quinta-feira, 14 de outubro de 2010

UM LUGAR CHAMADO TEXAS
Maio de 2008
A palavra TEXAS tem origem indígena, como têm as designações de tantos outros lugares aqui da América. Veio do termo tejas, que é como se pronuncia, em Espanhol, o vocábulo tayshas da língua dos Hasinai, que significa amigo, aliado. É uma terra bem antiga, e especialistas, com auxílio do carbono 14, comprovaram que povos bastante desenvolvidos viveram por aqui, com evidências de tribos estabelecidas há mais de 11.000 anos!

É impressionante como o Espanhol é falado aqui nos Estados Unidos. Isso se deve não só à imigração de latinos no último século, que fazem de tudo para ficar por aqui, na esperança de uma vida melhor; no caso específico do Texas, como essas terras fizeram parte do México, que as perdeu em definitivo em 1848, no final da Guerra Mexicano-Americana, a língua original permaneceu com bastante força. Por não aceitar a anexação, aos Estados Unidos, da República Independente do Texas, que havia declarado sua independência em 1836, o México resolveu brigar para ter as terras de volta. Com a derrota, acabou sofrendo um prejuízo ainda maior, e lá se foi a área que hoje é formada pelos estados da California, Nevada, Utahm Novo México,
Texas, e parte do Arizona e do Colorado, ou seja, quase um terço do atual território americano. O Espanhol, então, marca sua presença, como se a querer lembrar a todos a origem das terras. O apelido do Texas é Lone Star State, por causa da estrela solitária da bandeira, que ostenta o vermelho, o azul e o branco; ela é praticamente igual à do Chile e só agora deixei de confundir as duas.
Segundo maior estado dos Estados Unidos, é também o segundo mais populoso, com aproximadamente 23 milhões de habitantes pelo censo de 2006. Só perde para a Califórnia, considerada um paraíso por muitos americanos e outros tantos forasteiros, que para lá se mudam. Talvez inspirados em Lulu Santos, que um dia avisou que ia para a Califórnia, viver a vida sobre as ondas, ser artista de cinema, pois o destino dele era ser star.
O território texano caracteriza-se por interessantes contrastes. As regiões ao norte e a leste apresentam rios, lagos e florestas, enquanto o sul e o oeste têm um clima mais árido, desértico em vários pontos. Há regiões em que você dirige horas e horas seguidas com a impressão de que não vai chegar a lugar nenhum, que se perdeu para sempre. Sentia-me, nessas viagens, como nos filmes - as estradas vazias, terra avermelhada ao redor, muitos cactus e, de repente, aparece um carro, e o motorista é um serial killer! Para compensar esses vazios, em outros pontos do estado, as cidades são tão próximas umas das outras que parecem ser uma só. De Houston, por exemplo, já não se sabe bem onde começa ou acaba.
Nos locais menos populosos é que surgiram os cowboys que são, hoje, um dos símbolos do estado. O interessante é que não estão apenas nas áreas rurais, e em todo canto há homens usando aquele típico chapéu e com botas bem características. Nas primeiras vezes que os vi, pensei que só estariam faltando os revólveres e as espingardas. Ledo engano, pois é o estado onde mais se vendem armas! Qualquer cidadão residente pode ter uma arma não registrada, desde que seja menor do que uma metralhadora ou do que um lançador de granadas. Pode até andar no carro com ela carregada, se o destino for um outro condado fora de sua origem, passando por um terceiro?! Mesmo sendo advogada, não consegui entender a razão desse terceiro condado. O problema é que nem mesmo o Departamento de Polícia tem idéia do armamento espalhado pelo Texas. Mesmo assim, a taxa de criminalidade é bem inferior a outros estados americanos.
A partir do início do século XX, o Texas, um estado agropecuário, viu sua economia diversificar-se e, atualmente, são as indústrias petrolífera e aeroespacial e o setor financeiro que possuem maior importância no seu desenvolvimento. São quilômetros e mais quilômetros de instalações petrolíferas, um movimento intenso de caminhões... realmente uma potência. Ë, sem dúvida, o estado que apresenta as melhores condições para superar os problemas trazidos pela recente crise. Sempre que penso em filmes passados no Texas, imagino naquelas cobras todas tentando pegar o personagem principal, o que sempre me pareceu um exagero, com cobras demais. Na verdade, é isso mesmo. São 72 tipos diferentes, sendo que 15 representam real perigo aos humanos. E as aranhas? Novecentos tipos diferentes! Felizmente, só duas são perigosíssimas, e uma é a nossa conhecida viúva negra. As outras 898 apenas assustam. E existem, nos parques, as Fire-Ants... só pelo nome já se adivinha que a picada dessas formigas queima como fogo.
Não são as cobras ou as aranhas aquilo que mais assusta mesmo todo mundo. São os furacões. O mais fraquinho tem ventos de 120 kilômetros por hora, e o mais forte passa de 250. Ainda não consegui entender direito a diferença entre furacão, ciclone, tornado e tufão, mas sei que todos são terríveis. E esses fenômenos aqui acontecem com freqüência. Se o furacão for dos mais fortes, o alerta é para que todos saiam de perto do litoral e procurem cidades mais para o interior. São milhões de pessoas de carro pelas estradas, e percursos que durariam 1 hora são percorridos em quase 20 horas. Por sorte, só peguei tempestades tropicais, também assustadores, mas os transtornos que causam são bem menores. Nos últimos anos, os piores furacões foram o Katrina e o Rita. Em 2005, o Katrina desalojou cerca de um milhão de pessoas, e o Rita, logo depois, fez estragos nas Bahamas, em Cuba, México e Estados Unidos. Importante lembrar que os nomes de furacões não são apenas femininos, como muitos engraçadinhos gostavam de contar - também são masculinos! Existe uma relação de nomes já definidos por um organismo internacional, que se repetem a cada seis anos. Os mais violentos têm sua denominação retirada da lista, talvez por superstição. Mas esses dois mais recentes, realmente terríveis, tinham nome de mulher...
