quinta-feira, 23 de maio de 2013

AI, SE EU TE PEGO


AI, SE EU TE PEGO


             Um estrondoso sucesso planetário.  Meu amigo Jorge, em Casablanca, foi abordado por uma participante do mesmo congresso sobre marcas e patentes. Ao confirmar que era brasileiro, viu-a esquecer-se da burka que trajava e dançar e cantarolar o “Ai, se eu te pego”.  Olha o constrangimento. Dias depois, em Dubai, o atendente árabe no aeroporto, ao verificar a cidadania dele, também começou com a tal musiquinha.
             Esse bordão pegou de jeito todo mundo. “Te pego” não mais significa que vou passar na esquina e você vai entrar no meu carro; ou apenas pegar o filho na escola, a amiga para ir ao cinema.  Meu amigo combinou de me buscar para um café no Garcia e Rodriguez dizendo: - “Amanhã, eu te pego”.  Dependendo da entonação, essa frase tão singela pode virar uma confusão.
             Jamais vou oferecer ajuda para colocar a mala pesada na prateleira mais alta, com a escada, dizendo “Posso t****r com você?”.  Outro dia, ouvi uma conversa banal, sobre alguém sugerindo à interlocutora que desse uma ajuda a um colega de trabalho.  E ela me responde em alto e bom som, para a alegria de todo mundo: -“Já estou dando pra ele.”  Êta dificuldade linguística
             Os significados das palavras não são mais os mesmos e, ao ouvir determinado termo, sou obrigada a pensar duas vezes para descobrir qual o assunto em pauta.  Ontem, uma cabeleireira falava em botox, e custei a entender a história - não se tratava daquele para tirar rugas, mas sim de do botox capilar, coisa nova para mim!  Segundo a profissional, com a aplicação da badalada substância, os fios de cabelo ficam de “cara” nova, tal como as testas.
             Outro susto – fisioterapia capilar. Dei tratos à bola para descobrir que diabo seria isso. O drama é que quarenta por cento das mulheres no Brasil sofrem de queda de cabelo, e confesso estar nesse grupo. As causas são muitas e, no meu caso, não vejo saída para algumas delas. Com a obra terminada, já estou menos estressada – ponto a favor. Por outro lado, mesmo consciente de que o sono faz muita falta, não tenho mesmo jeito: durmo pouco desde criancinha.  E a oleosidade, o terceiro vilão, em mim não é mais excessiva, pois toda a tinta usada para esconder os fios brancos já ressecou bastante minha antiga juba. E lá fui eu, acreditando na história.  Na verdade, adorei a avaliação que fiz com a fisioterapeuta capilar.  Descobri que acertei por décadas, mesmo contrariando aquilo que todo mundo dizia.  E nunca fez mal eu lavar os cabelos todo dia!  Com a quantidade de bobagens que colocamos na cabeça, nossos fios ficam todos recobertos por camadas inúteis!  Portanto, ao contrário de estragar, livrei minhas madeixas da química usada. Valeu a pena a consulta!
Tem o lado sério dessa história, ou seja, daquilo que se fala e aquilo que o outro realmente recebe. Mal entendidos são muito frequentes e podem estragar coisas sérias.  Fico pasma com a dificuldade de comunicação, e apagar o fogo torna-se, inúmeras vezes, impossível.
Porém,bom mesmo é quando geram boas risadas!   Outro dia, troquei a palavra “garfo” por “prato”.  E, ao ouvir de um amigo que ele gostava de comer bem, respondi que eu era um bom prato.  Demos sonoras gargalhadas.  Se alguém da mesa ao lado ouviu, vai me considerar a maior “oferecida” do pedaço.  E vai por aí a fora.  Trocando palavras, ou usando palavras com vários sentidos, podemos ter uma fonte de problemas ou motivo para belas risadas.
Assim, feliz aquela moça feia que “debruçou na janela, pensando que a banda tocava pra ela”, e que hoje vai dormir feliz com a frase do vizinho, acreditando que, finalmente, alguém vai pegá-la de jeito.  Sonhar sempre vale a pena.

terça-feira, 19 de março de 2013


O TEMPO PASSA, O TEMPO VOA...
Março de 2013

Penso muito no Tempo.  Talvez essa energia em megahertz que me acompanha há décadas traga, de maneira discreta, a preocupação – vou ter tempo ?  Tantas coisas interessantes que ainda quero fazer...Tem gente que diz que tempo é dinheiro, mas eu discordo.  Tempo é vida.

