurina, no dia seguinte insisti no tal do Heritage Museu e achei na primeira tentativa. Fiquei encantada. Levaram para uma área do antigo parque da cidade 38 edificações representativas do período entre 1840 e 1910. Treze acres de terra, com muitas árvores e flores, uma escola, uma igreja, residências de vários padrões e prédios comerciais. Além disso, aos sábados, um grupo de professores de história, todos voluntários, apresentam cenas do velho oeste, com direito a tiros, bandidos presos, dinheiro do assalto ao banco recuperado... E o que é melhor – ficam por 5 horas conversando com os visitantes e contando um pouco da história do Texas. E eu, que nunca estive numa fazenda, consegui ver uma ovelha sendo tosquiada, já que a primavera chegou e, com ela, a necessidade de livrar a pobrezinha de toda aquela lã. Pude ver antigas máquinas impressoras, um escritório de advocacia com uma petição daquela época, a cadeia, o saloon onde todos se encontravam; enfim, bem divertido e, para as crianças, um modo mais interessante de entrar em contato com as raízes de seu país. Não ter achado o museu na sexta-feira foi obra do meu anjo da guarda – teria perdido a encenação e a conversa com os voluntários. Na vida da gente, isso acontece muito. Reclamamos de algo que não saiu como planejado, mas o que vem em troca é muito melhor.
Fui, então, para o Six Floor Museum, montado a partir da morte de John Kennedy justamente no andar do prédio de onde Lee Oswald teria atirado no presidente americano. Bem na entrada, há uma informação sobre esse sexto andar, dizendo apenas que foi onde encontraram um rifle. Quem escreveu isso concorda comigo – a versão oficial é uma historinha muito da mal contada.
Já no lado de fora, podemos encontrar muitos “guias”, com reprodução do jornal da tarde de 22 de novembro de 1963, edição que já saiu com a notícia. Lembrei-me de Olinda, com aqueles meninos-guias contando sobre a cidade, com um texto bem decoradinho para impressionar os turistas. Levei 40 minutos para comprar o ingresso, pois o movimento era inacreditável. O funcionário comentou que todo dia, a qualquer hora, a fila é enorme, tornando-o um dos mais visitados museus dos Estados Unidos.
Fiquei bastante impressionada com o que vi. Não percebi a “história oficial” sendo imposta naquele lugar. Há, a cada passo da exposição, diversas informações sobre o assassinato que contradizem a versão apresentada e, mais do que isso, nos murais podemos ver a maioria das dúvidas levantadas. Mostra o relatório final da Comissão Warren, em 1988, que concluiu não ter havido conspiração objetivando a morte de John Kennedy. Os inúmeros suspeitos, que iam do governo soviético à Máfia, passando por Cuba, CIA, FBI, extrema-direita americana, foram todos inocentados. Para eles, houve apenas um culpado – Lee Oswald. Logo no painel ao lado, apresentava-se a pergunta: - Por que um agente da CIA, demitido por Kennedy um pouco antes, foi justamente um dos principais encarregados da investigação?
Como era muito jovem na época, só me lembro de saber da morte no meio da tarde, enquanto ouvia a Rádio Tamoio, e de que fiquei muito chocada. Kennedy havia “chegado” ao Brasil, com toda uma aura de jovialidade, promessas de mudança, compromissos com a pátria, charme; enfim, o mais novo presidente norte-americano também encantava o mundo. Descobri, neste passeio, que sua vitória foi por apenas 0.1% dos votos, num universo de sessenta e nove milhões de eleitores. Nixon, anos depois, disse que não conseguiu vencer por faltar-lhe o charme do oponente. Mesmo despertando receio por ser considerado muito jovem para o cargo, por ser católico num país protestante, Kennedy chegou lá.
Além do público em geral, há um sem número de historiadores respeitados que continuam sustentando a tese de conspiração. Kennedy foi audacioso ao contrariar os interesses de indústrias bélicas e de militares, acenando com a proposta de encerrar a corrida armamentista. Imagina-se bem o que isso trouxe. Se mais não fosse, como democrata, ousou falar em igualdade de direitos civis e sociais para todos os americanos, independentemente de cor, religião, origem. Com isso, ao mesmo tempo que despertou ódio dos radicais e dos que viram seus interesses ameaçados, seduziu o mundo e muitos americanos. Foi por essa razão que não foi só nos Estados Unidos que o assassinato provocou comoção. O funcionário do estacionamento onde deixei meu carro contou que em seu país, a Etiópia, ainda hoje muitas escolas e hospitais são batizados com o nome dele.
Falando em estacionamento, quando voltei para o carro, tinha um documento preso no vidro da frente. Era uma espécie de relatório da Safety Patrol do Departamento de Policia de Dallas. Eles fazem a ronda na cidade, verificando se os carros estão seguindo as normas de segurança. Deixam, então, o tal relatório, assinado por quem fez a vistoria, com a informação se o veículo “passou” ou não no exame. Os itens avaliados são – chaves esquecidas na ignição, coisas deixadas no interior do carro que podem atrair a atenção dos ladrões, janelas abertas, ou qualquer coisa que possa facilitar a ação dos meliantes. O meu Toyota foi aprovado.
Para os americanos, ficou a impressão de que aquele futuro melhor prometido por Kennedy jamais seria alcançado. O sonho de uma nação mais próspera, um mundo menos agressivo e direitos iguais foi abortado naquele novembro em Dallas, uma das cidades mais conservadoras dos Estados Unidos. Concretizou-se, após mais de 400 ameaças de morte desde sua posse, o que tantos temiam.
Muitos analistas políticos dizem que seu maior crédito foi pelo que poderia ter feito, não pelo que realmente chegou a fazer. Lembrei-me de Trancredo Neves, outra promessa não cumprida por circunstâncias extraordinárias. Comparei os 26 volumes da Comissão Warren com o relatório do Coronel Job Lorena, sobre o Riocentro. Documentos inaceitáveis. A morte de Kennedy, nos livros de História, resume-se a duas linhas – foi morto por um atirador solitário que foi morto por outro atirador solitário e ponto final.
A teoria da bala única – the single-bullet theory – tem a ousadia de traçar a trajetória de uma bala originada da arma de Lee Oswald, bala essa que teria causado sete ferimentos, um em Kennedy e seis em Connally, o governador texano. Teria quebrado dois ossos e saído inteiramente limpa, sem perda de material, sinal de sangue ou qualquer coisa. O que torna as coisas ainda mais inacreditáveis - teria passado pelo pescoço do presidente, dirigindo-se para baixo, mudado de direção, subido e saído por sua garganta. Não satisfeita, “parou para pensar” por um segundo e meio e, mudando de direção novamente, foi para a direita, depois para a esquerda e, então, atingiu Connally, em seu pulso direito, quebrando-lhe o osso, fazendo uma monumental curva e alojando-se, finalmente, na coxa esquerda. Nem Walt Disney teria a coragem de colocar uma coisa dessas em seus desenhos animados, com medo de fazer um papel ridículo.
Por isso tudo, Dallas nunca foi, para mim, uma cidade simpática. Deve ter percebido isso, pois quando fui para a estrada de volta para casa, presenteou-me com o mais belo pôr-do sol de toda a minha vida, e eu já vi milhares - estou “na estrada” há muito tempo. Por sorte, pude capturá-lo com minha câmera fotográfica, sempre a postos no banco do carona.
Nada me convence que Lee Oswald era um assassino solitário e, do mesmo modo, pensam quase todos os habitantes do planeta. Um conto da Carochinha muito mal elaborado. E não tenho esperança de chegar a saber da verdade. Quem matou J.R? Não sei e não me interessa. Quem matou J.F. K? Não sei, mas queria muito ver desvendado o mistério. Dallas não me contou. Não teve coragem.
quarta-feira, 18 de março de 2009
I LEFT MY HEART IN SAN FRANCISCO
I LEFT MY HEART IN SAN FRANCISCO
Ana Hertz
Março de 2009.
E lá fui eu, depois de quase vinte anos, rever San Francisco. Não mudou muito... nem poderia, pois não tem mais espaço para grandes mudanças. O que importa é que continua um charme. Suas ladeiras, o Fisherman’s Wharf, o Cable Car inaugurado em 1873, a Lombard Street cheia de curvas, as Vitorian Houses incrivelmente maravilhosas... enfim, uma cidade encantadora.