E como sempre tudo tem dois lados, acabei descobrindo que os furacões desempenham importantes funções ecológicas – servem para renovar os mangues, reequilibrar a atmosfera e restaurar a salinidade dos estuários. Isso dá algum conforto aos que sofrem com as consequências? Por certo que não, mas não podemos negar que são necessários.
Novo assunto. Na Primeira Guerra Mundial, a frota de navios americanos foi escoltada para a Europa por um navio de guerra que homenageou o estado - USS Texas. Na Segunda Guerra, participou do desembarque na Normandia e foi “aposentado” em 1946, sendo, hoje, um museu flutuante. Em sua longa trajetória como um dos mais importantes vasos de guerra americanos, sofreu somente uma baixa, o que é um recorde bastante interessante. Na visita a esse ponto histórico, descobri que a Coca-Cola é mais antiga do que eu. No refeitório dos marinheiros, há uma máquina do refrigerante mais conhecido do mundo com sua inconfundível marca registrada. Foi produzida, primeiramente, como nova versão de uma bebida francesa, em 1884, ainda contendo álcool. Em razão de leis que proibiam a produção e ingestão de bebidas alcóolicas, seu inventor, em 1886, desenvolveu uma nova fórmula que não contrariava a lei. De início, foi vendida como medicamento, tornando-se logo bastante popular, pois diziam que curava dor de cabeça, neurastenia, dispepsia e, acreditem, impotência. Imaginem só. Era vendida em máquinas e somente em 1935 passou a ser comercializada em garrafas. Cheguei a fotografar uma dessas primeiras máquinas, bem semelhante a uma bomba de gasolina. Em latas, só em 1955.
Voltando ao Texas, descobri que tem várias cidades com nomes interessantes e que algumas apresentam coisas diferentes, insólitas mesmo. Paris, por exemplo, a melhor pequena cidade do estado, tem até uma réplica da Torre Eiffel. Só que com um chapéu de cowboy no alto. E que é vermelho! Gustave Eiffel, lá do céu, deve ter ficado louco quando viu isso. Seu maravilhoso projeto foi alterado e ganhou um adereço que não combina com a obra. Mais uma coisa diferente? Vá até Hunt, onde poderá visitar a réplica de Stonehenge, cuja altura equivale a pouco mais da metade do monumento original na Inglaterra, e que tem quase a mesma circunferência. Para completar, estão lá também réplicas das estátuas encontradas na Ilha de Páscoa. Pisa tem sua torre inclinada? A cidade texana de Groom tem uma também... só que é uma torre com um reservatório de água. Pensa-se logo que perdeu o prumo por causa de um furacão, mas não foi nada disso. Para atrair mais fregueses para seu restaurante, o dono do estabelecimento contratou engenheiros que atenderam ao seu sonho maluco e projetaram com a inclinação. O restaurante pegou fogo há algum tempo atrás e não existe mais. A torre, no entanto, continua inclinada e chamando atenção. Talvez sobreviva à maravilhosa torre italiana.
Confesso não saber qual dessas idéias é a mais estranha, mas um dos mais fortes candidatos é o Cadillac Ranch, em Amarillo, junto à histórica Rota 66. Um milionário excêntrico juntou dez cadillacs usados, daqueles “rabo de peixe”, e enterrou-os em seu campo de trigo até a metade, deixando de fora só a traseira. Os visitantes são convidados a ilustrar as carrocerias, cada um escrevendo o que quiser, desde declarações de amor eterno, passando por estranhas mensagens ao mundo e chegando a manifestações delirantes. Os menos ousados preferem escrever apenas o nome ou as iniciais. Entretanto, quando a excentricidade faz com que um milionário chinês reconstrua a Cidade Proibida de Beijing, talvez possamos aplaudir de pé. Temos, em Houston, uma espécie de parque temático histórico, que é realmente um assombro. Em réplicas com 1/3 do tamanho original, podemos ver o exército de 6.000 soldados em terra-cota do Imperador Qin. E a cidade em si apresenta-se com um vigésimo do tamanho original. Não sei se procede a informação, mas soube que os próprios chineses que moram no Ocidente preferem vir ver essa aqui a enfrentar toda a burocracia para ir até a China.
E como se não bastasse, surpreendi-me, há alguns dias, com uma das paisagens mais belas que já vi. Eram oito e meia, e a noite acabara de chegar. O Centennial Park, todo gramado, parecia um lago verde, margeado por árvores majestosas, belíssimas... não se vislumbrava uma única construção. No céu do mais puro azul escuro, uma enorme lua cheia, dourada, mas tão dourada, que custei a acreditar no que estava vendo. Emocionada, torci pelos que, naquele momento, sonhavam com seus amores. Implorei aos poetas que pensassem suas rimas e, com a magia daquela lua, encantassem as palavras e fizessem nascer os mais belos poemas... Era a Natureza, vitoriosa, exuberante. As estrelas, escondidas, não quiseram aparecer, humilhadas com tamanha beleza. O Texas me oferecia um céu para que eu nunca mais pudesse esquecer essa terra que, honrando seu nome, fez com que eu me sentisse em casa, entre grandes amigos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