O Quarteto é uma comédia dramática, sobre esse terceiro tempo da vida, e um de seus personagens principais, assediando sexualmente as mulheres que passam por perto, faz o contraponto para nos alegrar quando o que acabamos de ver abala as estruturas.  E vamos na montanha russa entre o riso e a reflexão. Aqueles simpáticos velhinhos, todos artistas, vivem em um belo recanto, na Inglaterra, e nos divertimos e nos emocionamos com os preparativos para o concerto anual dos residentes, com o grupo tentando angariar fundos para que o lar onde esses idosos vivem não seja desativado.   Vale a pena conferir na telona esse primeiro trabalho do Dustin Hoffman como diretor, deixando pra lá algumas ácidas críticas, a meu ver, injustas.

Como cheguei recentemente dos Estados Unidos, onde existem muitos condomínios para idosos, fiquei curiosa em saber o que o Brasil oferece para nós.  Encontrei dos mais variados padrões, alguns até bem simpáticos, mas com precinhos meio antipáticos, e de um formato um pouco diferente.    De qualquer modo, não precisam mais ser, apenas, depósitos de velhos, e não são mais, em sua maioria.

A psicanalista Angela Mucida discorda dessas comunidades para quem ainda está em boas condições, pois considera uma desvantagem o distanciamento de pessoas de outras faixas etárias, o que, muitas vezes, é inevitável. Já temos um quinto dos idosos vivendo sozinhos no Brasil, e os sessentões, e mesmo os mais adiantados nos anos não são mais aqueles velhinhos dependentes, sentados nas cadeiras de balanço, olhando o mundo de longe – vão à academia, saem para dançar, formam grupos e se divertem, deixando em paz os filhos e netos, que estão completamente atordoados com a vida profissional, filhos pequenos, e toda essa correria dos tempos modernos. 

O que está mais do que provado é que uma boa vida social, exercícios físicos e alimentação acertada trazem excelentes resultados.  Clube do Bolinha, da Luluzinha, Clube da Letra, onde a turma escreve coisas lindas, enfim, clubes ou associações com interesses comuns são fáceis de se organizar e são um remédio sem qualquer contraindicação para uma vida bem mais saudável.  Ando pensando em fundar, qualquer dia desses, um com pessoas que queiram pintar e bordar.  Espero ter muita gente interessada...

Outro dia, enquanto olhava coisas bonitas em uma loja de decoração, ouvi uma mulher dizer que já tinha dobrado o tal cabo da “boa esperança”.  Não me contive e dei meus palpites errados.   Foram muitas risadas, felizmente.  Eu espero que a tal mulher, de apenas 57 anos, fique mais animadinha e descubra quanta coisa boa a vida ainda nos reserva.  Cabo da Boa Esperança é para Bartolomeu Dias, não para mim.

Não vai dar tempo, eu sei, para fazer tudo que se passa nessa cabeça arteira, mas não seriam nem mesmo mil anos que iriam resolver esse problema.  E, além disso, a vida, depois da tal esquina dos cinquenta, vez por outra oferece novidades e surpresas boas, e os planos que fizemos nem sempre são seguidos à risca mesmo com todo o tempo do mundo.  O que vale é ir saboreando o que se tem de melhor enquanto o tempo passa, enquanto o tempo voa... Enquanto isso, um excelente poema de Viviane Mosé – Tempo.

“Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele / soprando sulcos na pele  / soprando sulcos? / o tempo andou riscando meu rosto  / com uma navalha fina / sem raiva nem rancor / o tempo riscou meu rosto com calma / com calma / (eu parei de lutar contra o tempo /  ando exercendo instantes / acho que ganhei presença) / acho que a vida anda passando a mão em mim / a vida anda passando a mão em mim / acho que a vida anda passando /a vida anda passando / acho que a vida anda./ a vida anda em mim / acho que há vida em mim. / a vida em mim anda passando. / acho que a vida anda passando a mão em mim / e por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo / na verdade faz tempo mas eu escondia / porque ele me pegava à força e por trás / um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo / se você tem que me comer / que seja com o meu consentimento / e me olhando nos olhos / acho que ganhei o tempo / de lá pra cá ele tem sido bom comigo / dizem que ando até remoçando”

domingo, 3 de fevereiro de 2013


COM O LIMÃO, UMA LIMONADA.
Fevereiro de 2013

                  Eu prefiro a nova versão e desse limão fazer uma caipiroska!  Com esse espírito, fui para Orlando com Livia, minha filha,  Caio e Leticia, netos queridíssimos.  Ou seja, já levei o açúcar.  Dispensável dizer o que representaria o limão... e a vodka, boa bebida, seria a oportunidade para observar quem visita essa conhecida ilha da fantasia americana. Já estive na outra, em Las Vegas, e vi muitas semelhanças. 

                   Meu fascínio pelo comportamento humano me fez estar atenta a tudo e a todos nos parques da Disney e da Universal, mesmo perdida em um mar de gente.  Na Disney, passam em média 240 mil visitantes por dia, 30 milhões por ano! Na Universal, outros tantos.  O que os leva àqueles centros de entretenimento?  Frei Betto escreveu um texto muito interessante, “Passeio Socrático”, questionando o consumo excessivo, a busca incessante pela distração, pelo prazer, enfim, tudo o que encontramos em Orlando. Enquanto ele filosofava, eu passeava com o Mickey, o Homem Aranha, Capitão América...

                   Para entrar na montanha russa do Hulk, passeio que não dura mais que uns poucos minutos, eram quase 2 horas de espera!  Mesmo que uma pessoa não tenha um lado intelectual substancial, como se propõe a, de pé,  esperar todo esse tempo para andar numa geringonça que nos “ameaça” a integridade física o tempo todo?  Coloca os passageiros de cabeça para baixo, rodopia numa velocidade quase igual à da luz, com todos berrando sem parar e a adrenalina no mais alto grau.  Não satisfeitos, entram na fila outra vez para sentirem a mesma coisa. Saem entorpecidos, imagino, após liberarem todo o estresse do dia-a-dia que deixaram a milhas de distância.

                   Para que ninguém se sinta por demais entediado nessas intermináveis filas, os idealizadores inventam pequenas atrações pelo meio do caminho, mais ou menos com o espírito de que, enquanto se espera pela pessoa certa, a gente deve pode se divertir com as erradas.  Os centros administrativos desses parques controlam, entre outras tantas coisas, o tamanho das filas.  Mal percebem que um ponto vai estrangular, tratam de atrair parte dessa turma para outros locais menos concorridos, com atrações temporárias, personagens ao vivo e a cores para desviar a atenção... tudo para que a gente se esqueça que está há um tempão de pé, às vezes no frio e na chuva!  Em tempo, eu não me submeti a essa coisa toda.

                   O que me deixou animada foi perceber que muitos aproveitavam a espera para trocar idéias com suas turmas.  Não costumo ouvir conversa alheia, mas eu estava ali com a alma livre de qualquer julgamento sobre o que era dito, apenas uma observadora imparcial.  O século XXI aprisionou o homem em seus I-Phones, Smartphones e, sem dúvida, no Facebook; enfim, estão quase todos mergulhados nesse mundo virtual.  Ninguém mais conversa olho no olho... e tem até quem mande torpedo para o filho que está em outro cômodo da casa!  Pelo menos ali, nas filas, estavam conversando, rindo juntos, interagindo tipo old fashioned way. Uma luz no fim do túnel, quem sabe, já que podem readquirir o hábito da conversa fiada.

                   A gente vê todas as variações possíveis de grupos e pares, nacionalidades, uma diversidade impressionante. Vi um bebê com pouco mais de dois meses, o que achei um absurdo completo e, logo depois, esbarrei em uma velhinha de uns 90 anos, em cadeira de rodas elétrica, ostentando um belo sorriso e sua felicidade por estar ali.  Provavelmente, o açúcar da caipiroska que ela preparou era o mesmo que o meu.  Estava em família. 