Lembro-me da primeira vez que estive na California, em 1989, incumbida de estabelecer contato com os responsáveis pelas emergências e desastres das cidades em torno da Baía de San Francisco, todos grandes especialistas em calamidades já que vivem a crônica de um terremoto anunciado, o Big One. A falha de San Andreas passa bem perto de Los Angeles e San Francisco e, mesmo não tendo dado trabalho demais nos últimos cem anos, os pesquisadores afirmam que, em razão do deslocamento da placa do Pacífico e da placa norte-americana, parte da Califórnia e do Alaska serão atingidos por um terremoto de dimensões incalculáveis nos próximos 30 anos.
Poucos meses depois que voltei para o Brasil, ocorreu o Loma Prieta. Embora não tenha sido dos piores terremotos de acordo com a escala Richter, ainda assim matou 63 pessoas, feriu mais de 3 mil e destruiu uma grande área da cidade. Em termos econômicos, foi o mais caro desastre natural dos Estados Unidos. Um ano depois, quando organizaram um seminário para avaliar as ações empreendidas, fui convidada para participar. Aproveitei para perguntar ao Chefe do Corpo de Bombeiros como conseguia dormir, depois de passar o dia inteiro treinando pessoal, fazendo pesquisa, enfim, só pensando em terremotos. Respondeu que ia para casa, ficava com a família, e em nenhum momento seu pensamento se voltava para o assunto. Sem dúvida, nós, humanos, temos nossos mecanismos de defesa sempre a postos... enlouqueceríamos, se não fosse assim. Eu, entretanto, enquanto estava lá, morri de medo. Um exagero, eu sei, mas me arrepiava toda vez que pensava na possibilidade. Nem tive coragem de pegar o metrô.
Mudo de assunto, já que essa história de desastres naturais não agrada muito. A cidade estava enfeitada, em diversos pontos, com belíssimos corações. Artistas foram convidados a pintá-los e, depois de algum tempo, foram todos leiloados. Conseguiram cerca de dois milhões de dólares, e o dinheiro arrecadado foi integralmente revertido para o Hospital Geral da cidade. É uma versão da “Cow in Parade”, que também enfeitou o Rio de Janeiro tempos atrás, só que adaptada para San Francisco, cidade conhecida por sua hospitalidade e tolerância, sempre de coração aberto. Vi alguns dos 130 expostos, e, por sorte, um deles foi justamente o pintado pelo Tony Bennett. Tirei fotos, é claro, e achei o maior charme. Mais bonito do que as vaquinhas que andaram pelo mundo afora.
Mesmo morando em apartamento decorado mais para o moderno, sou apaixonada pelas Victorian Houses. Nos Estados Unidos, foram construídas principalmente na segunda metade do século XIX e no começo do XX, e continuam sendo um símbolo da prosperidade de seus proprietários. São inacreditavelmente caras, e San Francisco, na verdade, tornou-se uma cidade de imóveis alugados. Quem não teve pais ou avós que puderam comprar imóveis nas priscas eras, nem sonham, hoje em dia, com a “casa própria”. Simplesmente, está fora do alcance da maioria dos mortais. Quando essas construções antigas precisam de reforma, o preço é mais alto do que se fossem construídas novamente.
Uma curiosidade. A casa mais valiosa de San Francisco, atualmente, é a mansão da escritora Danielle Steel, bem no alto de uma colina, de onde se pode ver a baía por inteiro. Ela escreveu mais de setenta livros, publicados em quase trinta línguas diferentes, teve uns tantos transportados para o telão, outros viraram seriados na televisão; enfim, um sucesso. Passa metade do tempo nos Estados Unidos e o resto em Paris. Cheguei a ficar com inveja da vista que tem lá do alto, mas refleti um pouco e... tem o terremoto. Resolvido o problema - não quero mais.
Uma coisa interesssante é que San Francisco foi a primeira cidade americana a proibir sacos plásticos para compras. Isso é um avanço, quando se pensa no planeta e todo esse lixo que não se decompõe antes que se passem séculos. Cada pessoa nos Estados Unidos produz cerca de 2 kilos de lixo por dia, enquanto no Brasil é só um. O que ainda é muito, pensando bem.
Falando em ecologia, descobri que o Brasil vem liderando há sete anos, no mundo, a reciclagem de latas de alumínio para bebidas, com um percentual de 96,5% do total . Isso representa mais de um milhão de latinhas sendo recicladas por hora! Nessas bandas do Norte, o índice de reciclagem fechou 2007 em apenas 53,8%. A questão social, no Brasil, impulsiona a coleta, o que não acontece por aqui. Mas juro que vi uma senhora, de origem oriental, mexendo nas latas de lixo em San Francisco, procurando por elas; antes de guardar as que conseguiu encontrar, amassou-as com os pés para diminuir o volume.
Por outro lado, enquanto no Rio de Janeiro o papel e papelão correspondiam a 24% do peso do lixo urbano há alguns anos, nos Estados Unidos, na mesma época, o papel constituía 3,3% do lixo. Essa conscientização de que devemos preservar o meio ambiente vem crescendo, felizmente, ainda que a Administração Bush não tenha assinado o Tratado de Kioto. Os administradores municipais estão trabalhando nesse sentido e todos torcemos para que melhore a cada dia.
Não podemos falar em San Francisco sem mencionar Alcatraz, cujo nome dizem vir de “Alcatraces”, que significa pelicano pardo. “The Rock” foi usada pelo exército americano como prisão militar até 1933, quando passou a ser penitenciária de segurança máxima.
Pelo que descobri, nunca foi a versão americana da Ilha do Diabo, famosa e infamante colonia penal francesa da Guiana, imortalizada no filme Papillon, com Steve McQueen. Alcatraz oferecia, na verdade, melhores condições a seus prisioneiros do que as outras penitenciárias do país. Teve muitos “hóspedes” famosos, incluindo Al Capone. Dos 36 prisioneiros que tentaram fugir, a maioria foi recapturada, sendo que 6 foram mortos durante a fuga e 2 se afogaram. Os cinco dos quais o sistema judiciário não teve mais notícias foram considerados desaparecidos e presumidamente mortos. Será? Clint Eastwood deve saber a verdade.
Essa penitenciária exerceu um tremendo fascínio sobre Hollywood. E de todos os filmes que fizeram sobre o assunto, três ficaram para a história do cinema. Primeiro, foi “O Homem de Alcatraz”, com Burt Lancaster e que levou 4 Oscars. Depois, tivemos Clint Eastwood no papel principal de “Fuga de Alcatraz”, que eu adorei, mas que deu um senhor trabalho aos produtores, pois, em 1979, o local já estava desativado. Para restaurar a eletricidade, foram instalados quase 30 kilômetros de cabos partindo do continente. E o último, “ The Rock”, com Sean Connery, Ed Harris e Nicholas Cage, também foi muito bom.
Já que mencionei o Clint Eastwood, tenho que falar em Carmel-by-the-sea, uma pequena cidade perto de San Francisco, conhecida por sua riquíssima tradição artística. Ele foi seu prefeito por 3 anos, tempo que dura a administração municipal por aqui. Adorei tudo. Um detalhe engraçado... as casas não têm número. Quem quiser suas cartas que vá até o posto do Correio apanhar. São, ao todo, menos de 4.500 habitantes. Se estiver em San Francisco, dê uma passadinha em Carmel, visitando, antes, Monterey, outro lugar do maior charme. Vai gastar apenas um dia e ver muita coisa bonita.
San Francisco, como toda e qualquer cidade, tem seus problemas. Oficialmente apresentou, ano passado, quase 6.300 pessoas vivendo nas ruas, em abrigos ou outras instituições para situações emergenciais. Eu vi muitos. Saí cedo, no sábado, para aproveitar o dia e confesso que fiquei com medo. Onde estava hospedada, havia muitos hotéis, o que atrai aqueles que vêm pedir ajuda aos “estrangeiros”. Parecia o centro do Rio de Janeiro, de manhã bem cedo.
Além dos pedintes, vi muitos veteranos de guerra, em péssimas condições, assunto sobre o qual ainda quero escrever, mais alguns aidéticos, que contam com a misericórdia dos passantes, uns tantos doentes mentais... Isso também acontece por aqui. Nem tudo são flores, embora elas estejam, nesse começo de primavera, escandalosamente bonitas, deixando tudo muito mais colorido.