APROVEITANDO PARA DAR UNS PALPITES
Setembro de 2010.

Para animar ainda mais o encontro de amigos, Emidio e eu passamos alguns dias procurando coisas divertidas... e conseguimos um material bastante interessante. Olhamos adesivos em jornaleiros, viajamos pelo fascinante universo do Google e, finalmente, folheamos muitos livros. Recortamos, então, versos de grandes poetas, pescamos pérolas de alguns filósofos, enfim, bebemos em incontáveis fontes de informação. Para o bem e para o mal.
Do que escolhemos, selecionei umas poucas coisas que não necessariamente são as melhores que foram ditas ou escritas, mas me parecem apropriadas para palpites. Outras se bastam... nem mesmo vou comentar, apenas transcrever
Tenho certeza de que Martha Medeiros e eu não fomos criadas pela mesma mãe, a minha no caso, mas a poeta pensa igualzinho à D. Eny, que afirmou, quando eu beirava os 30 anos, que quem tem juízo não se diverte. Vejam que belos versos a escritora gaúcha escreveu sobre isso: “Mesmo tendo juízo/não faço tudo certo/todo paraíso/precisa de um pouco de inferno”
Dela, trago, ainda, outra idéia bem interessante – “Tenho urgência de tudo que deixei para amanhã”. Na mesma linha, Picasso tinha dito: “O que já fiz não me interessa/Só penso no que ainda não fiz”. Nem vou tentar inventar outro jeito de dizer a mesma coisa – vou apenas concordar!
Oscar Wilde foi outro que sempre me encantou, e não foi difícil conseguir dezenas de pérolas dele. Escolhi três. A primeira é “Todas as pessoas fascinantes têm vícios: está aí o segredo de sua fascinação.” Agora que entendi essa história toda, vou colecionar outras tantas, vamos dizer, manias... pode funcionar!
Como ele adorava polemizar, foi bastante ácido quando diagnosticou: “As mulheres malvadas nos atormentam... as boas nos aborrecem.” Não parou por aí e afirmou que “Podemos resistir a tudo, menos às tentações.” Estaríamos, então, perdoados, por atender aos próprios desejos? Há controvérsias a esse respeito.
Por falar em tentações e mulheres malvadas, achei muito bom o que Picasso disse sobre a mulher ideal: “Um homem só encontrou a mulher ideal quando olhar seu rosto e vir um anjo e, tendo-a nos braços, ter as tentações que só os demônios provocam.” Ótimo tema para homens e mulheres discutirem noite a dentro.
Na verdade, não só as pessoas que têm vícios nos fascinam - é claro que também as pessoas que se mostram sensíveis são irresistíveis, Quando li “A menina que roubava livros”, de Markus Zusak, fiquei encantada com o jeito simples de filosofar do jovem escritor australiano. Impossível encontrar quem discorde de que “É difícil não gostar de alguém que não apenas nota as cores, mas fala delas.”
E falando em sensibilidade, não poderia deixar Charles Chaplin de fora. A maioria de nós apenas se lembra de suas comédias do tempo do cinema mudo, comédias que derramavam poesia e, por vezes, faziam a gente chorar. Do que dizia o genial criador de Carlitos, escolhi “Não devemos ter medo de confrontos. Até mesmo os planetas se chocam. E do caos nascem as estrelas.” Bem, modus in rebus. Alguém quer discutir isso?
Nessa busca de coisas interessantes, por certo esbarrei em Nietzsche, filósofo que, confesso, às vezes me irrita. Não tenho mais idade para ser hipócrita e esconder meus gostos e desgostos. Ele adorava falar mal das mulheres e, por mais que eu consiga dar um desconto em nome de sua obra como um todo, não gosto disso. Assim, para me ajudar a ser imparcial, lembrei-me de que ninguém é lúcido o tempo todo. Abandonando minha implicância, pude trazer duas maravilhas dele. Ambas falam do amor, da razão e da loucura, e nem sei de qual gosto mais. Vocês podem escolher entre “Há sempre um pouco de loucura no amor. Mas existe sempre um pouco de razão na loucura” e “O amor é o estado em que o homem é capaz de ver as coisas tal qual elas não são.” Acrescento o ditado popular – “O amor é cego...e surdo, também!”
No momento em que pensei na Arte, não resisti, fui em busca de Nietzsche de novo, e não vou discordar de uma vírgula do que encontrei! Que tal “Temos a arte para não morrer da verdade”? Com mais vigor, afirmou que “A arte deve, antes de tudo e em primeiro lugar, embelezar a vida e, portanto, fazer com que nós próprios nos tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros”. Desse jeito, vou acabar achando Nietzsche o máximo.
Deixo sempre bem claro que detesto quando alguém fala na “terceira idade” ou na “melhor idade”. Ainda não acharam palavras apropriadas para essa fase da vida em que a maioria de nós ainda tem uma grande dose de energia vital, que ainda sonha, constrói, aproveita a vida e tudo mais, mas que, não há como negar, já dobrou a esquina. Ouvi, outro dia, uma definição engraçada – a juventude da velhice é a “juventice”. De qualquer forma, o termo velhice é meio assustador. Para nos consolar, Picasso dizia sempre que “Leva muito tempo para nos tornarmos jovens.” E quem levar essa idéia a sério pode aproveitar muito de todo o tempo que ainda nos resta. Eu tenho conseguido!
Hoje, dia 7 de setembro, nossa comemoração da Independência é mencionada na campanha eleitoral que toma conta do país inteiro. Cabe lembrar que o fantástico Bernard Shaw, um dia qualquer lá atrás, escreveu uma jóia com a qual muitos concordam sem pestanejar – “Ele não sabe nada e pensa que sabe tudo. Isso aponta claramente para uma carreira política”. Triste, mas verdadeiro, não?
Aproveitando o feriado chuvoso, tinha pensado em dar mil palpites sobre tudo isso, mas logo percebi que não havia muito a dizer. Escrevi um pouco para não apresentar apenas uma sequência de pensamentos, e também por ser uma palpiteira e tanto. Mas todos os comentários são desnecessários. Termino, então, com algumas raridades/barbaridades que não devem ser levadas a sério. Resolvi trazê-las apenas a título de curiosidade, certa de que os homens que estão à nossa volta jamais concordariam com o que está escrito.
“Todas as mulheres que seduzirem e levarem ao casamento os súditos de Sua Majestade mediante o uso de perfumes, pinturas, dentes postiços, perucas e recheios nos quadris, incorrem em delito de bruxaria e o casamento fica automaticamente anulado.”
(Constituição Nacional Inglesa do século XVIII)
“O pior adorno que uma mulher pode querer usar é ser sábia.” (Lutero - século XVI)
“A mulher deve adorar o homem como a um deus. Toda manhã, por nove vezes consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados, perguntar-lhe: - Senhor, que desejais que eu faça?” (Zaratustra – filósofo persa – século VII A.C)
“Inimiga da paz, fonte de inquietação, causa de brigas que destroem toda a tranqüilidade, a mulher é o próprio diabo.” (Petrarca – século XIV)
Foram lembrados, aqui, grandes pensadores, poetas, enfim, pessoas consideradas geniais. Mas o autor (anônimo) que nos legou a filosofia “etílica” que encerra essa conversa foi, sem dúvida, muito criativo – “A cachaça e a cerveja são os maiores inimigos do homem. Mas o homem que foge de seus inimigos é um covarde!” Com uma caipirinha de maracujá na mão, convido todos - Vamos à luta!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O SONHO DE ÍCARO

