segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ESPELHO, ESPELHO MEU...


... existe alguém mais bela do que eu? Tenho mais sorte do que a madrasta da Branca de Neve. O meu espelho não responde. Se o fizesse, diria que tem muitas mulheres mais bonitas do que eu e mencionaria, no mínimo, 5 milhões, começando pela Gisele Bundchen, Paris Hilton, Natalia do Vale, a vizinha do 603, a Maristela...
Há muito, fiz minha cabeça. Não dá para competir, e tenho consciência disso desde pequenininha. O pior é que nem posso culpar a idade e tentar enganar os conhecidos mais recentes, pois as fotos não mentem jamais! Mas devo dizer que não tenho mágoa em relação à Natureza. Ela não foi madrasta... foi apenas mãe ausente. E me deixou por conta dos disfarces da maquiagem, das roupas mais interessantes, e da tal da beleza interior. E é nessa que uns 80 por cento da população feminina precisam investir. Não tem saída!
Voltando ao terrível espelho, Vinicius de Moraes me vem sempre à cabeça com sua terrível ameaça – “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Pois é, e o que fazemos nós, simples mortais? Cortamos os pulsos? Vamos nos queixar ao bispo?
O espelho me olha, sem parar, enquanto eu, desolada, percebo as ruguinhas, as rugonas, o despencado... Plástica? Nem pensar. Apresento apenas um dos muitos motivos – sou alérgica. Portanto, melhor ser caidinha viva do que mortinha com cara de 10 anos menos.
Na manhã de um belo domingo, há pouco tempo, vi um programa de TV em que tudo versava sobre moda e beleza, assunto que, mesmo não me atraindo de maneira especial, vez por outra desperta alguma curiosidade nessa cabecinha metida a intelectual. Acabo, então, de olho no que é “fashion”. A inspiração para essa crônica chegou no momento em que a belíssima apresentadora do tal show, conhecida atriz, afirmou que quase enlouqueceu ao descobrir sua primeira ruga. Ela tem trinta e cinco anos. Foi assustador! Não a tal da primeira ruga, mas o que vi na telinha naqueles trinta minutos seguintes.
Uma jovem de vinte e sete, entrevistada pelo programa, confessou aplicar o tal do botox na testa e preencher seu “bigodinho chinês” com ácido hialurônico já faz algum tempo! Eu, na sexta década, mesmo precisando muito desse tipo de recauchutagem, fico receosa de injetar qualquer substância no organismo. Sei lá o que pode resultar dessa invasão química! E começar tão precocemente me parece uma verdadeira roleta russa. Milhões de mulheres que nem chegaram aos quarenta fazem essas aplicações com bastante regularidade! E ficam todas super aflitas com qualquer risquinho que, por ventura, apareça em seus rostos bonitos...
Fui pesquisar o tal do botox, denominação que é, na verdade, a da marca americana da toxina botulínica; como foi a primeira a ser liberada comercialmente para uso dermatológico, deixou o nome da mesma forma que a gilete, o modess, o gumex... Aplicada em pequenas doses, bloqueia o neurotransmissor responsável pelo envio das mensagens elétricas aos músculos. Minha vontade de ficar mais bonita não supera o pavor ao imaginar que uma toxina dessas vai ser injetada no meu rosto. E se eu ficar ainda pior? E se meu organismo acumular a toxina, e eu acabar contraindo o botulismo? Até me acho meio histérica com relação ao botox, mas aprendi que seguro morreu de velho.
Todo mundo pode rebater minhas exageradas e racionais considerações dizendo que o procedimento segue exatamente o mesmo princípio da vacina, quando pequenas dosagens de uma determinada substância são inoculadas na pessoa. É certo que isso não causa qualquer mal, na grande maioria dos casos; muito pelo contrário, tendo em vista que o organismo cria anticorpos que vão imunizá-lo contra aquela determinada doença. O problema é que a vacina é aplicada uma só vez na vida, em certos casos, algumas vezes, mas sempre poucas. Jamais de seis em seis meses, de ano em ano, como é o botox. Sinto muito, mas não vou me arriscar.
Ficou simplesmente impossível ser uma mulher confiante nessa era em que o culto ao corpo ultrapassou o limite do razoável. Os padrões são altos, mas tão altos, que nossa vida se tornou dificílima. Temos que nos parecer, minimamente, com aquelas beldades que povoam todas as revistas, de moda ou não, que aparecem nas telinhas, na telona... Mal completam dezoito anos, as meninas iniciam seus tratamentos para alcançar a beleza, essa coisa quase inacessível, muitas vezes terrível mesmo. Tornamo-nos escravas da ditadura que é a busca do ideal, vítimas do medo sempre crescente do envelhecimento. Nessa busca, algumas encontram a anorexia, devastadora consequência da expedição ao mundo que estão dizendo ser o da beleza.
Procuro me conformar com o velho ditado de que o belo está no olho de quem vê. O drama é que 90% de nós estaremos ferradas, caso esse determinado olho esteja contaminado pelas pernas da Ana Hickmann, pelo porte da Gisele Bundchen ou pelo corpo da última miss Brasil. Eu, felizmente, acabei aceitando a conversa (consolo, melhor dizendo) de que a beleza interior é a que conta e não tenho tido problemas psicológicos mais sérios com o meu invólucro.
Fiz um esforço enorme para me lembrar da primeira ruga... Não consegui. Vieram à mente o primeiro dia de aula, o primeiro beijo, a primeira noite de amor, o nascimento do primeiro filho (e do segundo, da terceira), a primeira vez que ouvi Jade dizer – vovó! Fui adiante. Das rugas, só me lembro bem das que me deram muita satisfação. Explicando melhor - quando saí da cirurgia de catarata, olhei-me no espelho e vi dezenas delas. Que felicidade! Havia recuperado a visão, aquela visão que me faz ver o mundo colorido, com muito brilho, muitas vezes deslumbrante... foram as ruguinhas mais comemoradas do planeta!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O BRASIL ESTÁ COM METÁSTASE