                   Na tentativa de entender o interesse pela ilha da fantasia, deparei-me com  a estatística sobre o número de televisores ligados no BBB.  Parece que a média é de 1.900.000 só na grande São Paulo. Isso agora, que o programa já não agrada tanto.  Chegou a 3 milhões em uma das suas edições. 

                 Enfim, impossível entender... melhor ficar muda e voltar para minha caipiroska e filosofar um pouco.   Frei Betto fala nos monges tibetanos, que vivem somente a vida interior, sem qualquer interesse no que esse mundo moderno oferece.  E se pergunta onde estaria a felicidade -  na vida estressadas dos executivos, que possuem contas bancárias bem recheadas e podem ir à Disney todo ano, para se entorpecer com aquelas atrações, ou na vida tranquila dos monges, sempre serenos e comedidos ?

                   Gosto do  meio do caminho.  Não fico triste por não poder comprar uma bolsa Ferragamo pela qual me interessei, e ficarei com pena se não puder ir a uma boa exposição de quadros.  Acredito que aquilo que alimenta a alma e o que enfeita o corpo não são coisas incompatíveis.  Levar os netos à Disney e ler, à noite, o livro “Diary of A Bad Year”, do Coetze, cabem nas mesmas 24 horas.  E, assim que puder, vou ao Louvre deliciar-me, mais uma vez, com a Vitória de Samotrácia, usando, é claro, minha bolsa nova da Furla, escandalosamente vermelha.