O avião ainda taxiava na pista do aeroporto em Dallas, quando ouvi a aeromoça avisando, pelo sistema de comunicação, que nove pessoas haviam desafivelado o cinto de segurança antes da autorização do capitão! Que colocassem o cinto novamente, sob pena de terem o número de seus assentos divulgados! Ou seja, todo mundo saberia quem eram os infratores. Imaginei-me estrela” do Big Brother, vigiada a cada segundo! Não posso fazer uma bobagenzinha sequer e sou logo descoberta. George Orwell, sem dúvida, sabia das coisas, e 1984 não pode ser considerada obra de pura ficção. Assustador, não?
Adoro viajar, mas confesso – morro de medo de avião. A preocupação se instala no momento da emissão do bilhete aéreo, e o pavor vai e volta o tempo todo. Resisto bravamente e não desisto nunca. Especialistas dizem que o avião é o meio de transporte mais seguro e, felizmente, todas as estatísticas confirmam. Levantamento feito nos Estados Unidos, englobando um período de cinco anos, mostrou que as mortes em desastres aéreos corresponderam a 0,08% do total, enquanto as fatalidades nas estradas somaram 39%! Estar num carro é 487 vezes mais perigoso do que andar de avião. E mais! As atividades domésticas nos expõem a acidentes 224 vezes mais do que viajar pelos céus. Cada vez que me atrevo a cozinhar, tenho consciência de que o perigo me ronda e, por isso, decidi visitar pouco essa área do apartamento. Por que correr o risco de me cortar com uma faca afiada, ou sofrer uma queimadura dolorosa?
Tais números não me deixam mais calma... o medo é irracional, eu sei, como todos os outros que carregamos vida afora. Provavelmente, é porque não posso abrir a janela e pular para o chão, e também porque o piloto não vai estacionar para que eu desça, caso seja preciso. Psicólogos dizem que esse medo tem a ver com receio de mudanças, pavor de coisas novas, e coisas do estilo. No meu caso, todos sabem que isso não faz o menor sentido... precisam descobrir outra razão para me explicar.
O ser humano, desde que tomou consciência do mundo, quis voar, e temos Ícaro talvez como o mais famoso dos aficionados. Depois que conseguiu fugir do Labirinto de Creta com as asas que seu pai, Dédalo, havia fabricado, não quis mais parar. Inebriado pela sensação de liberdade que sentia, aproximou-se demais do Sol, como sabemos, e acabou morrendo afogado no mar onde caiu.
Nós, brasileiros, temos Santos Dumont, considerado pioneiro da Aviação por nós e pelos franceses. Aqui nos Estados Unidos, como na maioria dos países, são os irmãos Wright que levam o crédito. Consta que esses dois voaram três anos antes do 14-Bis dar seu show, mas fato é que não foi um vôo com motor aeronáutico, não houve testemunhas e, o mais grave, não estava lá um comitê científico para aprovar o feito. O “avião” deles foi catapultado, tendo apenas o mérito de se manter um tempo no ar... e isso me parece bem diferente do vôo realizado pelo nosso brasileiro.
Vindo de família próspera, Santos Dumont pode aperfeiçoar seus conhecimentos de mecânica na França, onde, em outubro de 1906, realizou o primeiro vôo com um aparelho mais pesado do que o ar, que havia levantado vôo por seus próprios meios, sem o auxílio de catapultas. O 14-Bis cumpriu um circuito pré-estabelecido, na presença de especialistas do Aeroclube da França e de testemunhas, percorrendo 60 metros, a 2 metros do chão. Menos de um mês depois, diante de muitas testemunhas, nosso gênio conseguiu voar a cerca de 6 metros de altura por 220 metros! Digam o que disserem, para mim, é ele o pai da Aviação. Foi uma pena que ele não tenha patenteado suas invenções, como fizeram os outros de sua época. Seria a prova perfeita para apresentar aos fãs dos Wright. Ele era, provavelmente, um ser humano modesto, a quem não interessavam as honrarias. Não pude comprovar, mas li que, embora eleito para a Academia Brasileira de Letras, não assumiu a cadeira que lhe foi reservada.
Nosso Ícaro não se afogou no mar. Apressou sua partida definitiva para o céu, em 1932, afogado num mar de desilusão e de tristeza ao ver seu invento usado para levar a morte, durante a Primeira Guerra Mundial. Uma pena.
Para alegrar essa conversa, mudo de assunto. Voltava da Philadelphia para Houston e, como tinha pouco tempo até a hora do embarque, não quis me atracar com o livro que levava na bolsa. Achei que seria muito mais interessante apreciar o espetáculo da vida, cujos atores são as pessoas que transitam por aí, a maioria sem ter tido, ainda, seus 15 minutos de glória. Eis que surge, empurrando um carrinho de bebê rosa, uma loura cinquentona, corpo bem feito recoberto por um conjunto de plush preto, uma daquelas a quem todos chamam de “perua”. A madame chamava atenção, sem dúvida. E logo, logo, todos ostentavam um sorriso debochado. Não era um lindo bebê que ia naquele carrinho: via-se uma cachorrinha poodle, daquelas mínimas, que bem parecia filha da Madame, uma verdadeira peruinha. Com mil lacinhos fúcsia, fazia o maior charme recostada na bolsa de fraldas padrão onça que também fazia parte do show.
Depois que as duas entraram no finger, a funcionária responsável pelo embarque comentou que se diverte muito observando quem passa por aquela sala de espera. Não mencionou diretamente o carrinho de bebê com a cachorrinha, mas era óbvio que era isso que a fazia rir. Toda essa história me distraiu e, quando entrei no avião, sentia menos medo.
A tal funcionária deve ter estímulos de todo tipo para se divertir, pois o movimento nos aeroportos americanos sempre me impressiona, mesmo acostumada a ir também à Europa, onde está o aeroporto com maior volume de vôos internacionais, o Heathrow, em Londres. Mas aqui nos Estados Unidos, as estatísticas são, realmente, um assombro.
Tenho vindo para Houston pela Delta, que oferece bons preços e viagens bem confortáveis. É obrigatória a escala em Atlanta, que tem seu aeroporto de inacreditáveis dimensões sempre lotado. São 182 pontos de embarque, com 1.300 vôos diários para 150 destinos internos e 95 no mundo afora. Em 2008, foram nada mais, nada menos do que 978 mil pousos e decolagens, com 90 milhões de passageiros passando por seus terminais. Ouvi dizer que ultrapassou os números do de Los Angeles, igualmente enorme e freqüentado. Para se ter uma idéia desses dados, é só comparar com o nosso Galeão, que tem vôos para 32 destinos no Brasil e 19 internacionais.
Falando em Brasil, temos uma estatística muito desagradável no que se refere ao aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, que é o sexagésimo sexto em movimento no mundo e, ao mesmo tempo, o terceiro em número de vôos atrasados!
Goethe perguntava – “Almejas voar, mas temes ficar tonto?”. Fico bastante tonta com os vôos de minha fértil imaginação, que me leva muito mais alto e mais longe do que qualquer avião ou foguete levaria. Sinto-me para além desse universo conhecido. Deve ter sido essa tonteira gostosa que os sonhos nos causam que levou Cecília Meirelles a nos dizer: “Liberdade de voar num horizonte qualquer, liberdade de pousar onde o coração quiser.” E lá vou eu, ao sabor do destino e da imaginação, decidindo, sem medo, onde vou querer pousar.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O PARAISO PERDIDO
Maio de 2010.