Procuro avaliar os últimos acontecimentos com a máxima isenção possível. As informações, infelizmente, não trazem mentiras ou exageros e o que se vê é de cortar o coração de qualquer brasileiro, mesmo que ele só tenha um pinguinho de amor à pátria.
Não fossem os escândalos suficientes, entendi que nossa autoridade maior exige ser avisada, com antecedência, de toda e qualquer atividade da Polícia Federal. Em outras palavras, precisa saber quem é alvo de averiguações, para que, em nome dos acordos feitos - a maioria acertos espúrios, sabemos bem - possa livrar da lei eventuais amiguinhos. O problema é que tais amiguinhos estão roubando o país; existe outro termo para o que fazem? Não. Por não ser criminalista, fico na dúvida se deveria chamar de furto ou roubo, mas acredito que seja roubo, pois o Código Penal define esse crime como a subtração de coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência. Estamos reduzidos à impossibilidade de resistência a partir do momento em que são os detentores do poder os que praticam tantos atos condenados não apenas pela legislação em vigor, mas também pela moral e bons costumes.
Voltando ao famoso artigo 157, tenho uma dúvida – o futuro de um país é coisa móvel alheia? Para mim, é. O futuro do Brasil é dos quase 200 milhões de habitantes que somos hoje em dia, não deles! Outra pergunta - Quem pratica o crime é apenas aquele que diretamente subtraiu a coisa alheia? No parágrafo primeiro da citada disposição legal, vê-se que se equipara àquele que rouba, e por isso na mesma pena incorre, quem, logo depois de subtraída a coisa, emprega violência contra pessoa ou grave ameaça, a fim de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa para si ou para terceiro. Que coisa terrível constatar-se que os atos de nossos governantes estão descritos como crimes... Um desânimo cívico de deixar qualquer um na mais profunda desesperança.
Não sei se estou exagerando, mas essa determinação, pedido ou seja lá o que for, de que a Presidência da República seja comunicada das atividades policiais com antecedência me parece muito estranha. Será que não poderia ser comparada à solicitação de alguma associação de moradores que, em caso de blitz em sua comunidade, igualmente seja avisada com um prazinho para que possam ser assegurados seus acordos com as “bases”, já que, delas, da mesma forma necessita para o bom andamento da vida em comum? Eventualmente, algumas dessas bases podem ser pessoas da comunidade que não estejam do lado da lei, estejam, por exemplo, comercializando substâncias ilícitas. E os dirigentes comunitários vão se achar no direito de também reivindicar um aviso prévio, pois precisam sustentar os acordos, sejam eles com pessoas do bem ou não.
Por que só deputados podem bater o pezinho e, zangadíssimos, dizer que não cumprirão com as atividades pelas quais são regiamente pagos enquanto seus amiguinhos meliantes estiverem sendo ameaçados de punição pelos crimes que cometeram? Por que não podemos todos dizer que, agora, somos nós que vamos bater o pezinho e deixar de cumprir com nossas obrigações enquanto essa pouca vergonha imperar no país? Henry David Thoreau, em 1849, quando publicou suas idéias sobre a desobediência civil, devia estar sentindo o mesmo desapontamento que os brasileiros honrados carregam na alma nesses últimos tempos. Gritou em alto e bom som que os indivíduos não podem permitir que os governantes estejam acima da lei, com suas consciências atrofiadas, atuando de forma injusta e criminosa.
Lembrei-me da experiência que tive durante minha gestão como diretora de escola na Cidade de Deus. Naqueles anos oitenta, eram 3 as associações de moradores, cada uma com interesses diferentes, pois a comunidade, com cerca de 120 mil habitantes, apresentava características próprias em cada um dos subgrupos. Seus dirigentes davam, sempre, belíssimos exemplos de civismo e responsabilidade. Quando o tema de discussão versava sobre Educação ou sobre problemas na área de Saúde, os interesses do grupo como um todo sobrepujavam os interesses específicos, que eram imediatamente deixados de lado. Atuavam todos em prol do bem comum.
O mundo está à beira de um colapso econômico de trágicas consequências, e nossos parlamentares e administradores públicos decidem fazer greve branca enquanto seus interesses particulares, espúrios, repito, estejam “em perigo”. Para onde quer que nossa atenção se dirija, vemos que são muitos os órgãos contaminados. Por isso, inspirada em conversa com Rosa Furtado sobre esse desastre nacional, decidi falar em metástase, falência múltipla dos órgãos. Seria essa a “causa mortis” de nosso país?
Acabei de receber um email dos queridos amigos Sonia e Chaim que veio a calhar. Ayn Rand, filósofa russa, dizia que : “Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.
Mexi no finalzinho do texto... Escrevera que nada havia a acrescentar, além de meu pedido de desculpas aos leitores de meu blog, que sempre encontram crônicas leves, todas com um razoável toque de humor; porém, nesse momento, é impossível falar de flores, pois nosso país corre um grande perigo... Tive que escrever mais um pouco, já que Maria Sylvia me mandou pensamentos do Saramago, dos quais pude pinçar um que cabe como uma luva por aqui. Um dia, ele disse: - “Estou convencido de que é preciso continuar a dizer não, mesmo que se trate de uma voz pregando do deserto.” Vocês todos topam dizer NÃO ?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

E VAI ROLAR A FESTA!