Pois é, I left my heart in San Francisco... Mas também em Nova York, Paris, Roma, Praga, São Paulo, Quebec, Santiago de Chile, Lagoa Rodrigo de Freitas... Deixamos um pedaço do coração onde fomos felizes, onde a natureza ou a arte do homem nos seduziu, ou a paixão foi muito forte. Entregamos, aos que partem para sempre, outro importante pedaço. Mas ,no final, sempre sobra o suficiente para um novo grande amor, ou quem sabe, inúmeros pequenos amores. O que conta é que, mesmo deixando tanto para trás, ainda somos capazes de abrigar sensações bastante intensas.
O coração será sempre do tamanho da nossa sensibilidade e da capacidade de nos encantarmos, a cada dia, com aquilo que a vida nos oferece. Assim, não se lamente jamais pelos pedacinhos que deixou pelo caminho. Tenho certeza de que tudo valeu a pena.
Ana Hertz
Março de 2009.
E lá fui eu, depois de quase vinte anos, rever San Francisco. Não mudou muito... nem poderia, pois não tem mais espaço para grandes mudanças. O que importa é que continua um charme. Suas ladeiras, o Fisherman’s Wharf, o Cable Car inaugurado em 1873, a Lombard Street cheia de curvas, as Vitorian Houses incrivelmente maravilhosas... enfim, uma cidade encantadora.
Lembro-me da primeira vez que estive na California, em 1989, incumbida de estabelecer contato com os responsáveis pelas emergências e desastres das cidades em torno da Baía de San Francisco, todos grandes especialistas em calamidades já que vivem a crônica de um terremoto anunciado, o Big One. A falha de San Andreas passa bem perto de Los Angeles e San Francisco e, mesmo não tendo dado trabalho demais nos últimos cem anos, os pesquisadores afirmam que, em razão do deslocamento da placa do Pacífico e da placa norte-americana, parte da Califórnia e do Alaska serão atingidos por um terremoto de dimensões incalculáveis nos próximos 30 anos.
Poucos meses depois que voltei para o Brasil, ocorreu o Loma Prieta. Embora não tenha sido dos piores terremotos de acordo com a escala Richter, ainda assim matou 63 pessoas, feriu mais de 3 mil e destruiu uma grande área da cidade. Em termos econômicos, foi o mais caro desastre natural dos Estados Unidos. Um ano depois, quando organizaram um seminário para avaliar as ações empreendidas, fui convidada para participar. Aproveitei para perguntar ao Chefe do Corpo de Bombeiros como conseguia dormir, depois de passar o dia inteiro treinando pessoal, fazendo pesquisa, enfim, só pensando em terremotos. Respondeu que ia para casa, ficava com a família, e em nenhum momento seu pensamento se voltava para o assunto. Sem dúvida, nós, humanos, temos nossos mecanismos de defesa sempre a postos... enlouqueceríamos, se não fosse assim. Eu, entretanto, enquanto estava lá, morri de medo. Um exagero, eu sei, mas me arrepiava toda vez que pensava na possibilidade. Nem tive coragem de pegar o metrô.
Mudo de assunto, já que essa história de desastres naturais não agrada muito. A cidade estava enfeitada, em diversos pontos, com belíssimos corações. Artistas foram convidados a pintá-los e, depois de algum tempo, foram todos leiloados. Conseguiram cerca de dois milhões de dólares, e o dinheiro arrecadado foi integralmente revertido para o Hospital Geral da cidade. É uma versão da “Cow in Parade”, que também enfeitou o Rio de Janeiro tempos atrás, só que adaptada para San Francisco, cidade conhecida por sua hospitalidade e tolerância, sempre de coração aberto. Vi alguns dos 130 expostos, e, por sorte, um deles foi justamente o pintado pelo Tony Bennett. Tirei fotos, é claro, e achei o maior charme. Mais bonito do que as vaquinhas que andaram pelo mundo afora.
Mesmo morando em apartamento decorado mais para o moderno, sou apaixonada pelas Victorian Houses. Nos Estados Unidos, foram construídas principalmente na segunda metade do século XIX e no começo do XX, e continuam sendo um símbolo da prosperidade de seus proprietários. São inacreditavelmente caras, e San Francisco, na verdade, tornou-se uma cidade de imóveis alugados. Quem não teve pais ou avós que puderam comprar imóveis nas priscas eras, nem sonham, hoje em dia, com a “casa própria”. Simplesmente, está fora do alcance da maioria dos mortais. Quando essas construções antigas precisam de reforma, o preço é mais alto do que se fossem construídas novamente.
Uma curiosidade. A casa mais valiosa de San Francisco, atualmente, é a mansão da escritora Danielle Steel, bem no alto de uma colina, de onde se pode ver a baía por inteiro. Ela escreveu mais de setenta livros, publicados em quase trinta línguas diferentes, teve uns tantos transportados para o telão, outros viraram seriados na televisão; enfim, um sucesso. Passa metade do tempo nos Estados Unidos e o resto em Paris. Cheguei a ficar com inveja da vista que tem lá do alto, mas refleti um pouco e... tem o terremoto. Resolvido o problema - não quero mais.
Uma coisa interesssante é que San Francisco foi a primeira cidade americana a proibir sacos plásticos para compras. Isso é um avanço, quando se pensa no planeta e todo esse lixo que não se decompõe antes que se passem séculos. Cada pessoa nos Estados Unidos produz cerca de 2 kilos de lixo por dia, enquanto no Brasil é só um. O que ainda é muito, pensando bem.
Falando em ecologia, descobri que o Brasil vem liderando há sete anos, no mundo, a reciclagem de latas de alumínio para bebidas, com um percentual de 96,5% do total . Isso representa mais de um milhão de latinhas sendo recicladas por hora! Nessas bandas do Norte, o índice de reciclagem fechou 2007 em apenas 53,8%. A questão social, no Brasil, impulsiona a coleta, o que não acontece por aqui. Mas juro que vi uma senhora, de origem oriental, mexendo nas latas de lixo em San Francisco, procurando por elas; antes de guardar as que conseguiu encontrar, amassou-as com os pés para diminuir o volume.
Por outro lado, enquanto no Rio de Janeiro o papel e papelão correspondiam a 24% do peso do lixo urbano há alguns anos, nos Estados Unidos, na mesma época, o papel constituía 3,3% do lixo. Essa conscientização de que devemos preservar o meio ambiente vem crescendo, felizmente, ainda que a Administração Bush não tenha assinado o Tratado de Kioto. Os administradores municipais estão trabalhando nesse sentido e todos torcemos para que melhore a cada dia.
Não podemos falar em San Francisco sem mencionar Alcatraz, cujo nome dizem vir de “Alcatraces”, que significa pelicano pardo. “The Rock” foi usada pelo exército americano como prisão militar até 1933, quando passou a ser penitenciária de segurança máxima.
Pelo que descobri, nunca foi a versão americana da Ilha do Diabo, famosa e infamante colonia penal francesa da Guiana, imortalizada no filme Papillon, com Steve McQueen. Alcatraz oferecia, na verdade, melhores condições a seus prisioneiros do que as outras penitenciárias do país. Teve muitos “hóspedes” famosos, incluindo Al Capone. Dos 36 prisioneiros que tentaram fugir, a maioria foi recapturada, sendo que 6 foram mortos durante a fuga e 2 se afogaram. Os cinco dos quais o sistema judiciário não teve mais notícias foram considerados desaparecidos e presumidamente mortos. Será? Clint Eastwood deve saber a verdade.
Essa penitenciária exerceu um tremendo fascínio sobre Hollywood. E de todos os filmes que fizeram sobre o assunto, três ficaram para a história do cinema. Primeiro, foi “O Homem de Alcatraz”, com Burt Lancaster e que levou 4 Oscars. Depois, tivemos Clint Eastwood no papel principal de “Fuga de Alcatraz”, que eu adorei, mas que deu um senhor trabalho aos produtores, pois, em 1979, o local já estava desativado. Para restaurar a eletricidade, foram instalados quase 30 kilômetros de cabos partindo do continente. E o último, “ The Rock”, com Sean Connery, Ed Harris e Nicholas Cage, também foi muito bom.