Os primeiros que o perderem foram Adão e Eva. Essa história da maçã e da serpente é uma grande complicação. A versão dada pela cultura judaico-cristã é aquela que conhecemos bem - eles foram proibidos de comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal; como desobedeceram, acabaram expulsos, deixando-nos, como herança, o pecado original. Eduardo Duseck, em seu CD Adeus, Batucada, canta que, por causa da serpente tentadora, o nosso Mestre os expulsou do Paraíso, mas que, para compensar, o coração de Adão, que era pobre, pobre de amor, cresceu e multiplicou o delicioso pecado original.
Já segundo o Alcorão, Deus acabou perdoando os dois, que vieram para a Terra como seus representantes. Adão é considerado um Profeta, na tradição islâmica. Interessante também é que uma das correntes dessa religião, corrente bastante importante, não considera que teria sido Eva a induzir Adão ao pecado. Ambos seriam responsáveis pelo que fizeram, enquanto que, para cristãos e judeus, Eva, pelo que fez, tornou as mulheres para sempre “culpadas”.
Descobri, para minha surpresa, que a versão sobre os filhos de Adão e Eva no Islamismo assemelha-se bastante ao Caim e Abel da Bíblia. Dentre outras coisas em comum, deparei-me com os Anjos Gabriel e Miguel atuando junto a Deus, e vi que, além do Adão, Noé, João Batista, Moisés, Abraão e, nada mais, nada menos, do que Jesus Cristo de Nazaré são profetas citados no Alcorão! E ficamos brigando em nome de um Deus que é, reconhecidamente, o mesmo para todo mundo!
Quanto a essas duas figuras na arte e na literatura, soube que, num determinado período, muitos pintores entraram em crise. Como colocar “umbigos” em Adão e Eva, se eles não nasceram com um cordãozinho que os ligasse ao útero materno? Alguns artistas, então, procuravam disfarçar essa área do corpo dos dois, cobrindo com a mão ou com folhas de parreira, para não terem que, de certa forma, posicionar-se quanto a essa questão. Curiosa, fui conferir num livro a “Criação de Adão”, de Michelangelo, aquela no teto da Capela Sistina, e que é uma das pinturas que mais me tocam a alma. Ali, encontrei o umbigo.
Na literatura, também são personagens contados e recontados através dos tempos. Talvez John Milton tenha feito a mais completa “reportagem” sobre a vida deles, em seu célebre poema épico “Paradise lost”, do século XVI. Quem sabe um dia eu me aventuro e vou ler por inteiro sobre essa perda do Paraíso? Deve ter detalhes bastante interessantes...
O tempo passou, e a palavra “paraíso” ganhou outros tantos significados, a maioria sem qualquer sentido religioso. Aqui na Terra, cada um de nós tem o seu, ou melhor, os seus, dependendo a qual compartimento do dia-a-dia pretendemos nos referir. Quando alguma coisa nos agrada muito, acabamos qualificando como um paraíso.
Tem o fiscal, por exemplo, muito em moda atualmente... Esse é objeto do desejo da imensa maioria, mas enquanto alguns poucos chegam lá, os comuns dos mortais não têm a menor idéia para que lado fica. Em Brasília, estão alguns que sabem, e o que nós, cidadãos, sabemos muito bem é de onde sai o dinheiro que vai para esse tipo de paraíso... do nosso bolso, mas para a conta deles!
De vez em quando, a gente ouve falar de algum político que está ameaçado de perder o que colocou nesse “Jardim do Éden”. Mas se trata, sempre, de mera ameaça... Como pertencem a um grupo muito unido, todos acabam conseguindo preservar o que consideram de sua propriedade... Para eles, é um paraíso imperdível!
Nessa semana, tomei conhecimento de uma das mais terríveis perdas de paraíso que alguém pode sofrer - Helena, uma lourinha de 5 anos que mais parece um anjinho barroco, linda, com um sorriso aberto e sincero, é filha de um dos alunos de jiu-jitsu na academia do Vinicius. Como nem sempre o pai tem com quem deixá-la enquanto treina, ela ajuda Mônica no escritório, escaneando os cartões de presença dos alunos para depois guardá-los na mais perfeita ordem alfabética. Uma menina esperta, comunicativa, encantadora. Pois não é que está fazendo um cursinho de 3 dias para aprender a evitar seu próprio seqüestro? Isso é, realmente, inacreditável! E, por mais terrível que possa parecer, é real. Como o número de crianças seqüestradas nesse país é significativo, existem esses treinamentos. Enfim, dói ver que as sociedades são tão cruéis com suas próprias crias que precisamos fazê-las amadurecer antes da hora e roubar-lhes, assim, o paraíso da inocência.
E temos as aves-do-paraíso, um grupo com mais de 40 espécies diferentes. A plumagem dos machos é a característica marcante desses pássaros, enquanto as fêmeas apresentam uma cor muito da sem graça. Acredito que sejam todas dotadas de uma grande beleza interior, que é o prêmio de consolação que todos oferecem para nós que não nascemos Giselle Bündchen – dizem que o que conta, na verdade, é a beleza interior. Acreditar? Talvez seja bom... Em contrapartida, os machos são normalmente solitários, enquanto as fêmeas estão sempre em grupo, desfrutando de uma bela vida social.
Essas aves perderam o paraíso quando os europeus chegaram aos seus habitats, lá pelos lados da Austrália e Nova Guiné. Mataram todas as que puderam para tirar suas penas e, assim, enfeitar os chapéus das madames, ou para exibi-las aos amigos, já taxidermizadas. O resultado é que existem, hoje, de uma dessas espécies, pouco mais de 10 exemplares no mundo! Enfim, mais um paraíso perdido.
Eu, recentemente, perdi o maravilhoso paraíso dos queijos, dos sorvetes, enfim, de tudo que é feito com leite ou um de seus derivados. Estou com a tal da intolerância à lactose, por falta da enzima lactase. Acho que ainda se trata de mera intolerância, não um caso de alergia, que seria muito mais complicado. Mas não deixa de ser deveras desconfortável. Tenho que escolher com muito cuidado o que vou comer nos restaurantes, por exemplo. Na casa dos outros, pior ainda. Fácil imaginar a saia justa quando a anfitriã aparece trazendo, como prato principal, por exemplo, uma enorme travessa de um Fettucine Alfredo... ou uma pizza aos quatro queijos. O fato de não comer essas delícias é uma frustração daquelas, e que vem acompanhada da desconfortável necessidade de explicar a razão da recusa... sinto-me quase uma hipocondríaca. E a realidade é que estou sentindo uma falta danada de um sundae de caramelo com duas enormes bolas de sorvete de creme! De um estrogonofe com muito creme de leite, de morango com creme... de muita coisa mesmo.
Pois é, cada um de nós já perdeu um paraíso, ou até mais de um... porém, podemos ter certeza de que tem sempre um outro ali na frente, esperando para dar o bote e nos fazer feliz. A gente precisa é reconhecer... e ir atrás, arriscando. E saber que não vem pronto, não, há que se trabalhar nele... Prontinho, foi só para Adão e Eva... E eles jogaram fora, justamente por não terem ajudado a construir... quem recebe pronto não dá valor. E mais, uns paraísos, para nos deliciarem depois, dão mais trabalho do que outros! Há que perseverar!
Cá entre nós, mesmo tendo perdido o paraíso dos queijos e de tantas outras coisas, continuo achando a vida um verdadeiro paraíso!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

ANDAR DE BICICLETA, DANÇAR E ... A GENTE NUNCA ESQUECE
Maio de 2010.