Junho 2011

A ideia estava lá... há muito. E a hora chegou – vou publicar o livro com as crônicas de viagem. Confesso ainda não ter me livrado daquela mania de professora, e esforcei-me para dar um basta nas infindáveis releituras do que tinha escrito. Emidio, antes de ilustrar e fazer a capa, deu ótimas sugestões e, enfim, coloquei o ponto final e mandei para a revisora. Sei que não terei tempo de aprender as mudanças recentes em nossa língua... preciso do trabalho dela . Fico arrepiada quando penso que devo enterrar a maioria das regras de acentuação que permanecem gravadas na minha memória, das quais me lembro melhor do que do rosto dos mestres responsáveis pelo aprendizado. Ideia não tem mais acento. Como pode? Até onde sei, como segundas vogais tônicas de um hiato, o I e o U ainda são acentuados. Tomara. Enfim, a revisora deu conta do recado. Estava ali... pronto. A boneca ficou ótima, e só foi preciso dizer – pode imprimir. Começou, então, outra coisa deliciosa. Preparar a festa.

É claro que não poderia ser um lançamento tradicional, em uma livraria, com todos os amigos esperando na fila, por mais de uma hora, que chegasse a sua vez. Depois do tormento, cada um receberia o livro autografado, um beijinho, um abraço e só. Ficaria mais um pouco, para conversar com alguns conhecidos e, logo, logo, iria embora.

As livrarias são um dos melhores lugares para se estar, normalmente... mas em noites de autógrafo, temos o problema da fila. Assim, uma entusiasmada contadora de histórias como eu, que escrevi, de maneira tão informal, sobre minhas viagens pelos Estados Unidos, não poderia imaginar uma noite de autógrafos do jeito tradicional. E, mais uma vez, decidi – e vai rolar a festa!
Será no play do prédio onde moro, na Lagoa, com aquela exuberante paisagem oferecendo-se despudoradamente para o encanto de quem estiver por lá. Na verdade, como estarão presentes apenas os amigos, não acredito que pudesse ter escolhido lugar mais apropriado. O leitor compra o livro e vai se distrair com a deliciosa música ao vivo oferecida por Marco Antonio Caixeta, teclado e voz; em determinado momento, Nilson Nunes e Tatiane apresentarão esquetes para alegrar ainda mais o evento. Por seu turno, autora e ilustrador estarão “visitando” as diversas mesas e conversando com os convidados enquanto autografam os livros.

No final, haverá um sorteio com algumas coisas bem interessantes, como a homenagem a Fernando Pessoa criada por Emidio, o livro com a trajetória artística de Marilia Kranz, uma aquarela de Pietrina Checacci, e outras surpresas mais. Estamos quebrando a rotina, para que combine realmente com o fantástico mundo da literatura, que proporciona tanto prazer e alegria.

Hoje em dia, temos a internet, os celulares, o skype, mas ninguém dispõe de tempo para estar com os amigos, que vão ficando cada dia mais distantes no cara a cara, como se fôssemos todos, agora, fastfriends. Pensamos nas pessoas sempre tão queridas e que estão a poucos quilômetros de nós... e raras são as vezes em que estamos realmente juntos.

Portanto, uma das principais razões para que seja organizada uma espécie de festa nesse lançamento é, sem dúvida, para delicada e disfarçadamente fazer com que as pessoas possam se encontrar e celebrar, mais uma vez, a Vida!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