Já que mencionei o Clint Eastwood, tenho que falar em Carmel-by-the-sea, uma pequena cidade perto de San Francisco, conhecida por sua riquíssima tradição artística. Ele foi seu prefeito por 3 anos, tempo que dura a administração municipal por aqui. Adorei tudo. Um detalhe engraçado... as casas não têm número. Quem quiser suas cartas que vá até o posto do Correio apanhar. São, ao todo, menos de 4.500 habitantes. Se estiver em San Francisco, dê uma passadinha em Carmel, visitando, antes, Monterey, outro lugar do maior charme. Vai gastar apenas um dia e ver muita coisa bonita.
San Francisco, como toda e qualquer cidade, tem seus problemas. Oficialmente apresentou, ano passado, quase 6.300 pessoas vivendo nas ruas, em abrigos ou outras instituições para situações emergenciais. Eu vi muitos. Saí cedo, no sábado, para aproveitar o dia e confesso que fiquei com medo. Onde estava hospedada, havia muitos hotéis, o que atrai aqueles que vêm pedir ajuda aos “estrangeiros”. Parecia o centro do Rio de Janeiro, de manhã bem cedo.
Além dos pedintes, vi muitos veteranos de guerra, em péssimas condições, assunto sobre o qual ainda quero escrever, mais alguns aidéticos, que contam com a misericórdia dos passantes, uns tantos doentes mentais... Isso também acontece por aqui. Nem tudo são flores, embora elas estejam, nesse começo de primavera, escandalosamente bonitas, deixando tudo muito mais colorido.
Pois é, I left my heart in San Francisco... Mas também em Nova York, Paris, Roma, Praga, São Paulo, Quebec, Santiago de Chile, Lagoa Rodrigo de Freitas... Deixamos um pedaço do coração onde fomos felizes, onde a natureza ou a arte do homem nos seduziu, ou a paixão foi muito forte. Entregamos, aos que partem para sempre, outro importante pedaço. Mas ,no final, sempre sobra o suficiente para um novo grande amor, ou quem sabe, inúmeros pequenos amores. O que conta é que, mesmo deixando tanto para trás, ainda somos capazes de abrigar sensações bastante intensas.
O coração será sempre do tamanho da nossa sensibilidade e da capacidade de nos encantarmos, a cada dia, com aquilo que a vida nos oferece. Assim, não se lamente jamais pelos pedacinhos que deixou pelo caminho. Tenho certeza de que tudo valeu a pena.
quarta-feira, 11 de março de 2009
NEM OITO, NEM OITENTA
Ana Hertz
Março de 2009
Quem já não se viu numa tremenda saia justa, quando alguém se desmancha em elogios a uma determinada pessoa sobre a qual nosso juízo não é lá dos melhores e e insiste em saber sua opinião? E quem ainda não ouviu a pergunta – Como é que a fulaninha ainda não largou aquele marido insuportável? Provavelmente, quem tem essa dúvida também é alvo de comentários parecidos. Quem ama o feio, bonito lhe parece, diz o velho e perfeito ditado. Os americanos e ingleses, usando outras palavras, concordam com a idéia - The beauty is in the eye of the beholder.
Aqui nos Estados Unidos, em fevereiro, comemora-se o President’s Day. A tradição começou com George Washington, o primeiro a governar a nação e que aniversariava nesse mês. Com o tempo, o feriado democratizou-se e são festejados todos os que já passaram pela Casa Branca.
Agora nesse fevereiro de 2009, como fez 200 anos do nascimento de Abraham Lincoln, toda a mídia se mobilizou para falar nele. Aproveitei para dar uma olhada e descobrir mais um pouco sobre o homem que enfrentou uma terrível guerra civil e que foi o primeiro de uma série de presidentes americanos assassinados. Acabei vendo que faz parte daquele grupo que as pessoas amam ou odeiam. Não há meio do caminho. Foi considerado, por muitos, uma das maiores heranças políticas americanas de todos os tempos, um verdadeiro gênio, e até hoje lhe são rendidas homenagens de variados tamanhos. Obama, dias antes de assumir a presidência, fez uma visita ao belíssimo memorial Lincoln, ali mesmo em Washington, dizendo que ia pedir a benção ao ilustre ex-presidente.
Em contrapartida, por outra grande parte da população, foi chamado de incompetente, desonesto, e de caipira quase retardado, em termos de inteligência. Na época da guerra da secessão, qualquer coisa que dissesse era interpretada, pelos jornalistas do Norte, como se tivesse oferecido um ramo de oliveira, símbolo da misericórdia divina, enquanto os periódicos do Sul diziam, sobre as mesmas palavras, que Lincoln havia apontado o braço com uma espada! Fiquei impressionada, pois não imaginava que houvesse essa discórdia sobre o famoso dirigente. Provavelmente, não era nem uma coisa, nem outra.
Sempre a mesma coisa. Cada cabeça, uma sentença. Não são apenas nossos olhos amorosos, benevolentes, ou, por outro lado, impiedosos ao extremo. Julgamos, também, segundo o momento pessoal, conforme andam nossas necessidades emocionais, nossos desejos não atendidos. No amor, por exemplo, grandes paixões, cujos objetos são os seres mais perfeitos do universo, não passam de resposta a uma carência afetiva, falta de companhia... O pior é que gente nem sempre percebe.
Quando estive agora na Califórnia, aproveitei para ver, em San Francisco, o badalado musical Wicked, que recebeu 4 Tonys! Adorei, vale realmente a pena ver. Trata-se da história “não contada” da famosa e odiada Bruxa do Oeste, no Mundo de Oz, com a eterna discussão sobre o Bem e o Mal.
Uma das músicas mais animadas é a do Mágico de Oz, nosso velho conhecido. Ele vem conversar com Elphaba, que vai se tornar a “malvada” Bruxa do Oeste e, com a maior tranqüilidade, explica porque é o “dono” do lugar. Diz que nem planejou estar ali, pois sempre teve consciência de sua mediocridade. O que aconteceu é que ele, agora respeitado e adorado, simplesmente apareceu na hora em que o povo de Oz precisava de alguém em quem acreditar. E que, como os cidadãos começaram a chamá-lo de Mr. Wonderful, ele passou a ser realmente uma” maravilha”.
É claro que a jovem se revolta com isso. Como pode ele mentir para as pessoas, fazendo-se passar por alguma coisa que não é? Mentiras? Para ele, isso não significa nada demais. Explica, então, que veio de um lugar onde a maioria das coisas contadas não representam a verdade, mas mesmo assim quase todo mundo acredita nelas. E que essas “realidades” formam o que se chama de História! A platéia veio abaixo nessa hora... Uma crítica bastante inteligente, apresentada de forma muito divertida.
E sobre o que se diz das pessoas, continua o Mágico de Oz, lembra que, para uns tantos, o sanguinário invasor é, apenas, um bravo cruzado, defensor dos fracos e oprimidos; o rico filantropo, para aqueles que o odeiam, nada mais é do que um ladrão inescrupuloso; e como melhor exemplo, fala no valente libertador que, para a oposição, é um execrável traidor! Enfim, afirma que tudo se resume ao que o rótulo é capaz de convencer!
E é isso mesmo... Tirando uns poucos, está todo mundo ali no meio, nem oito, nem oitenta. Se ouvir falar bem demais de um presidente, dê um desconto... Talvez a empresa de propaganda tenha sido a melhor do mundo. Se ouvir falar mal até não poder mais... pode ser que tenham sido os inimigos que espalharam a versão, e o publicitário contratado não deu conta.
Levando em consideração as palavras do Mágico de Oz, vou sair e procurar logo um bom marqueteiro para falar bem do meu Blog, preparando um bom rótulo para ele. Talvez, assim, eu consiga o Nobel de Literatura... ou, pelo menos, o Prêmio Jabuti.
Para ser bem sincera, sei que nem o Washington Olivetto vai dar conta dessa tarefa. Mesmo sendo ele, no mundo da publicidade, OITENTA, o problema é que eu, na Literatura, sou OITO.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
LOVE IS A MANY SPLENDORED THING
LOVE IS A MANY SPLENDORED THING
Ana Hertz
Fevereiro de 2009.
William Holden e Jennifer Jones. Um amor impossível. Um filme e trilha musical que marcaram época. No Brasil, chamou-se Suplício de uma saudade. Gosto mais do título em inglês, mais romântico. Quem, dos 55 aos 90, não se lembra deles?