Depois de quase um ano sem participar do grupo de line dance do Senior’s Center de League City, voltei semana passada disposta a reaprender cada coreografia. Tinha saudades daquelas manhãs animadas, quando eu, além de exercitar minha perna prejudicada, aproveitava para dançar conforme a música. Eram valsas, charleston, country music, pop music; enfim, os mais variados ritmos.
Cheguei mais cedo um pouco e encontrei apenas uma senhorinha, de uns oitenta anos, muito animada, cabeça toda branca, que logo veio falar comigo. Perguntou-me se era minha primeira vez, e eu contei que frequentara o grupo por cinco meses, mas que tinha ficado muito tempo no Brasil, meu país. Foi super simpática, como todos quando conto de onde venho. Apresentou-se como Irene e foi logo me contando que tinha começado no início de janeiro, por insistências dos filhos, que não queriam mais vê-la enfurnada em casa.
Logo chegaram outros tantos “seniors”, alguns meus conhecidos. Entrou Diana, novata também, uma setentona de belo porte. E aí Irene, na maior sem cerimônia, foi logo perguntando como era mesmo o nome dela, pois não se lembrava e o esforço sobre-humano que fez não adiantou nada. Aproveitou para propor que todos sempre se reapresentassem ao chegar, para evitar constrangimentos. Ninguém podia se esquecer da idade dos componentes do grupo, todos, provavelmente, com memória fraca... Achei interessante essa auto-avaliação. O mais interessante é que a memória não funciona muito bem, mas a dança saiu perfeita! Ela não perdeu um passo!
Desde que acordara, estava preocupada, imaginando a terrível performance que apresentaria no meio de tanta gente mais velha do que eu, alguns bem mais velhos mesmo e que, pelo que me lembrava, faziam tudo muito bem. Eu pagaria um “mico” sem tamanho indo para a esquerda quando era para dançar à direita, e daí por diante.
Qual não foi minha surpresa ao perceber que conseguia executar a maioria dos passos com a bastante desenvoltura! Melhor dizendo, com razoável desenvoltura. Fiquei muito animada. E, para completar, Ruth Ann, que é a professora, anunciou no microfone que The Girl from Ipanema estava de volta. Depois dos animados aplausos e do rosto roxo de vergonha, continuamos a aula. Confirmei, mais uma vez, que tudo na vida é relativo - no meio de tantos idosos, acabei sendo a “garota”.
No final da aula, ainda sobrou conversa, e ficaram todos trocando idéias e se divertindo muito. As risadas eram deliciosas. A iniciativa de oferecer, aos idosos, atividades variadas, além da oportunidade de estarem juntos, é tão louvável, que fico penalizada de não termos, no Rio, algo parecido. É cobrada uma taxa de um dólar por cada participação, para ajudar na gasolina do professor. São todos voluntários e, ao final de cada aula, recolhem da cestinha o que foi “pago”. Ninguém controla - se pagar, pagou, se não pagar, não faz a menor diferença.
A organização é das melhores. Hoje, recebi a programação do mês e, para minha surpresa, vi indicado, no dia 11, o meu aniversário! Tudo feito, sem dúvida, com o maior carinho. Tem um grupo que vai só para jogar bridge, aquarela, desenho, mas a maioria vai mesmo para a line-dance, sapateado, jazzercise, e para a tal da Zumba Gold, que ainda não assisti, mas ouvi dizer que é a mistura das danças latinas – samba, merengue, salsa... Estou curiosa. Não sei se meu piloto automático vai funcionar nessa aula.
Domingo passado, fizemos uma apresentação de line-dance para doentes do M.D. Anderson Hospital’s, no hall do “hotel” que a Fundação Jesse H. Jones mantém para os pacientes que não moram em Houston. Enquanto estiverem em tratamento, ficam hospedados, sem pagar pelo quarto, em acomodações que me lembraram o Hilton Garden Inn, onde fiquei em Austin! Tipo hotel 4 estrelas! Fiquei impressionada. Em tempo, essa é a maior fundação privada do Texas, mantendo inúmeras atividades filantrópicas.
É claro que eu só me apresentei nos primeiros números, aqueles mais fáceis. Embora a “platéia” soubesse que éramos um non-professional group, de velhinhos animados e de boa vontade, eu não estava disposta a me expor ao ridículo. Quando começaram os números mais complexos, fui me juntar aos doentes que assistiam o “show” e aproveitei para aplaudir bastante cada dança apresentada. Enfim, levamos um pouco de distração a eles, e isso valeu a pena.
Aproveitadora de primeira linha, nesse grupo de seniors faço, ainda, aula de pintura com aquarela e de desenho. Hoje, a aula foi sobre perspectiva. Tive que desenhar um prédio visto de uma esquina, com postes de iluminação numa das ruas laterais. Acreditem ou não, fiz o melhor desenho de todos os participantes! Podem imaginar a falta de jeito do resto do grupo. Enfim, diverti-me enquanto estava lá, usei os meus “Tico” e “Teco” e saí me sentindo ótima. Lembrei-me das aulas de Desenho no curso ginasial do Instituto de Educação, com a Prof. Maria Elisa, que só faltava dar um tiro na cabeça quando via meus trabalhos. Não sei se o tiro seria na cabeça dela ou na minha. Acho que tudo que ela me ensinou estava guardadinho lá dentro, e eu fui soltando quando chegou a hora certa. Valeram as broncas pelos péssimos desenhos que fazia naquela época.
Depois do susto com o acidente de trânsito, em que vergonhosamente me atrapalhei com a inexistência de embreagem, estou dirigindo como se tivesse tido, sempre, carros automáticos. O processo já se incorporou ao cérebro, e nem presto mais atenção. Ao sair com minha neta Jade para que ela pratique o que vem aprendendo na auto-escola, fiquei ainda mais encantada com o sistema nervoso extrapiramidal. Ela está na fase de incorporar as informações ao dela... ainda tem que pensar para executar cada manobra. Mas, depois de algum tempo, vai poder, como todos nós, ir lá pegar de volta as habilidades quando bem entender. Isso é bárbaro.
Hoje, munida de toda a coragem, comecei a frequentar o grupo de sapateado. Vi entrar um senhor, provavelmente com mais de 80, que andava bem curvadinho, com os joelhos um pouco dobrados. Ele, simplesmente, pertence ao grupo de sapateado e, para minha melhor surpresa, executa todas as coreografias! Eu, entretanto, na minha primeira vez, apenas consegui fazer um barulho danado com os sapatos tacheados. Foi uma delicia ouvir o som... quando fechava os olhos, parecia que eu estava acertando todos os passos. Sentia-me herdeira de Ginger Rogers... faltava somente o Fred Astaire. Viva esse sistema nervoso extrapiramidal! Enquanto o de Patrick, o tal senhor, funciona perfeitamente para o sapateado, o meu ainda tem um longo caminho a percorrer.
Fiquei, então, pensando em quantas coisas a gente faz com a ajuda desse “piloto automático” extrapiramidal, e das quais nunca nos esquecemos. Sempre ouvi dizer que andar de bicicleta é uma delas. Nadar, escrever, também. Eu posso pensar em outras tantas que a gente nunca esquece, algumas delas muito interessantes... Não sei se é o tal do sistema, mas basta começar que tudo volta e o desempenho não fica nada a dever ao passado, remoto ou próximo. Não faz diferença! Podem acreditar! E aproveitar... Bendita memória muscular!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

ANJOS DA GUARDA NÃO TIRAM FÉRIAS... NEM SE APOSENTAM
Abril de 2010.


Sempre tive uma quedinha por eles, pois nunca achei que deveria ocupar os Superiores com pedidos, pois minhas necessidades não eram tão grandes assim. Mas que a gente precisa de alguém olhando lá de cima, precisa. E sempre contei com eles.

A crença em anjos e espíritos protetores vem desde a antiguidade, e mesmo em Platão encontramos referências a eles. No Islamismo, no Judaísmo, enfim, sempre foram considerados entidades existentes. Foi na Espanha, no século V, porém, que a idéia de um anjo da guarda para proteger e guiar cada pessoa ficou mais difundida. Tal crença tornou-se tão forte que a Igreja Católica estabeleceu, no século XVII, o dia 2 de outubro como o dia a eles dedicado.