NOVAS DESCOBERTAS

Nos Estados Unidos, ninguém precisa de dinheiro... precisa mesmo é de crédito. Tudo pode ser comprado a prazo, a longo prazo. A dificuldade se encontra mesmo é em construir um histórico para empréstimos e parcelamentos. Como os juros sempre variam, não só de financeira para financeira, mas também de pessoa para pessoa, é fundamental estabelecer de vez um bom nome. Para começar, faz-se um depósito para garantia do banco que lhe oferece um cartão de crédito. Gasta-se até aquele limite e, quando chegar a fatura, é preciso fazer o pagamento integral. O valor garantido não é tocado e continua como garantia. Não adianta comprar com dinheiro vivo, pagar tudo à vista, como tampouco importa ter um saldo bancário elevado. É preciso comprar a crédito e, aos poucos, ficar “confiável”. Construída a tal história econômica, é só sair comprando e comprando. Para o bem e, principalmente, para o mal.
No Brasil, parece que não é muito difícil conseguir-se um empréstimo. Antes, eram as contas de telefone que garantiam o dinheiro tomado, mas isso acabou com a expansão dos serviços de telefonia. Agora, são os aposentados o alvo fácil das financeiras - basta levar o contracheque e eles emprestam, emprestam... e os coitados dos velhinhos ficam com a renda comprometida de uma forma terrível.
Eu construí “crédito” por aqui apenas conversando. Provavelmente, foi minha “conversa mole” de advogada. Recém chegada a essas praias, quando fui pagar umas roupas de festa de que havia gostado, a vendedora, muito gentil, ofereceu-me o cartão da loja, a Macy’s. Expliquei que não era residente e, por isso, não tinha o tal do Social Security Number, tipo CPF deles. Ela não desistiu e ligou para algum departamento da loja, falou por uns 10 minutos e, então, quem estava do outro lado da linha quis conversar comigo. Foi um papo de quase meia hora... E não é que saí, na hora, com o cartão da famosa loja? Meu filho, mesmo com visto de trabalho, levou um ano para conseguir isso! Para deixar a história ainda mais interessante, confesso que, ao conseguir o cartão, deram-me um desconto extra de vinte e cinco por cento! Dos 400 dólares devidos, arquei apenas com 300!
Como tudo tem dois lados, essa facilidade em comprar tudo a prazo pode ser um tiro pela culatra. Ninguém poupa dinheiro por aqui. Há um comprometimento quase integral do que se ganha com prestações e novas aquisições... Como consequência funesta, na terceira idade a coisa fica complicada. Quase ninguém tem uma reserva estratégica para as emergências que teimam em aparecer.
A aposentadoria máxima oferecida pelo INSS no Brasil é, hoje, de cerca de R$ 3.500,00. Aqui, o valor repassado pelo sistema do Social Security também varia muito, do mesmo modo dependendo do tempo e do valor da contribuição. Não descobri quanto é o máximo ou o mínimo. Em princípio, seria uma complementação ao que as pessoas teriam poupado em vida, mas alguns tantos vivem mesmo com esse dinheiro como renda única.
O sistema previdenciário é muito mais rígido no país do capitalismo. Não há hipótese de alguém receber pensão como viúvo ou viúva antes de fazer 60 anos! Se o cônjuge morreu e você ainda não chegou lá, pode tratar de arranjar um emprego para se sustentar. Filhos até 18 anos são protegidos, é claro, e recebem. Somente após tornar-se sexagenário, você poderá requerer. E, quando fizer 62, se quiser pleitear sua própria aposentadoria (80% do valor que seria), terá que abrir mão da pensão pela viuvez, Aposentadoria integral é concedida aos 65, caso não tenha pleiteado antes. Se a pessoa for deficiente ou portadora de doença grave, terá um auxílio em razão disso, auxílio esse que nunca poderá se somar a qualquer outro tipo de pensionamento. Os militares, tenho certeza, podem acumular. Quantos aos funcionários públicos, já não sei, mas acho que também são beneficiados.
Como no regime francês, o governo americano só repassa, aos viúvos um percentual do valor que caberia ao instituidor da pensão, caso estivesse vivo – não há repasse integral. Aqui, são 71,5%. É claro que você pode escolher a que lhe dará maior renda – sua aposentadoria ou a pensão parcial. Se, eventualmente, no meio do caminho decidir mudar de fonte, já que a outra se tornou mais atraente, será para todo o sempre... Nada de arrependimento – trocou uma vez, sem chances de voltar atrás.
Enquanto isso, no Brasil, é uma festa. Tem gente com 3 fontes de renda, entre as pensões e aposentadorias. Pobres cofres públicos... não há orçamento que resista à tamanha sangria.
Essa é a razão para que muitos idosos aqui nos Estados Unidos trabalhem até os oitenta e poucos anos. Gastam tudo durante a vida inteira, e acaba não sobrando nada. A sorte é que os empregadores, para determinados cargos, não se importam com a idade dos candidatos, e sempre há oportunidade nas lojas. Vejo-os sempre muito animados desempenhando suas funções. De certa forma, sentem-se úteis e aproveitam para se distrair.
Além de não fazerem poupança, muitos americanos compram muito, mas muito mais do que precisariam em suas vidas. Ficam, então, sem lugar para guardar tanta bugiganga. Foi quando entendi para que servem os milhares e milhares de “storages” pelo país afora. Nas incontáveis viagens que fiz por aqui, mesmo quando deixava as vias principais, em busca das surpresas que as pequenas estradas oferecem para os mais atentos, deparava-me, no meio do nada, com esses depósitos. Neles, são guardados os objetos que já não cabem nas casas e que não são mesmo muito importantes. E mais! Por incrível que pareça, as garagens americanas não guardam os enormes e incrementados carros que vemos pela estrada a fora. Ficam estacionados nas ruas, ao relento, enquanto grande parte da tralha acumulada fica no espaço projetado para eles. Cada sociedade com suas próprias manias e práticas.

Sobre essas empresas de depósito, descobri que, além de seguro, frete grátis, e outras tantas facilidades, algumas oferecem compartimentos climatizados. Dez metros cúbicos custam 50 dólares por mês, e são do tamanho suficiente para guardar toda a mobília de um apartamento de cento e poucos metros quadrados. Pelo menos, é o que diz a propaganda. No Brasil, para o mesmo espaço, paga-se cerca de 200 reais. Continuo com a sensação que somos um povo muito mais rico do que o americano. Pensando bem, em muitos aspectos, somos mesmo!
Outra diferença que percebo é a dificuldade que as famílias têm em obter ajuda no cuidado com os filhos pequenos. Uma babá profissional, a “nanny”, custa uma fortuna, e o orçamento da classe média não comporta um gasto desse tamanho. A figura da babysitter é diferente, pois atua esporadicamente, em geral nas sextas e sábados, quando o casal tem compromisso à noite ou quer um pouco de privacidade. Os adolescentes aproveitam para complementar a mesada fazendo esse trabalho, na base de dez dólares por hora, valor de Houston. Ouvi dizer que, em Nova York, o preço dobra. Jade, minha neta que chegou aqui com 13 anos, conseguiu comprar o laptop dos sonhos em pouquíssimo tempo. Os três garotinhos levados que foram seu teste de fogo não deixavam por menos. Logo, logo, porém, conseguia dar conta do recado sem pedir orientação pelo celular de meia em meia hora. E a atividade de babá rendeu-lhe belos trocados.
Falando em salários, e como estamos no mês de eleições para prefeito e vereadores, saí em busca de dados sobre o que ganham os executivos municipais aqui nos Estados Unidos. É claro que vai depender de que cidade estamos falando. Nova York, com 8.400.000 habitantes e League City, com menos de 68.000, apresentam realidades diferentes demais para estabelecermos comparações. De qualquer forma, achei interessante saber que, em NY, o chefe do Executivo recebe 225.000 dólares por ano, podendo, ainda, morar na residência oficial, a Gracie Mansion, um construção datada de 1799.
Uma nota sobre isso – como a casa é mantida com dinheiro público, se o prefeito não for casado, não poderá levar a companheira para morar lá. O atual, Michael Bloomberg, divorciado, mora em outro lugar com a namorada. Tenho mais notícias sobre ele. Não descobri o que alegou, mas declinou dos tais vencimentos que chegam ao equivalente a 400 mil reais por mês. Recebe apenas um salário simbólico de 1 dólar a cada 30 dias.
Em NY, não há vice-prefeito e, na falta do chefe, quem assume é o procurador-geral, que ganha 165 mil dólares por ano. Só para brincarmos com números – o governador de São Paulo ganha 18 mil reais por mês. Fiquei sem saber quanto recebem os prefeitos do Rio e de São Paulo, mas deve ser por aí.
Impossível ter uma idéia mais aproximada de quanto os vereadores americanos ganham, em média, pois a variação não é só entre as cidades... tem lugares em que cada vereador tem um vencimento diferente. Na busca por informações, achei algo que me fez lembrar outro país muito meu conhecido... nosso conhecido. Em Los Angeles, os vereadores têm o maior salário daqui e, em 2009, já ganhavam quase 180 mil dólares por ano. Isso sem falar nas outras tantas regalias das quais não sei detalhes, mas provavelmente do tamanho e tipo daquelas que sabemos premiarem nossos esforçadíssimos legisladores cariocas. Conseguiram chegar a esse patamar graças a uma lei que estabeleceu um aumento periódico automático! Ou seja, está na lei, não há discussão. Enfim, houve uma grita geral, com a população furiosa com a farra em momento de gravíssima crise econômica, mas não sei se surtiu algum efeito.
Embora o mundo esteja globalizado, ainda conseguimos perceber diferenças, não só entre as culturas dos diversos países, como até mesmo de uma cidade para outra distante apenas alguns quilômetros. Em qualquer lugar do mundo, vamos encontrar coisas que poderiam nos servir de exemplo, como haverá um sem número de outras que não gostaríamos que nos “inspirassem”. O Brasil e os Estados Unidos são países de dimensões continentais, e cada pedacinho deles apresenta um jeito de ser e de viver. Não se pode pegar uma cidade brasileira e dizer – essa cidade mostra como o Brasil é. Jamais... cada uma é uma. O mesmo acontece por aqui. Tenho falado das várias que venho visitando, mas posso tecer melhores comentários daqui de Houston, pois não vim meramente como turista. Vivo um pouco a rotina de um cidadão comum e vou descobrindo uma coisa aqui, outra ali... e há sempre uma desculpa para nova escrivinhação.