Toda geração tem pelo menos uma história que marca, de forma indelével, seus sonhos de amor. As mulheres, incorrigíveis românticas, ficam invariavelmente tocadas por muitos desses conhecidos contos. Romeu e Julieta continuam em primeiríssimo lugar dentre o que há de mais belo na literatura amorosa de todos os tempos.
Não podemos deixar de fora Cinderela, outro romance muito charmoso, que ficou imortalizado no desenho animado de Walt Disney e, mais recentemente, reapareceu com o filme Pretty Woman, que juntou Julia Roberts e Richard Gere. O conhecido ator, fazendo o papel de um empresário rico e solitário, representou o príncipe encantado que salva a mocinha pobre, prostituta, montado em seu belo “cavalo branco”- uma limousine por certo branca e, em vez da espada, um guarda-chuva.
Minha geração se lembra, com saudades, de outros tantos filmes que da mesma forma mexeram com nosso coração. Eu nem sei quantas vezes vi o Candelabro Italiano, com Suzanne Pleshtte, Troy Donahue, Angie Dickinson e Rossano Brazzi. Quase tantas quanto o musical West Side Story, que trazia Romeu e Julieta em versão século XX. Todas as mocinhas de então suspiraram com essas produções de Hollywood.
Na verdade, são umas poucas histórias que vão sendo contadas, recontadas, adaptadas, algumas trazendo interessantes novidades, mas, no fundo, são sempre as mesmas. As formas de contá-las é que ainda não se esgotaram. Portanto, ainda veremos muitas outras versões para dois jovens que se apaixonam e que não conseguem ficar juntos. Todas elas farão com que muita gente derrame um mar de lágrimas no unhappy end.
Felizmente, não há só Romeus e Julietas... Temos Cinderelas, Belas Adormecidas e outras tantas que se dão bem com seus príncipes encantados. E vivem felizes para sempre, nem que seja até a página 20. Agora, temos o tal do High School Musical, com os heróis românticos Troy e Gabriella. Eu já assisti o terceiro da série com minhas netas e um bando de amiguinhas. Elas adoraram!
Ê evidente que nós, mulheres, somos corajosas o suficiente para confessar a emoção quando nos deparamos com histórias de amor, com ou sem final feliz. Os anos passam e continuamos acreditando que o amor existe ou que pode ser encontrado, caso ainda não tenhamos tido a sorte de esbarrar nele. Torcemos quando sabemos de novos romances, encontros, reencontros, reconciliações; enfim, tudo que se refere ao coração nos agrada bastante.
Os homens, ao contrário, costumam torcer o nariz para coisas dessa natureza. Perda de tempo convidá-los para um filminho açucarado. Vão acabar de mau humor, achando tudo um besteirol. Podemos dizer que esse comportamento encaixa-se perfeitamente em quase toda a população masculina. A sorte é que toda e qualquer amiga aceitará, com o maior prazer, ir conosco ver mais uma comédia romântica.
Por tudo isso, é que eu estava apavorada quando um de nossos alunos de Jiu-Jitsu nos pediu que conversássemos com os organizadores do campeonato de MMA marcado para o início de fevereiro. Queria que, no intervalo das lutas, fosse chamado ao palco com a noiva, que não saberia de nada até aquele momento, para que, ao microfone, ele a pedisse em casamento. Uma explicação importante: ela também treina conosco e adora campeonatos. Minha preocupação era de que os homens presentes, que formavam 95% da platéia, achassem aquilo tudo ridículo e se manifestassem vaiando até não poder mais. Aflita com o que poderia rolar, esperei ansiosamente o momento.
Na hora combinada, o apresentador, um brutamontes que mais parecia um armário, após comentar as lutas que haviam rolado até aquele momento, chamou o casal ao palco, sob um pretexto qualquer. Quando chegaram ao meio do ringue, Johnny rapidamente pegou o microfone e, de joelhos, pediu Julie em casamento, declarando seu amor e dizendo que ela era a mulher com que ele queria passar o resto da vida. Abrindo a caixinha de jóia, mostrou-lhe o anel de brilhantes que marcava o compromisso entre eles. Para minha mais agradável surpresa, o público todo aplaudiu de pé o jovem casal, sendo que pude perceber que estavam todos felizes com aquela cena... Aqueles homens que vieram ao evento para ver socos, pontapés, lutadores sangrando e tudo mais não aplaudiram apenas em sinal de educação e gentileza... Ficaram realmente tocados com Johnny e Julie, nosso casal romântico do campeonato de MMA!
E hoje, conversando com minha amiguinha da aula de dança, Molly, viúva de 70 anos, fiquei encantada em saber que, no baile de ontem, o homem com quem dançou e conversou a noite inteira a fez perder o sono. E esse senhor, com seus 90 anos, talvez também tenha ficado acordado. Pena que não estava lá para ver isso! Contou-me, ainda, que ele, no final da festa, pediu-lhe que ligasse para a casa dele no dia seguinte para combinarem um encontro! Ela ainda esta na dúvida se deve ligar. Embora a tenha incentivado ao máximo, não sei se ela vai acatar minhas sugestões. Espero que sim. Quem sabe não se entendem e começam a namorar?
Eu estou achando que o amor, embora caia como uma luva no mundo feminino, sempre explicitamente sonhador, também passeia pelo universo masculino, mesmo que os homens não gostem de confessar. Muita gente acredita que apenas os poetas estão “autorizados” a falar dos amores e de suas dores. Tenho esperança de que isso mude, e que mais homens comecem a demonstrar o que sentem. Meu lado romântico vai torcer muito por isso. Afinal, como dizia Vinicius de Moraes, “...é melhor se sofrer junto que viver feliz sozinho”.
Ana Hertz
Fevereiro de 2009.
William Holden e Jennifer Jones. Um amor impossível. Um filme e trilha musical que marcaram época. No Brasil, chamou-se Suplício de uma saudade. Gosto mais do título em inglês, mais romântico. Quem, dos 55 aos 90, não se lembra deles?
Toda geração tem pelo menos uma história que marca, de forma indelével, seus sonhos de amor. As mulheres, incorrigíveis românticas, ficam invariavelmente tocadas por muitos desses conhecidos contos. Romeu e Julieta continuam em primeiríssimo lugar dentre o que há de mais belo na literatura amorosa de todos os tempos.
Não podemos deixar de fora Cinderela, outro romance muito charmoso, que ficou imortalizado no desenho animado de Walt Disney e, mais recentemente, reapareceu com o filme Pretty Woman, que juntou Julia Roberts e Richard Gere. O conhecido ator, fazendo o papel de um empresário rico e solitário, representou o príncipe encantado que salva a mocinha pobre, prostituta, montado em seu belo “cavalo branco”- uma limousine por certo branca e, em vez da espada, um guarda-chuva.
Minha geração se lembra, com saudades, de outros tantos filmes que da mesma forma mexeram com nosso coração. Eu nem sei quantas vezes vi o Candelabro Italiano, com Suzanne Pleshtte, Troy Donahue, Angie Dickinson e Rossano Brazzi. Quase tantas quanto o musical West Side Story, que trazia Romeu e Julieta em versão século XX. Todas as mocinhas de então suspiraram com essas produções de Hollywood.
Na verdade, são umas poucas histórias que vão sendo contadas, recontadas, adaptadas, algumas trazendo interessantes novidades, mas, no fundo, são sempre as mesmas. As formas de contá-las é que ainda não se esgotaram. Portanto, ainda veremos muitas outras versões para dois jovens que se apaixonam e que não conseguem ficar juntos. Todas elas farão com que muita gente derrame um mar de lágrimas no unhappy end.
Felizmente, não há só Romeus e Julietas... Temos Cinderelas, Belas Adormecidas e outras tantas que se dão bem com seus príncipes encantados. E vivem felizes para sempre, nem que seja até a página 20. Agora, temos o tal do High School Musical, com os heróis românticos Troy e Gabriella. Eu já assisti o terceiro da série com minhas netas e um bando de amiguinhas. Elas adoraram!
Ê evidente que nós, mulheres, somos corajosas o suficiente para confessar a emoção quando nos deparamos com histórias de amor, com ou sem final feliz. Os anos passam e continuamos acreditando que o amor existe ou que pode ser encontrado, caso ainda não tenhamos tido a sorte de esbarrar nele. Torcemos quando sabemos de novos romances, encontros, reencontros, reconciliações; enfim, tudo que se refere ao coração nos agrada bastante.