terça-feira, 20 de novembro de 2012


“QUEM NÃO PODE COM A FORMIGA NÃO ASSANHA O FORMIGUEIRO”
Novembro de 2012
                Pois é, mais uma vez no Recife, cidade que sempre me encanta. Conhecer o Museu do Homem do Nordeste foi um dos pontos altos dessa viagem, só não superado pela alegria de estar com a família na semana de comemoração do aniversário de Alberto,  primo nascido no Rio de Janeiro, crescido no Rio Grande do Sul, mas para sempre em Recife.  Foi um “retirante” inverso - partiu das praias cariocas, passou pelos pampas gaúchos e escolheu esse Pernambuco de tantos brasileiros marcantes.
O museu é muito interessante e faz a gente parar e pensar sobre o que significa enfrentar a aridez da terra, a seca, e ter que escolher entre ir embora, na esperança de uma vida menos difícil, ou permanecer e enfrentar a natureza e a devastadora política que sempre comandou a região...  De onde vem força para superar tamanha adversidade?  E a coragem para deixar o chão onde se deu os primeiros passos e a família que teima em ficar?
A migração no Brasil continua, mas não mais intensamente no sentido nordeste-sudeste, como foi décadas atrás.  Enfim, o homem em busca de melhores condições é uma história que vem sendo contada por todo o planeta, em todos os tempos.  O fluxo agora, com a mudança do perfil econômico das diferentes regiões, pode ser até mesmo negativo em  cidades como  Recife, Salvador e Fortaleza, que se tornaram atrativos para gente de todo o país.  Acabaram de inaugurar uma fábrica da Nissin-Ajinomoto, em
Glória do Oitá, na região da Mata Norte de Pernambuco, que vai fabricar 600 pacotes de miojo por minuto.  Estamos, no mundo, em décimo lugar no consumo de macarrão instantâneo, e o Nordeste pode se tornar um mercado interessante para a empresa.  Isso significa que teremos, por aqui, além da carne de sol com manteiga de garrafa, macaxeira e jabá com jerimum, muito miojo.  Prefiro não comentar e ter esperança - os nordestinos hão de lutar bravamente.
 Falando em perserverança, em coragem, temos aqui no Recife a comunidade chamada Brasília Teimosa... nome mais significativo, impossível.  É fácil imaginar que se constituiu na época em que a nova capital do Brasil estava sendo projetada.  Ao contrário daquela outra, os que viviam na daqui sofriam constante ameaça de expulsão: as pessoas construíam suas moradas à noite e as viam sendo derrubadas de dia.  Não desistiam nunca, e chegaram a mandar um grupo de cinco deles numa jangada até o Rio de Janeiro, para divulgar sua luta na posse de JK na presidência. 
A teimosia foi a marca desses nordestinos contra os interesses dos políticos e dos grupos econômicos, que queriam fazer do local um depósito de inflamáveis.  Urbanizada há tempos com recursos do BNH, hoje em dia é centro de atração para os turistas, que procuram seus inúmeros restaurantes típicos, um deles que já visitei e recomendo – Império do Camarão, na Rua do Badejo, 32.  O bairro tem cerca de 20 mil habitantes e carrega, orgulhoso, o nome que revela sua força.  Seu povo não teve medo da formiga e assanhou o formigueiro, todo poderoso.   Falando francamente, Recife lucrou com a troca – uma comunidade organizada, comportada, em lugar do tal depósito de inflamáveis.
Para dar título a essa crônica, inspirei-me em trecho de um dos cantos apresentados na homenagem ao cacique Chicão, lider Xucuru assinado em luta pela terra. Mais ou menos o que o velho ditado quer dizer – Quem não tem competência não se estabelece.  Na vida ou em qualquer outra coisa.  Mas isso assusta qualquer um.  Como saber de antemão se sou capaz, se  na maioria das vezes somente avalio minha força quando a situação se apresenta?
Luiz Gonzaga, pernambucano famoso, fez do limão a limonada... assanhou o formigueiro, pois dava conta da formiga.  Cada tropeço o fazia ir adiante, não importando a dor que estivesse sentindo.  Recomendo “Gonzaga – de pai para filho”, de Breno Silveira, lançado para comemorar seu centenário.  E minha vinda a esse Pernambuco onde nasceu, poucos dias depois de me deliciar com sua história na telona, é uma das coincidências da vida que nos fazem sorrir.
E enquanto aproveito as delícias de Pernambuco tão acolhedor, penso em seus filhos que ultrapassaram as fronteiras regionais e encantaram o país inteiro.  Manuel Bandeira, Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, eternizado às margens do Capibaribe, como se a pensar em Morte e Vida Severina...
E é por isso que eu digo - essa turma do Ajinomoto não sabe o risco que corre.   Acho que está assanhando o formigueiro, sem conhecer bem essa formiguinha nordestina, brava, teimosa e forte como poucos, que vai defender com unhas e dentes seu caldinho de peixe ou camarão, seu casquinho de caranguejo, aquele incomparável sururu com leite de coco, o arrumadinho com uma cerveja pra lá de gelada... Hão de vencer!
E fechando essa conversa fiada, preciso contar que li, num  jornal local, que Asa Branca, de Gonzaga e Humberto Teixeira, ganhou versão em coreano e vem fazendo um sucesso daqueles.   Ainda não conferi no youtube, mas não vou perder essa.  Devo, entretanto, confessar que de sua vasta obra tenho um carinho mais do que especial pelos versos da fantástica Vida de Viajante: “Minha vida é andar/Por esse país/Pra ver se um dia/Descanso feliz/Guardando as recordações/Das terras por onde passei/Andando pelos sertões/E dos amigos que lá deixei.”
               


sábado, 25 de agosto de 2012


VAI UM CAFEZINHO?  AÇÚCAR OU ADOÇANTE?
  


                 Quem viver, verá!  Vivi e vi.  Um cafezinho, às nove e meia da manhã, oferecido por uma simpática mocinha.  Isso, na sala de atendimento aos idosos do DETRAN, ali na Presidente Vargas.  Tive outra surpresa igualmente agradável semana passada, no mesmo órgão, só que na Rua da Ajuda.  

                Não sou a única a ter queixas quanto ao atendimento nos órgãos públicos. Somos muito mais que a galera do Flamengo junto com a do Coríntians.  Minha experiência como cidadã, em geral, foi mais para o desfavorável –em cerca de oitenta por centos das vezes, fiquei insatisfeita.