terça-feira, 12 de abril de 2011

E DEUS CRIOU A MULHER


Ao ler esse título, os homens vão se deliciar, fantasiando com a loura das louras, a Bordot. O filme mexeu com a tropa toda, no mundo inteiro... ela simplesmente abusou - estava deslumbrante e preencheu, como poucas, a telona, a telinha, as revistas, os posters, os sonhos masculinos... Enquanto isso, a imensa maioria de nós, esquecidas pela Deusa da Beleza, fingíamos que não nos importávamos. Mas era difícil não sentir a autoestima fugindo pelo pé.


Não é porque acabamos de sair de março, mês internacional da Mulher, que vou falar do nosso clube. Há tempos penso em brincar com o assunto, usando meu arquivo de coisas engraçadas sobre nossa trajetória sobre a Terra. Para começar, trago logo uma de Lutero, ele mesmo, que disse, lá no século XVI, que “o pior adorno que uma mulher pode querer usar é ser sábia”. Só podemos rir disso, mas tal afirmação cabia como uma luva no contexto daquela época, quando a mulher era mero adorno O mais estranho é que chegamos à lua mas, para os conservadores de plantão, a mulherada mais esperta, consciente, é sinônimo de perigo iminente.


Não tenho dúvidas de que foi somente no século XX que começamos a ocupar um lugar melhorzinho na sociedade... na ocidental, por certo. Uma luta de séculos que ainda não acabou...em certos pontos do planeta, estamos no idade da pedra, infelizmente. Alberto, meu caríssimo primo, recomendou-me, anos atrás, um livro que me impressionou muito – As Boas Mulheres da China, da jornalista Xinran, que mora atualmente em Londres. Para não deixar a crônica pesada, nem vou comentar sobre o que li ou sobre tudo de inacreditável que ainda encontramos no mundo. O objetivo dessa conversa é outro.


As mulheres, havia muito, vinham expressando o desejo de maior participação na sociedade, e a tecnologia foi uma das alavancas para nossa, vamos dizer, libertação. Inconcebível um mundo sem máquina de lavar roupa, por exemplo. Depois que passamos a contar com ela, economizamos, a cada dia, horas e horas de trabalho insano, podendo dedicar esse precioso tempo a diferentes atividades, mais voltadas para nossos próprios interesses. Outro fator a nos colocar no lado de fora do “lar, doce lar”, foi a crescente demanda por mão de obra - durante as grandes guerras, vagas iam surgindo com a partida dos homens para os campos de batalha e, com o fim dos conflitos, houve considerável redução da população masculina. Aos poucos, fomos ganhando espaço, celebrando sempre cada pedacinho conquistado.


Sou uma perua discreta, mas sou perua, Todos sabem o quanto adoro brincos, anéis, óculos grandes, perfume francês, saltos bem altos... isso seria um desastre se tivesse nascido no século XVIII, lá na Inglaterra. Um dos artigos de sua Constituição Nacional deixava bem claro: “Todas as mulheres que seduzirem e levarem ao casamento os súditos de Sua Majestade mediante o uso de perfumes, pinturas, dentes postiços, perucas e recheios nos quadris, incorrem em delito de bruxaria e o casamento fica automaticamente anulado.” Teria o mesmo destino das bruxas de Salem. Não teria sobrado nada para contar os detalhes.


E quem pensa que isso só acontecia na Inglaterra, conservadora até o último fio de cabelo, está redondamente equivocado. A França, no século XIV, era de um rigor igualmente aterrorizante. Mas lembrei-me de que, quando criaram a Delegacia de Mulheres no Rio de Janeiro, foi porque, mesmo que estejamos no século XXI, ainda testemunhamos coisas inacreditáveis. Voltando ao passado - havia um tratado de conduta moral e costumes na monarquia francesa em que uma das regras previa que “Quando um homem for repreendido em público por uma mulher, cabe-lhe o direito de derrubá-la com um soco, desferir-lhe um pontapé e quebrar-lhe o nariz para que assim, desfigurada, não se deixe ver envergonhada sua face. E é bem merecido, por dirigir-se ao homem com maldade de linguajar ousado.” Quem diria. hein?