Os homens, ao contrário, costumam torcer o nariz para coisas dessa natureza. Perda de tempo convidá-los para um filminho açucarado. Vão acabar de mau humor, achando tudo um besteirol. Podemos dizer que esse comportamento encaixa-se perfeitamente em quase toda a população masculina. A sorte é que toda e qualquer amiga aceitará, com o maior prazer, ir conosco ver mais uma comédia romântica.
Por tudo isso, é que eu estava apavorada quando um de nossos alunos de Jiu-Jitsu nos pediu que conversássemos com os organizadores do campeonato de MMA marcado para o início de fevereiro. Queria que, no intervalo das lutas, fosse chamado ao palco com a noiva, que não saberia de nada até aquele momento, para que, ao microfone, ele a pedisse em casamento. Uma explicação importante: ela também treina conosco e adora campeonatos. Minha preocupação era de que os homens presentes, que formavam 95% da platéia, achassem aquilo tudo ridículo e se manifestassem vaiando até não poder mais. Aflita com o que poderia rolar, esperei ansiosamente o momento.
Na hora combinada, o apresentador, um brutamontes que mais parecia um armário, após comentar as lutas que haviam rolado até aquele momento, chamou o casal ao palco, sob um pretexto qualquer. Quando chegaram ao meio do ringue, Johnny rapidamente pegou o microfone e, de joelhos, pediu Julie em casamento, declarando seu amor e dizendo que ela era a mulher com que ele queria passar o resto da vida. Abrindo a caixinha de jóia, mostrou-lhe o anel de brilhantes que marcava o compromisso entre eles. Para minha mais agradável surpresa, o público todo aplaudiu de pé o jovem casal, sendo que pude perceber que estavam todos felizes com aquela cena... Aqueles homens que vieram ao evento para ver socos, pontapés, lutadores sangrando e tudo mais não aplaudiram apenas em sinal de educação e gentileza... Ficaram realmente tocados com Johnny e Julie, nosso casal romântico do campeonato de MMA!
E hoje, conversando com minha amiguinha da aula de dança, Molly, viúva de 70 anos, fiquei encantada em saber que, no baile de ontem, o homem com quem dançou e conversou a noite inteira a fez perder o sono. E esse senhor, com seus 90 anos, talvez também tenha ficado acordado. Pena que não estava lá para ver isso! Contou-me, ainda, que ele, no final da festa, pediu-lhe que ligasse para a casa dele no dia seguinte para combinarem um encontro! Ela ainda esta na dúvida se deve ligar. Embora a tenha incentivado ao máximo, não sei se ela vai acatar minhas sugestões. Espero que sim. Quem sabe não se entendem e começam a namorar?
Eu estou achando que o amor, embora caia como uma luva no mundo feminino, sempre explicitamente sonhador, também passeia pelo universo masculino, mesmo que os homens não gostem de confessar. Muita gente acredita que apenas os poetas estão “autorizados” a falar dos amores e de suas dores. Tenho esperança de que isso mude, e que mais homens comecem a demonstrar o que sentem. Meu lado romântico vai torcer muito por isso. Afinal, como dizia Vinicius de Moraes, “...é melhor se sofrer junto que viver feliz sozinho”.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
HA MAIS COISAS ENTRE O CÉU E A TERRA...
HA MAIS COISAS ENTRE O CÉU E A TERRA...
Ana Hertz
Fevereiro de 2009
Resolvi ir, com meu filho, assistir a um evento chamado MMA, uma versão aprimorada e bastante estruturada do nosso antigo vale-tudo. Mixed Martial Arts quer dizer que variadas técnicas são aplicadas nas competições, dentre outras o boxing,o kickboxing, o wrestling Greco-romano, predominando, sem dúvida, o nosso Brazilian Jiu-Jitsu.
Não foi uma decisão qualquer, uma coisa repentina. Desde que vim para os Estados Unidos, no ano passado, estou querendo descobrir o que há por trás deste esporte que, envolve milhões e milhões de dólares, com um sem número de canais de televisão falando disso dia e noite. Acreditem, não é exagero meu; simplesmente, é dia e noite com o mesmo assunto!
Além do mais, eu sabia que iríamos ser testemunhas de um pedido de casamento em pleno ringue, no intervalo das lutas agendadas. Um raro acontecimento. Eram novidades suficientes para me fazerem encarar a pancadaria... Sempre fui curiosa. Einstein dizia que não era talentoso, considerando-se, apenas, apaixonadamente curioso por tudo. Quem sabe chego lá? E sobre esse pedido de casamento, fica para uma outra conversa, pois sempre vale a pena falar de amor.
Como teríamos a festa de noivado dos nossos alunos no Hilton Hotel logo após o evento esportivo, já fui devidamente paramentada, mesmo receando estar vestida de modo por demais formal. Na minha imaginação, iria encontrar todo mundo de camiseta e calça jeans, tipo desarrumadinho. Surpreendi-me. Minha roupa não descombinava em cuidado ou padrão com que o que usaram as demais mulheres... apenas, elas eram mais jovens e se vestiram de acordo com a própria faixa etária; na verdade, todo mundo estava querendo fazer bonito.
Era um ginásio de tamanho médio, com aquele ringue que chamam de “cage” no meio. Pensei logo – Realmente combina com a palavra “jaula”. Essas pessoas se socando até não aguentar mais... E, enquanto não começava a primeira luta, aproveitei para fazer uma social com os alunos da academia de meu filho, que estavam ali para prestigiar e torcer por dois deles, que vinham se preparando para aquele dia havia semanas. Tirei fotos, conversei, perguntei pela família; enfim, tudo do jeito afetivo com que nos relacionamos com os pares.
Um dos nossos estava escalado para a primeira luta da noite. Quando o vi pisar no palco, meu instinto maternal acendeu. Fiquei pensando no meu filho, a cujas lutas nunca tive coragem de assistir; não queria ver o que eventualmente poderia acontecer com ele. Dessa vez, felizmente, ele estava no ringue apenas como treinador. O gongo soou e os lutadores começaram. Fechei os olhos no primeiro soco.
De repente, descobri-me gritando: Go, Greg, go! Stay there, Greg, stay! Terrível constatação. A pacifista, a conciliadora, aquela que, em geral, evita discussões estava aos berros, incentivando Greg a socar o adversário. E foi também assim na luta de Nick, nosso outro aluno. Lá estava eu: That's it, Nick... that's it! A academia de Jiu-Jitsu de meu filho entrou na competição com dois lutadores e os dois saíram com troféu nas mãos. Torci enlouquecidamente pelos dois.
No dia seguinte, só pensava naquilo. Incentivara alguém a socar um outro e ficara feliz quando Greg e Nick, marcados pelos ataques sofridos, conseguiram derrotar os oponentes, que saíram mais machucados ainda. Pensei, pensei e acabei interpretando meu comportamento “feroz” e abominável. Acredito ter sido envolvida pela sensação de pertencimento que nós, humanos, precisamos sentir. Como animais gregários, o fato de fazer parte de um grupo, seja sob qual bandeira ou filosofia for, nos dá mais segurança, nos faz mais inteiros. E como já conheço a maioria dos alunos, sei um pouco de suas dores e de seus amores, senti-me em casa, torcendo pelo membro do“clube”que estava competindo.
É aí que mora o perigo. Quando fazemos parte de um todo, corremos o risco de nos“contaminar”, positiva ou negativamente, e nos descobrimos fazendo coisas do arco da velha. Dizem que o álcool e as drogas liberam forças internas, mas acho que a massa inebria e enlouquece de forma ainda mais impressionante. Comecei a pensar nas lutas dos gladiadores, com o povo gritando e incentivando quem estava na arena, nos torcedores de futebol que perdem o rumo quando seus times vencem ou são derrotados, enfim como o ser humano, imerso na multidão, extrapola a si mesmo. Seria quase perder a própria identidade em favor da alma coletiva. Falando francamente... é bastante assustador!
Eu achava que me conhecia; acabei percebendo que, mesmo já na décima quinta primavera, ainda posso me surpreender. E muito! Dessa água não beberei? Pode ser que sim, pode ser que não. É claro que jamais serei capaz de fazer coisas graves, de transgredir eticamente em qualquer situação, pois é uma questão de caráter, e disso não tenho qualquer receio. Mas estou desconfiada de que outras tantas cositas ainda podem pintar.