Na literatura, temos o célebre “Dr. Fausto”, com seus dois anjos, um “bom”, outro “mau”, que lhe sugeriam coisas bem diversas. Todas as obras que apresentam esse personagem basearam-se em lenda sobre um médico alemão que teria feito um pacto com o diabo. Discussões sobre a existência ou não de um Dr. Fausto não cabem aqui, e o que interessa é que se tornou um arquétipo da alma humana; nos últimos cinco séculos, tem aparecido na literatura, no teatro e na música com bastante freqüência. Mas acho que Goethe foi quem melhor tratou do assunto. Prometo que não vou trazer Freud, Lacan, Jung para essa crônica, para tentarmos entender o bem e o mal que existe dentro de cada um de nós... Na verdade, os anjos a que me refiro são nos ajudam nas ocasiões mais complicadas.

Aqui nos Estados Unidos, uma pesquisa realizada há alguns anos revelou que setenta por cento dos americanos acreditam em Anjos da Guarda, e metade deles entende que existe um anjo da guarda para cada um de nós. No Brasil, deve ser mais ou menos a mesma coisa.

Não me lembro quando descobri o nome do meu anjo, o Nanael. É o correspondente ao dia do meu nascimento, 11 de maio. Como são setenta e poucos, se não me engano, ele também cuida das pessoas que nasceram em alguns outros dias. Protege, de maneira geral, os professores, os magistrados, os homens que lidam com a lei e os eclesiásticos. Isso, se sobrar tempo depois de todo o trabalho que dou a ele.

Tive mais uma “prova” de que Nanael não tirou férias de mim, agora que vim passar uns dias no Texas. Ele poderia ter aproveitado para descansar, pois estou sempre dando canseira nele. E tampouco aposentou-se comigo - continua lá. Falando na tal “prova”, Mônica, minha nora, precisava que eu fosse substituí-la na Academia, sábado passado, para alguma eventualidade, já que ela não poderia ir, em razão de outro compromisso muito importante. Pediu-me que, na volta, trouxesse o livro-caixa, para preparar o movimento contábil. Junto, eu peguei os comprovantes dos cartões de crédito assinados pelos alunos e o dinheiro em espécie das vendas das camisetas e quimonos.

Depois que fechamos a academia e almoçamos, fui com Igor ver um filme. Adoro levar os netos ao cinema, pois tenho, assim, uma bela desculpa para ver os geniais desenhos animados que turma tem feito nos últimos tempos. São tão inteligentes e bem bolados que eu, aficionada pela sétima arte, não quero perder nenhum. Compramos um balde de pipoca, refrigerantes e, munidos dos óculos 3D, nos abuletamos nas confortáveis poltronas do Cinemark Webster, que tem 18 salas.

“Como treinar seu dragão” é realmente muito bom. Eu havia trazido do Brasil o livro que deu origem ao filme, e Igor, como era de se esperar, disse que o livro é muito melhor. Enfim, a técnica 3D não consegue ainda superar o papel e a tinta. Saímos comentando o filme, rindo muito e curtindo um a companhia do outro. Somente em casa, dei-me conta que o livro-caixa, o dinheiro (cerca de trezentos dólares) e os comprovantes do cartão de crédito não estavam na bolsa.

Quase tive um infarto! Logo eu, histericamente cuidadosa, fui perder algo tão importante! Na verdade, o dinheiro e os recibos do cartão de crédito não eram o problema. O drama era o que fazer para preparar a contabilidade sem os documentos. Como estávamos no dia 24 do mês, o movimento de tantos dias estava perdido, e seria muito difícil preparar o balancete para calcular os impostos devidos. Entrei em pânico, é claro. Sentia-me uma completa idiota... Primeiro, tinha sido a batida de carro... agora, vinha isso... Mas, às onze da noite, nada poderia ser feito. Teríamos que aguardar 12 horas para a reabertura do cinema... E me peguei com meu anjinho.

Nem preciso contar que acordei cedíssimo. E lá estava eu, junto à bilheteria, no momento em que a atendente abriu os trabalhos. Expliquei tudo direitinho; em 10 minutos, o gerente apareceu com o bendito livro-caixa na mão, os trezentos e sete dólares intactos, e mais os papeluchos do cartão de crédito! Mal podia acreditar, mas Nanael e os funcionários da limpeza me salvaram!

É claro que não existe prova científica da existência dos anjos, e a única “evidência” são as referências a esses seres em uma longa tradição religiosa, quase tão antiga quanto a história do homem. E para quem nasceu nos dias 11 de maio, vinte e sete de fevereiro, dezesseis de dezembro, 4 de outubro e vinte e três de julho, vejam, abaixo, como seriam as pessoas “protegidas” por esse anjo da guarda. Meus comentários vão entre parênteses. Sem dúvida, é mais uma questão de fé do que qualquer coisa. Eu continuo contando com Nanael para o que der e vier.



NANAEL – Quem nasce sob essa influência se distinguirá por conhecer as ciências abstratas, amará a vida tranqüila (???), a paz, a meditação (???) e ouvir músicas clássicas. Sua luz transcende e, através dela, vê-se sua inocência (???) e sua verdade (existe uma verdade?). Poderá ter vocação religiosa (essa, não!) ou para conhecer assuntos metafísicos. Digno de confiança, não comete nunca uma ação imprudente ou impensada (quem acreditar nisso, vai se dar mal). Gosta de relacionamentos sólidos e é o amigo que todos querem ter (isso, sim). Dotado de grande afetividade, vive em função do amor e tudo que é belo e comove. Geralmente, mais passional que ativo, sabe controlar seus instintos sem reprimi-los (quem quiser testar, vai ver). Sua inteligência se desenvolve mais por experiência do que por estudos (isso é verdade). Tende a construir coisas belas com fins altruístas (preciso cuidar disso). Seu prestígio não alimenta sua vaidade (qual prestígio?). Viverá dentro de sua realidade e se dedicará integralmente a viver uma existência pacífica, com muita dedicação e esforço, fazendo tudo de forma perfeita e limpa. Poderá ter ocorrido problemas de saúde na infância e na adolescência, mas apesar da fragilidade física (???), possui um espírito extremamente ágil e guerreiro (pode ser). Bon vivant, sabe desfrutar as coisas boas da vida (é claro!), sem por isso partir para atos grosseiros ou impensados (nossa!). É a coluna que sustenta a humanidade (apesar da osteoporose).


domingo, 25 de abril de 2010

ÀS VOLTAS COM A LEI
Abril de 2010.