Já falei em Adão e Eva em outra crônica, onde fiz referência à versão dada pela cultura judaico-cristã - os dois estavam proibidos de comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal; Eva teria sido a mentora da desobediência. Acabaram expulsos do paraíso, legando a todos o pecado original. E as mulheres tiveram, como herança direta de Eva, a culpa por esse tal pecado original. Soube que a Inquisição, nos tenebrosos séculos em que perdurou, deu fim a cerca de 9 milhões de bruxos... desses, oitenta por cento eram mulheres. Dias Gomes, em seu “ O Santo Inquérito”, mostrou um pouco da loucura daqueles julgamentos. Branca é a heroína... morre, mas não trai seus princípios, suas crenças. Preserva sua dignidade.


Volto ao lado leve da conversa sobre nós, mulheres. Ganhamos menos que os homens ao exercermos funções equivalentes mas, segundo as recentes estatísticas, morremos mais velhas. Compensamos, com nossa maior resistência, a falta de força física. Parece que o cérebro masculino tem mais conexões entre os neurônios do que o feminino. Os cientistas explicam que isso não quer dizer que o homem seja mais inteligente mas, sim, que processa as informações de maneira diferente. Eu concordo. Social e emocionalmente, há marcantes diferenças nos entendimentos de cada um dos sexos. Os homens, sem dúvida, não conseguem entender a razão pela qual nós, mulheres, nos restaurantes, sempre vamos juntas ao banheiro. Por seu turno, é impossível entendermos como eles preferem ver um ridículo filme de terror a divertir-se com uma deliciosa comédia romântica...


Enquanto ia escolhendo as “máximas” para a crônica, deparei-me com uma das “pérolas” de Zaratustra sobre o sexo feminino. A vontade de ir um pouco mais além do que já sabia sobre suas idéias se fez presente, e isso me trouxe grandes surpresas. Mesmo tendo vivido no século VII A.C, é impressionante que tenha divulgado que “a mulher deve adorar o homem como a um deus. Toda manhã, por nove vezes consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados, perguntar-lhe: - Senhor, que desejais que eu faça?” Chego a duvidar que tenha dito tal coisa. Melhor acreditar que foram seus inimigos que deixaram para a posteridade uma idéia tão absurda dessas como se dele tivesse partido., só para denegrir sua imagem.. Será?


Não parou por ai. Esse complexo filósofo pregava aos quatro ventos que deveríamos fazer ao próximo o que gostaríamos que o próximo fizesse conosco. Eu acho isso uma temeridade... E se o próximo não quiser fazer comigo o que eu quero fazer com ele?, Nossa, que confusão! Bem mais prudente dizer que não se deve fazer com o outro o que não se quer que façam com a gente. Mesmo sendo uma grande injustiça, para muitos nós não somos nada confiáveis. Vai ver que concordam com a letra da Rita Lee, que afirma ser a mulher um bicho esquisito - como podemos sangrar por 4, 5 dias e ainda sairmos inteiras disso? Inexplicável, eu sei.


Melhor terminar a conversa, com uma das “ gracinhas” de Petrarca – “A mulher é inimiga da paz, fonte de inquietação, causa de brigas que destroem toda a tranqüilidade; enfim a mulher é o próprio diabo. Roger Vadim discordava, sabemos - Deus foi o responsável pela criação da mulher. Primeiro fez o rascunho, o homem. Aprimorou no projeto definitivo. Seria um problema se Petrarca tivesse razão - ia ter muita gente preferindo descer do que subir, na certeza de que, conosco lá embaixo, seria tudo muito mais divertido. O melhor de tudo, na verdade, é que, nessa guerra dos sexos, os contendores se tratam, no final, com o maior carinho! Afinal, Deus não nos criou, homem e mulher, para viver no Paraíso?

quinta-feira, 17 de março de 2011

“MENINO, SE FIZER ARTE, VAI FICAR DE CASTIGO”