Assim, se ouvirem alguém contar que saí pelas estradas do Texas, numa Harley-Davidson potente, com roupa de couro e cabelos ao vento, junto com outros tantos motoqueiros, não duvidem, não. Apurem mais um pouco. Quem sabe pode até ser verdade? Não me conheço o suficiente para afirmar que sim, ou que não. Agora, sei bem que só o tempo e as circunstâncias poderão dizer quem eu realmente serei a cada novo momento da vida. Shakespeare já dizia que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Esqueceu de avisar que há muito mais ainda nesse imenso universo que existe dentro de cada um de nós. Para o bem ou para o mal.
Ana Hertz
Fevereiro de 2009
Resolvi ir, com meu filho, assistir a um evento chamado MMA, uma versão aprimorada e bastante estruturada do nosso antigo vale-tudo. Mixed Martial Arts quer dizer que variadas técnicas são aplicadas nas competições, dentre outras o boxing,o kickboxing, o wrestling Greco-romano, predominando, sem dúvida, o nosso Brazilian Jiu-Jitsu.
Não foi uma decisão qualquer, uma coisa repentina. Desde que vim para os Estados Unidos, no ano passado, estou querendo descobrir o que há por trás deste esporte que, envolve milhões e milhões de dólares, com um sem número de canais de televisão falando disso dia e noite. Acreditem, não é exagero meu; simplesmente, é dia e noite com o mesmo assunto!
Além do mais, eu sabia que iríamos ser testemunhas de um pedido de casamento em pleno ringue, no intervalo das lutas agendadas. Um raro acontecimento. Eram novidades suficientes para me fazerem encarar a pancadaria... Sempre fui curiosa. Einstein dizia que não era talentoso, considerando-se, apenas, apaixonadamente curioso por tudo. Quem sabe chego lá? E sobre esse pedido de casamento, fica para uma outra conversa, pois sempre vale a pena falar de amor.
Como teríamos a festa de noivado dos nossos alunos no Hilton Hotel logo após o evento esportivo, já fui devidamente paramentada, mesmo receando estar vestida de modo por demais formal. Na minha imaginação, iria encontrar todo mundo de camiseta e calça jeans, tipo desarrumadinho. Surpreendi-me. Minha roupa não descombinava em cuidado ou padrão com que o que usaram as demais mulheres... apenas, elas eram mais jovens e se vestiram de acordo com a própria faixa etária; na verdade, todo mundo estava querendo fazer bonito.
Era um ginásio de tamanho médio, com aquele ringue que chamam de “cage” no meio. Pensei logo – Realmente combina com a palavra “jaula”. Essas pessoas se socando até não aguentar mais... E, enquanto não começava a primeira luta, aproveitei para fazer uma social com os alunos da academia de meu filho, que estavam ali para prestigiar e torcer por dois deles, que vinham se preparando para aquele dia havia semanas. Tirei fotos, conversei, perguntei pela família; enfim, tudo do jeito afetivo com que nos relacionamos com os pares.
Um dos nossos estava escalado para a primeira luta da noite. Quando o vi pisar no palco, meu instinto maternal acendeu. Fiquei pensando no meu filho, a cujas lutas nunca tive coragem de assistir; não queria ver o que eventualmente poderia acontecer com ele. Dessa vez, felizmente, ele estava no ringue apenas como treinador. O gongo soou e os lutadores começaram. Fechei os olhos no primeiro soco.
De repente, descobri-me gritando: Go, Greg, go! Stay there, Greg, stay! Terrível constatação. A pacifista, a conciliadora, aquela que, em geral, evita discussões estava aos berros, incentivando Greg a socar o adversário. E foi também assim na luta de Nick, nosso outro aluno. Lá estava eu: That's it, Nick... that's it! A academia de Jiu-Jitsu de meu filho entrou na competição com dois lutadores e os dois saíram com troféu nas mãos. Torci enlouquecidamente pelos dois.
No dia seguinte, só pensava naquilo. Incentivara alguém a socar um outro e ficara feliz quando Greg e Nick, marcados pelos ataques sofridos, conseguiram derrotar os oponentes, que saíram mais machucados ainda. Pensei, pensei e acabei interpretando meu comportamento “feroz” e abominável. Acredito ter sido envolvida pela sensação de pertencimento que nós, humanos, precisamos sentir. Como animais gregários, o fato de fazer parte de um grupo, seja sob qual bandeira ou filosofia for, nos dá mais segurança, nos faz mais inteiros. E como já conheço a maioria dos alunos, sei um pouco de suas dores e de seus amores, senti-me em casa, torcendo pelo membro do“clube”que estava competindo.
É aí que mora o perigo. Quando fazemos parte de um todo, corremos o risco de nos“contaminar”, positiva ou negativamente, e nos descobrimos fazendo coisas do arco da velha. Dizem que o álcool e as drogas liberam forças internas, mas acho que a massa inebria e enlouquece de forma ainda mais impressionante. Comecei a pensar nas lutas dos gladiadores, com o povo gritando e incentivando quem estava na arena, nos torcedores de futebol que perdem o rumo quando seus times vencem ou são derrotados, enfim como o ser humano, imerso na multidão, extrapola a si mesmo. Seria quase perder a própria identidade em favor da alma coletiva. Falando francamente... é bastante assustador!
Eu achava que me conhecia; acabei percebendo que, mesmo já na décima quinta primavera, ainda posso me surpreender. E muito! Dessa água não beberei? Pode ser que sim, pode ser que não. É claro que jamais serei capaz de fazer coisas graves, de transgredir eticamente em qualquer situação, pois é uma questão de caráter, e disso não tenho qualquer receio. Mas estou desconfiada de que outras tantas cositas ainda podem pintar.
Assim, se ouvirem alguém contar que saí pelas estradas do Texas, numa Harley-Davidson potente, com roupa de couro e cabelos ao vento, junto com outros tantos motoqueiros, não duvidem, não. Apurem mais um pouco. Quem sabe pode até ser verdade? Não me conheço o suficiente para afirmar que sim, ou que não. Agora, sei bem que só o tempo e as circunstâncias poderão dizer quem eu realmente serei a cada novo momento da vida. Shakespeare já dizia que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Esqueceu de avisar que há muito mais ainda nesse imenso universo que existe dentro de cada um de nós. Para o bem ou para o mal.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
VALENTINE'S DAY
VALENTINE'S DAY
Ana Hertz
Fevereiro de 2009
Não se fala em outra coisa... não se vê nada a não ser cupidos e corações de todas as formas, cores e tamanhos. Até o Wells Fargo Bank está enfeitado com balões coloridos para não deixar ninguém esquecer o Valentine's Day.
Esse ano, o dia 14 de fevereiro vai cair num sábado, o que facilita comemorar a data. Fui pesquisar as origens e vi que não está muito claro de onde vem essa história do Valentine’s Day. Sobre o santo, descobri diferentes referências, sendo uma delas a de que estariam homenageando vários mártires com esse único nome. Das explicações, a melhor e a mais romântica, sem dúvida, é a de que foi um padre romano que, desobedecendo ordens do imperador Claudius, continuou celebrando, em segredo, casamento de jovens. O governante tinha sido informado de que os solteiros eram melhores guerreiros do que os casados ou viúvos. Assim, objetivando fortalecer o exército de Roma, baixou uma lei proibindo os homens de se casarem ainda jovens. Pobres das romanas... só se casavam com os mais velhinhos ou ficavam para titia. O protetor dos enamorados, quando descoberto, obviamente foi condenado à morte, tornando-se o símbolo dos que amam.
Também há quem afirme que o Vaticano teria estabelecido 14 de fevereiro para São Valentim para ofuscar a festa pagã celebrada no dia 15, a Lupercália, em homenagem ao deus Lupercus, protetor das colheitas e dos ataques dos lobos. Parece razoável a explicação, mesmo que a data não tenha sido incluída no calendário oficial dos santos católicos.
No século XIV, foi o conhecido poeta e filósofo inglês, Geoffrey Chaucer, considerado por muitos o pai da literatura inglesa e famoso por seus Contos de Canterbury, quem associou o nome do santo ao amor. E no século XIX, também na Inglaterra, a troca de cartões manifestando afeição tornou-se um costume, sendo que se acredita que, hoje, um bilhão de cartões são enviados por ano, no mundo, superados em número apenas no Natal.