Volto ao Texas, após 10 meses, para matar as saudades do filho, da nora, e dos netos, esperando curti-los antes que virem adultos e fujam mundo afora. As viagens sempre me assustam, pois tenho pavor de avião, mas, por sorte, foram poucos minutos de turbulência e três bons filmes para assistir. Ganhei, para compensar, 9 horas de espera em Atlanta até conseguir um vôo para Houston. Como estava muito bem acompanhada do Monsenhor Quixote, delicioso livro de Graham Greene, nem me importei muito. O corpo resmungou, mas nada demais.
A vida não dá nada de graça, e matar as saudades de uns nos obriga a ter saudades de outros. A gente aprende a viver com a falta, mas é uma pena que não se possa ter tudo. Foi bom estar de volta ao lugar onde já havia morado por 11 meses, a uma comunidade que nos aceitou de braços abertos, sem qualquer preconceito contra “los cucarachos” que vieram para esse país trazer a arte do jiu-jitsu brasileiro. Sinto-me em casa, sempre.
Havia decidido fechar a conta no Wells Fargo. Estava com muita pena, pois a experiência bancária que tive foi a melhor possível. Sabia que entraria, depois desse tempo todo, e que Jason, o gerente, iria me receber com um “- Hello, Ana, I am glad to see you are back to League City”. Como ele não estava, fui atendida pelo subgerente, Kyle Hallmark, com quem eu estivera apenas uma vez. Quando disse a ele que queria fechar a conta, pois não mais ficaria nos Estados Unidos por períodos longos, ele se lembrou que havia feito qualquer coisa para mim ano passado. Lembrou-se que era brasileira e fez a maior festa. Aconselhou-me a não fechar a conta, já que eu tinha isenção completa de taxas. Bastaria deixar um dólar e a conta permaneceria aberta, sem prazo. Assim, todas as vezes que eu vier, poderei depositar o dinheiro trazido e movimentar conforme a necessidade. Aceitei a sugestão e tirei o dinheiro da poupança, meros trezentos dólares, para juntar aos quinhentos que havia na conta corrente e, assim, continuar com a tal isenção. Devo esclarecer que fiz tudo isso sem sair da cadeira. Ele se levantava, ia ao caixa, voltava, eu assinava, ia de novo... E sem pagar taxas!!! Pois é, o gerente se vira em três por causa de uma droga de conta que só tem oitocentos dólares... e que na qual vão sobrar apenas uns dois ou três no dia 19 de maio, quando volto para o Brasil! Kyle merece um CD com gostosas músicas brasileiras... vou levar para ele hoje.
Outra excelente experiência vivida nessas bandas... um “acidente” de carro. Confesso que, mesmo antes de vir, preocupava-me o fato de estar há muito sem dirigir um carro automático. No Brasil, meu carro não tem nem direção hidráulica... e tenho que passar as cinco marchas o tempo todo no trânsito engarrafado do meu Rio de Janeiro. Enfim, guerra é guerra e lá fui eu matar a saudade de meu “possante”, um Toyota Avalon 1998, passeando por todo o lado dessa cidade que é considerada umas das cem melhores pequenas cidades americanas.. Depois do Banco, lá fui eu estrada afora, profundamente encantada com a organização do trânsito, todo mundo respeitando tudo, ninguém buzinando porque você demorou mais a movimentar o carro quando o sinal abriu.
De repente, não mais que de repente, ainda com o reflexo condicionado ao meu Peugeot carioca, procurei a embreagem para trocar a marcha no Toyota, que é automático, repito... não achei a embreagem... achei o freio e... freiei! A caminhonete do tipo 4 x 4 que vinha atrás, que mais parecia um microônibus, simplesmente entrou na traseira do meu bonitinho. Foi uma senhora pancada, e sinto o pescoço até hoje, três dias depois.
Saltei do carro, envergonhadíssima... Uma burrice ímpar! Pedi desculpas, e o dono do outro carro, um sessentão bem gorduchinho, super educado, disse que ia chamar os “cops”, já que o carro dele tinha sofrido danos... O meu, mesmo velhinho, estava intacto... segurou o forte tranco com a maior coragem! Tiramos os carros do meio da rua e ficamos aguardando. Deve ter ligado para o famoso 911.
Confesso que, na maior discrição, liguei logo para um dos meus “sobrinhos” policiais de Houston, cujos números dos celulares ficam em destaque na minha agenda. Claro que não ia pedir que aliviasse a situação, mas queria instruções, pois é um outro país! Eu queria perguntar se poderia mexer na bolsa sem que o colega dele achasse que eu ia tirar um Colt 45 e dar um tiro nele... nunca se sabe como são as paranóias de cada lugar. Juan Carlo não estava... fazer o quê?
O policial escalado pela Central chegou em menos de 10 minutos! A “vítima” foi logo contando que eu parei de repente e causei o acidente; enquanto isso, eu permanecia muda. O policial foi logo olhar a traseira do meu carro e pediu minha carteira de motorista e o seguro. Não se anda com documento de carro aqui... Só com o papel do seguro. Entreguei junto meu passaporte e disse que estava de visita por um mês. Nesse momento, confesso que me questionei por não ter chamado meu filho... mas não queria atrapalhá-lo no trabalho, e por isso tinha resolvido enfrentar sozinha as conseqüências de minha distração; enfim, a sorte estava lançada.
O Sargento Keller foi averiguar o carro “ferido” e constatou que o 4x4 estava com o pára-choque dianteiro avariado... Nada grave, mas estava. O policial disse que era norma deixar que as partes se entendessem quando o prejuízo fosse inferior a mil dólares. O americano foi logo dizendo que o conserto do carro dele ultrapassaria tal valor, pois era um carro classe A; queria, então, preencher uma tal de blue form... imagino que seja o formulário apropriado para iniciar algum procedimento judicial. Foi, então, que o céu ficou ainda mais azul naquele esplendoroso dia.
“The cop”, super gentil, disse ao americano que a vítima era eu, já que, segundo a lei americana - sorte minha ser como no Brasil - o motorista tem o direito a parar quando bem entender, e os outros, sim, é que não podem dirigir tão perto do carro da frente. Assim, ele era o culpado! Como autoridade, poderia fornecer a blue form para ser preenchida, mas eu seria a pessoa a alegar prejuízos! O homem ficou furioso e foi embora depressa, por certo com medo que eu fosse daquelas pessoas cretinas que fingem uma dorzinha aqui, outra ali,para ganhar uns trocados... Eu, na verdade, só queria ir embora com minha culpa discretamente escondida na bolsa, onde não tinha nenhum Colt 45, para me defender do outro motorista, que provavelmente tinha uma arma. O Texas é o Estado mais “armado” aqui nos Estados Unidos.
Isso tudo durou uns 20 minutos. No máximo. Descobri que são cerca de seis milhões de acidentes de carro por ano nos Estados Unidos. Acho que essa minha historinha nem vai contribuir para a estatística, pois virou um nada. Peguei o carro e continuei meu reconhecimento do território, com a atenção redobrada. Sou, agora, a motorista mais cautelosa de todo o Texas. Sorte igual a essa, não sei se serei merecedora novamente. Dizem que os raios não caem duas vezes no mesmo lugar, para o bem ou para o mal. Mas a experiência com a polícia foi bastante interessante. Minha condição de turista latina não me fez menor perante o representante da lei. O cidadão americano estava errado, segundo as regras de trânsito. E assim foi o caso julgado. Sem pensar em comparar, instintivamente comecei a cantar, do Tom e do Vinicius, “Se todos fossem iguais a você... que maravilha viver...” As estradas que me aguardem!