Todos nós, mais antigos, ou ouvimos ou dissemos isso milhares de vezes. Em nosso vocabulário, o primeiro conceito que apreendemos é o de que FAZER ARTE é fazer besteira, praticar alguma traquinagem. Ou seja, em Português, começa tudo errado. No dicionário, arteiro é aquele que faz “arte”, é quem revela arte em astúcia, velhacaria... Triste começo no aprendizado de conceitos.
Em Inglês, a palavra mais usada para travessura, brincadeira de mau gosto é mischief, sem relacionar-se com a palavra que significava, no sânscrito, capacidade de dominar a matéria, moldar, ajustar, enfim, uma atividade transformadora realizada pelo homem. No latim, ARS tinha a ver com técnica, habilidade adquirida em exercício paciente e voltado para um fim definido, fosse estético, ético ou utilitário.
No idioma francês, também não vi nenhuma ligação; praticar uma travessura é “faire de siennes”. Arte é uma coisa bem vista, prazerosa, como se vê da expressão “faire quelque chose pour l’amour de l’art. Isso quer dizer que fazer uma coisa com prazer pode ser verbalizada com a palavra “arte”. Rosa foi fundamental nessa conversa sobre a palavra em francês e, direto de Paris, deu-me todas as dicas, Aprendi muito. Foi tão gentil que, para mostrar como se diz algo do tipo “como manda o figurino”, usou,como exemplo a frase: - Ana nos recebeu para jantar “dans les règles de l’art”.
O uso da palavra que mais gostei foi na expressão “l’enfance de l’art”. Refere-se a uma coisa elementar, fácil, algo como se a dizer “é uma brincadeira de criança”. Seria o lúdico que não deveríamos perder quando queremos nos expressar artisticamente, ou essa liberdade tão necessária à criação que a infância tem em abundância? Quem sabe quer lembrar a magia inerente à arte e que povoa o mundo infantil de forma tão intensa?
Adorei o ensaio com que Frederico Morais abre seu livro “A Arte é o que eu e você chamamos de Arte”. Sabemos que ela é um mistério, e por isso tantos falam nela... Não se conseguiu, porém, uma definição que possa traduzi-la por inteiro. Nem pensar em unanimidade, que é burra, como acertadamente dizia Nelson Rodrigues, quando se trata de avaliar uma obra como “boa” arte ou arte “ruim”.
Eu concordo com Marcel Duchamps – “A arte pode ser ruim, boa ou indiferente, mas qualquer que seja o adjetivo empregado,temos que chamá-la de arte. A arte ruim é arte, do mesmo modo que uma emoção ruim é uma emoção.” Posso, então, ficar mais animada e continuar com meus escritos, e até mesmo mostrar ao mundo as instalações que imaginei e que Emidio tão artisticamente tornou reais, através do milagre que Derain afirmava ser necessário, já que, para a Arte, não bastam as idéias,
Oscar Wilde, de quem sou fã, considerava os artistas mentirosos profissionais, e que jamais podemos acreditar no que dizem. Precisamos, sim, olhar sua arte para sabê-los. E Picasso tinha certeza de que a Arte não é a Verdade, mas a mentira que nos ajuda a compreendê-la ... pelo menos, aquela que somos capazes de entender. E Nietzsche encerrou o assunto dizendo que temos a Arte para não morrer da Verdade.
Na mesma linha, Umberto Eco, sempre brilhante, ensinou que toda obra de arte, mesmo enquanto pronta, é “aberta”, pois será interpretada das mais diferentes maneiras, embora não corra o risco de ver alterada sua irredutível singularidade. Veremos, então, a tal verdade a que Picasso se referiu?
Amédée Ozenfant, pintor cubista francês, afirmou que “A arte demonstra que o ordinário é extraordinário”. E é essa a alquimia do artista, transformando metais inferiores no mais puro metal Em crônica sobre a Beleza, comentei que Chico Buarque usava as mais simples e cotidianas palavras de nossa língua para dizer, em suas maravilhosas músicas, que alguém morreu na contramão atrapalhando o tráfego, para falar do feijão que ela faz todo dia sempre igual, da gente humilde com cadeiras na calçada... É, sem dúvida, um dos nossos maiores alquimistas.
Pergunta importante: onde deve estar a Arte? Lebel afirmou que deveria, literalmente, descer à rua, sair do zôo cultural, concordando com Vlaminck, que tinha horror ao odor e à monotonia dos museus, Camnitezer respondeu com veemência – “O fato de estar na rua não faz a obra mais democrática, ao contrário, pode aumentar o caráter autoritário de seu discursos”. E como fico eu no meio desse tiroteio? Já não sei se viro uma grafiteira marginal, se me tranco na Academia Brasileira de Letrinhas...
Fico profundamente feliz com os emails que recebo de meus fiéis leitores que, com o maior carinho, fazem com que eu continue com vontade de escrever. Comentam o tema que abordei, contam casos parecidos, elogiam, enfim, respondem ao estímulo que pretendo passar com meus textos. Toda obra de arte é feita duas vezes, uma pelo artista, quando a cria, e outra pelo espectador, quando a observa e absorve, transformando, dentro dele, as sensações despertadas.
Goethe, outro dos meus ídolos, acreditava que existem três tipos de leitores: o primeiro goza sem julgar; o segundo julga sem gozar, e o terceiro julga gozando ou goza julgando e é justamente esse quem recria a arte. Só não quero um tipo que julgue “me” gozando.
Salvador Dali, para mim, fez as duas “artes” – traquinagem e arte no sentido que o mundo dá à palavra. Pelo menos, era muito arteiro e levado quando abria a boca. Chegou a dizer que, quando pintava, fazia ouro, pois cada quadro dele produzia um polpudo cheque que era logo convertido no metal nobre. Dizia, ainda, que seu exibicionismo mascarava sua verdadeira personalidade – ao atrair olhares, com seu dandismo provocante, fugia desses mesmos olhares, mostrando-se exatamente como não seria.
Ben Vautier adora polemizar, com suas pinturas-textos e instalações. Atira frases do tipo “A arte é inútil”, “Tudo é arte. Nada é arte”. Pois é... tudo e nada. Nem os gênios conseguem traduzi-la? Não faz mal. A Arte não precisa ser dita. Precisa ser sentida.
Depois dessas elucubrações todas, minhas e de tantos outros, decidi seguir o conselho de Sócrates, que dizia que a Arte é longa e a Vida é curta. Vou deixar viver, com muita liberdade e para o sempre que for possível, a menina levada que existe aqui dentro, que quer ”pintar o bordar” de todos os jeitos que a vida permitir. E vou adorar ouvir que ficarei de castigo se insistir em fazer arte.

domingo, 13 de março de 2011

AH! A COR DE SEUS OLHOS!!!