Como no Brasil, que já no final de maio começam a falar no Dia dos Namorados, aqui também o comércio desde janeiro apresenta mil ofertas, divulga os produtos ideais para presentear, envia folhetos e faz tudo mais o que é possível. Vi preços especiais de Valentine até para limpeza de carpet! Já me avisaram que, no dia, fica impraticável sair para jantar fora, com todos os restaurantes superlotados, o trânsito simplesmente um tormento, e mesmo vaga para estacionar o carro fica difícil; enfim, bem parecido com nossa querida terrinha no dia 12 de junho.
Há, no entanto, algo bastante diferente e, sem dúvida, muito importante ao norte do Equador. Não vamos festejar, nesse próximo final de semana, apenas os grandes amores. Serão, sobretudo, os “pequenos” amores. Vamos homenagear os colegas de escola, alguns companheiros de trabalho, os amigos queridos, a familia toda... Minha neta Jade comprou 64 cartões para enviar. É claro que, com primeiras intenções (segundas intenções não valem de nada... somente as primeiras), ela vai mandar apenas um. Mas dentre os outros tantos que está preparando, quem sabe um deles vai acalentar algum coração meio tristonho? Nas lojas, a gente encontra cartões explicitamente amorosos, outros mais timidos, alguns bastante sarcásticos, uns tantos humorísticos... e também há cursos para aprendermos a confeccionar os nossos próprios! Uma festa animadíssima!
Dos produtos anunciados, o que mais me chamou atenção foi um soutien branco, todo enfeitado com centenas de corações vermelhos que, embora minúsculos, brilhavam enlouquecidamente. Mesmo que a Victoria's Secret seja uma das mais badaladas lojas de roupa íntima do mundo, eu duvido que, no Brasil, o tal soutien conseguisse agradar a quem tem um gosto mais apurado.
Amor, sublime amor... Vai de uma gostosa sensação de bem estar a uma forte atração por uma outra pessoa. Nesse meio do caminho, há milhões de sensações diferentes, e tudo impossível de se traduzir. Nem na antiga Grécia, com tantos sábios discutindo até sobre o sexo dos anjos, conseguiram estabelecer, com clareza, a diferença entre os conceitos das inúmeras palavras que usavam para falar desse sentimento tão complexo. Philia, eros, agape, xenia, storge? Na verdade, nem vem ao caso. Não precisamos explicar. Só queremos é sentir.
Mesmo sabendo que há fortes interesses comerciais por trás disso tudo, eu acho ótima essa ampliação do conceito do amor no Valentine's Day. Vamos poder dar um pouco de alegria para os que, eventualmente, estão sem um amor, no sentido estrito da palavra. Os encalhadinhos também serão lembrados! Vamos tentar não deixar ninguém de fora. Haverá sempre um cartão sendo entregue com um carinho especial, demonstrando o amor em sua forma mais inteira, sem pedir nada em troca, apenas agradecendo ao outro por estar por perto, por fazer parte de seu mundo, um amor do jeito que a gente gostaria que tivesse contaminado o mundo inteiro.
Bem, para não perder a oportunidade, aí vai um HAPPY VALENTINE'S DAY para você também!
Ana Hertz
Fevereiro de 2009
Não se fala em outra coisa... não se vê nada a não ser cupidos e corações de todas as formas, cores e tamanhos. Até o Wells Fargo Bank está enfeitado com balões coloridos para não deixar ninguém esquecer o Valentine's Day.
Esse ano, o dia 14 de fevereiro vai cair num sábado, o que facilita comemorar a data. Fui pesquisar as origens e vi que não está muito claro de onde vem essa história do Valentine’s Day. Sobre o santo, descobri diferentes referências, sendo uma delas a de que estariam homenageando vários mártires com esse único nome. Das explicações, a melhor e a mais romântica, sem dúvida, é a de que foi um padre romano que, desobedecendo ordens do imperador Claudius, continuou celebrando, em segredo, casamento de jovens. O governante tinha sido informado de que os solteiros eram melhores guerreiros do que os casados ou viúvos. Assim, objetivando fortalecer o exército de Roma, baixou uma lei proibindo os homens de se casarem ainda jovens. Pobres das romanas... só se casavam com os mais velhinhos ou ficavam para titia. O protetor dos enamorados, quando descoberto, obviamente foi condenado à morte, tornando-se o símbolo dos que amam.
Também há quem afirme que o Vaticano teria estabelecido 14 de fevereiro para São Valentim para ofuscar a festa pagã celebrada no dia 15, a Lupercália, em homenagem ao deus Lupercus, protetor das colheitas e dos ataques dos lobos. Parece razoável a explicação, mesmo que a data não tenha sido incluída no calendário oficial dos santos católicos.
No século XIV, foi o conhecido poeta e filósofo inglês, Geoffrey Chaucer, considerado por muitos o pai da literatura inglesa e famoso por seus Contos de Canterbury, quem associou o nome do santo ao amor. E no século XIX, também na Inglaterra, a troca de cartões manifestando afeição tornou-se um costume, sendo que se acredita que, hoje, um bilhão de cartões são enviados por ano, no mundo, superados em número apenas no Natal.
Como no Brasil, que já no final de maio começam a falar no Dia dos Namorados, aqui também o comércio desde janeiro apresenta mil ofertas, divulga os produtos ideais para presentear, envia folhetos e faz tudo mais o que é possível. Vi preços especiais de Valentine até para limpeza de carpet! Já me avisaram que, no dia, fica impraticável sair para jantar fora, com todos os restaurantes superlotados, o trânsito simplesmente um tormento, e mesmo vaga para estacionar o carro fica difícil; enfim, bem parecido com nossa querida terrinha no dia 12 de junho.
Há, no entanto, algo bastante diferente e, sem dúvida, muito importante ao norte do Equador. Não vamos festejar, nesse próximo final de semana, apenas os grandes amores. Serão, sobretudo, os “pequenos” amores. Vamos homenagear os colegas de escola, alguns companheiros de trabalho, os amigos queridos, a familia toda... Minha neta Jade comprou 64 cartões para enviar. É claro que, com primeiras intenções (segundas intenções não valem de nada... somente as primeiras), ela vai mandar apenas um. Mas dentre os outros tantos que está preparando, quem sabe um deles vai acalentar algum coração meio tristonho? Nas lojas, a gente encontra cartões explicitamente amorosos, outros mais timidos, alguns bastante sarcásticos, uns tantos humorísticos... e também há cursos para aprendermos a confeccionar os nossos próprios! Uma festa animadíssima!
Dos produtos anunciados, o que mais me chamou atenção foi um soutien branco, todo enfeitado com centenas de corações vermelhos que, embora minúsculos, brilhavam enlouquecidamente. Mesmo que a Victoria's Secret seja uma das mais badaladas lojas de roupa íntima do mundo, eu duvido que, no Brasil, o tal soutien conseguisse agradar a quem tem um gosto mais apurado.
Amor, sublime amor... Vai de uma gostosa sensação de bem estar a uma forte atração por uma outra pessoa. Nesse meio do caminho, há milhões de sensações diferentes, e tudo impossível de se traduzir. Nem na antiga Grécia, com tantos sábios discutindo até sobre o sexo dos anjos, conseguiram estabelecer, com clareza, a diferença entre os conceitos das inúmeras palavras que usavam para falar desse sentimento tão complexo. Philia, eros, agape, xenia, storge? Na verdade, nem vem ao caso. Não precisamos explicar. Só queremos é sentir.
Mesmo sabendo que há fortes interesses comerciais por trás disso tudo, eu acho ótima essa ampliação do conceito do amor no Valentine's Day. Vamos poder dar um pouco de alegria para os que, eventualmente, estão sem um amor, no sentido estrito da palavra. Os encalhadinhos também serão lembrados! Vamos tentar não deixar ninguém de fora. Haverá sempre um cartão sendo entregue com um carinho especial, demonstrando o amor em sua forma mais inteira, sem pedir nada em troca, apenas agradecendo ao outro por estar por perto, por fazer parte de seu mundo, um amor do jeito que a gente gostaria que tivesse contaminado o mundo inteiro.
Bem, para não perder a oportunidade, aí vai um HAPPY VALENTINE'S DAY para você também!
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