Nunca disseram isso para mim... também, pudera!. Com olhos da cor de burro quando foge, o que poderia esperar? Por sorte, chegaram a dizer que a luz deles era especial. Um consolo por não ter olhos cor violeta como Liz Taylor. Nem a cor dos olhos, nem a beleza da pele, do rosto, dos dentes... Todos conhecem bem aquela definição para pessoas não tão dotadas em termos de beleza - tão simpática! Tampouco nasci com os olhos cor de mel da Rapunzel. Bem, essa história de cores rende boas conversas!
Minha guerra colorida começou há dez anos, quando comprei o apartamento e quis pintar uma parede de vermelho/vinho. Toda feliz, encontrei o tom perfeito em uma tabela de cores dessas que as indústrias disponibilizam; pedi ao César, excelente profissional da pintura, que desse a primeira mão para testarmos. Tive um ataque de riso quando o vinho que esperava apresentou-se, acreditem, cor de abóbora! Lembrava um bordel de beira de estrada! Juro que nunca entrei em estabelecimento congênere, mas vi em filmes mexicanos. Pedi que suspendesse a pintura que ele tampouco havia gostado, pois tinha achado uma cor muito “sensual”. Isso confirmou minha sensação de que bem poderia fingir estar numa casa de tolerância em plena Lagoa Rodrigo de Freitas.
Virei Ana Palmeirão, “prima” da Rosa Palmeirão, vivida por Luiza Thomé na novela da Globo exibida na época, “Porto dos Milagres”. Ela tinha um “centro de lazer noturno”, e as paredes, por certo, deveriam ser da cor que encontrei nas minhas. Como meu anjo da guarda não dorme em serviço, consegui realizar, dias depois, meu sonho de consumo com o vermelho/vinho da marca International, tintas que, infelizmente, não são mais fabricadas.
Agora, precisei de nova pintura na casa, e o drama recomeçou. Olhei vários mostruários e escolhi as duas cores que mais gostei, bem próximas às originais, uma para a tal parede escandalosa e outra para o resto da casa. Podem acreditar: nenhuma das duas funcionou. Essa tecnologia moderna, para mim, não serve. A máquina/computador mistura a cor e pronto! Tudo errado! E uma delas me faz parecer ridícula... em vez do salmão claro escolhido, ficou tudo simplesmente cor-de-rosa! Voltei à primeira juventude... pink na casa toda! Decidi abandonar a luta e deixar assim mesmo... provavelmente, minhas netas caçulas vão adorar! Daqui a dez anos, quem sabe eu consigo o que desejo?
Curiosa, fui ler sobre as cores. Diverti-me horrores “aprendendo” que cor é a percepção visual provocada pela ação de um feixe de fotos sobre células especializadas da retina, que transmite impressões para o sistema nervoso, através de informação já processada no nervo ótimo. Para complicar mais, descobri que a cor de um objeto é comandada pelas médias de frequência dos pacotes de onda que as moléculas que o constituem reflete. A coisa terá, então, uma determinada cor quando não absorver, justamente, os raios correspondentes à frequência daquela cor que exibe. Poucas vezes me senti com o Q.I tão parecido com o de uma ameba burra! Será, então, que o alimento não terá gosto de maionese se absorver a “freqüência” da maionese? Para lembrar tal gosto, precisa absorver outros sabores e rejeitar justamente o que deseja ter? Melhor nem tentar entender.
As cores também são “traduzidas”, e culturas distintas vão atribuir significados diferentes para cada cor. O vermelho, por exemplo, foi muito usado pelos romanos, pelos nazistas e pelos comunistas. Hoje em dia, todo fast-food que se preze apela para a cor do sangue, que provoca sempre uma reação nas pessoas. Pode ser, dependendo do olhar, um sinal de paixão, de energia, de amor, de alegria... mas também de perigo, raiva, fogo, revolução... Como sempre, o que vale é a versão, e eu fico com a primeira.
Enquanto isso, o branco lembra a paz, o verde, a natureza; o azul nos leva a pensar em harmonia, o preto, em sofisticação (nosso pretinho básico), mas também em luto... E por aí vai.
Uma das coisas mais bonitas que vi sobre o tema foi o livro Flicts, do nosso brilhante Ziraldo. Nele, temos as cores que todos amam e uma menos querida. Como acontece com as pessoas... Quem não leu, perdeu; mas ainda dá tempo! Compre para um filho, ou neto, afilhado ou sobrinho. Ou para você mesmo,sem precisar disfarçar!
Nas flores, a natureza explode em cores inimagináveis. Nas borboletas, também. Mesmo quando a flor é branca, sua beleza não tem medida. Quem nunca se imaginou dando uma grande festa num salão inteiramente decorado com flores brancas? E um buquê de noiva de rosas vermelho-sangue? E as maravilhosas orquídeas que os jovens costumavam oferecer às moças que os acompanhariam aos bailes? Flores nos fazem sonhar...
O homem, desde que começou a se entender por gente, quis reproduzir o mundo que via e também o que imaginava. E sempre em cores! As pinturas nas cavernas de Lascaux, na França, datam, segundo especialistas, de mais de 17 mil anos. Só conseguiam usar o marrom, o vermelho e o amarelo, pigmentos de origem mineral, mas o resultado final é extraordinário. Pensava que o vermelho sempre era obtido com o sangue de animais... lá, em Lascaux, essa cor vinha das hematitas, tão comuns aqui em nossas Minas Gerais. Na Grécia antiga, o preto, o branco, o vermelho e o amarelo eram as cores usadas pelos artistas. Se pudessem entrar numa máquina do tempo e visitar uma loja do tipo da Pearl, em Nova York, não iam acreditar na infinidade de tons que estão, agora, à disposição dos pintores.
As cores são a matéria fundamental da pintura, e os artistas fazem milagres. “Pintam e bordam”, dão forma, conseguem nos enganar aliando-as a truques de perspectiva; enfim, conseguem provocar sensações das mais diversas em todos nós. As cores dos trópicos em Gauguin, torturadas em Van Gogh, suaves em Fragonard, um dos grandes do Rococó, enfim, infinitas as nuances que esses mestres conseguiram mostrar em suas telas.
E como falei em telas, pintores e cores, vou encerrar xom a música Aquarela de Toquinho, quando diz que “nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá, o fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar. Vamos todos numa linda passarela de uma aquarela que, um dia, enfim, descolorirá”. Enquanto não descolorir, quero a minha parede vermelho/vinho de novo, e pretendo me acostumar com as outras que ficaram rosadas; na verdade, mesmo que seja com olhos da cor mais sem graça do mundo, a de burro quando foge, quero ver todas as cores do mundo!