                   Para o atendimento na Rua da Ajuda, estava agendada para nove e trinta, mas cheguei dez minutos antes. Fiquei assustada com as  centenas de pessoas ocupando aquela infinidade de cadeiras, cores variadas marcando os não sei quantos guichês, enfim, um ambiente que justificaria um tempo enorme de espera.  Incrédula, percebi que foi o tempo de pegar a senha e, correndo, ir para o guichê que o sistema já indicava para meu número! Apresentei os documentos que haviam exigido e, em exatos 6 minutos, saí de lá com o certificado de registro e licenciamento do carro para esse ano de 2012.  Antes das nove e trinta, tinha resolvido tudo.  Não deve ser sempre assim, mas tampouco devem ser horas de espera, como antigamente.

                   No dia do tal cafezinho, cheguei 20 minutos antes, isso na Presidente Vargas, para tirar a permissão internacional para dirigir.  Fui atendida exatamente às 10 horas... o horário agendado.   A atendente resolveu o problema que eu mesma criara, ao pedir a tal permissão internacional antes de renovar a carteira de motorista comum, que preciso para dirigir no Brasil.  Sorrindo, mudou o pedido.  Para enfrentar o trânsito do mundo, resolvo depois.   Na espera pelo atendimento, foi oferecida um café.  Não curti a gentileza apenas por não gostar dessa bebida, mas achei a iniciativa ótima.

                   No ano passado, no Dia do Idoso, em setembro, foi oferecido um lanche mais ou menos na hora almoço e, à tarde, o coral do órgão se apresentou para alegrar a turma de velhinhos.   Isso não teria qualquer valor se não tivéssemos o atendimento propriamente dito de boa qualidade. O melhor de tudo é que se tem.   Os serviços na Rua da Ajuda, que são dirigidos a todos os cidadãos, também foi nota mil.   Ou já se foi o tempo que nos desesperávamos para resolver os problemas junto ao DETRAN, ou foi apenas muita sorte!

                   Não deveria estar aqui elogiando o que deveria ser o procedimento usual, como também não devemos chamar de honesto quem devolve o que acha por aí.  Isso é o que deve ser feito naturalmente, sem  aplausos, sem destaque.  Mas é natural, também, quando se vive na extrema falta, querer exaltar essas diferenças.

                   Vi uma luz no fim do túnel e tive uma ideia.  Quem tal elogiarmos bastante, tornando público esse “modus operandi”, fazendo com que outros órgãos sintam-se atingidos em seus brios e tomem vergonha?  Bem, mesmo sem ter provado o que era servido, adorei o cafezinho do DETRAN, e para ele levanto um brinde!

terça-feira, 7 de agosto de 2012


O PÃO E O CIRCO, O HOJE E O AMANHÃ

Fui aprender como economizar o “pão”, semana passada, subjulgada por meu espírito curioso (curiosíssimo, devo confessar).  Não consegui resistir ao convite para uma palestra organizado pelo projeto EDUCAR – BOVESPA – Mulheres em Ação, e lá fui eu.  Uma experiência bastante interessante, isso sem contar que o palestrante, por quatro horas ininterruptas, prendeu a mais completa atenção de todas nós, cerca de vinte mulheres!  Aquele tem o dom e deve ter tomado aulas com Fidel Castro para não perder o fôlego. Mostrou, sem dúvida, que o mundo financeiro não precisa ser encarado como um bicho de sete cabeças, e conseguimos, parece, perder definitivamente o medo do que parecia ser um reduto predominantemente masculino.
A linguagem direta, divertida e muito agradável de Antonio Vasconcelos nos deixou bem claro qual o espírito da coisa – devemos poupar hoje para que seja possível gastar tudo depois!  Comecei a desconfiar que é tudo bem o oposto à filosofia popular de “não deixe para amanhã o que pode fazer hoje.”  A cartilha deles ensina - Deixe para consumir amanhã, depois de amanhã, sei lá quando.
Segundo a boa regra do mercado, o que salvarmos hoje, vamos de qualquer maneira gastar no futuro, na velhice, daqui a alguns anos... a vantagem é que o dinheirinho vai aumentar com os juros que conseguiremos deixando-o quietinho por algum tempo.  Esse consumo adiado não quer dizer que será concretizado, necessariamente, no shopping, nos supérfluos, naquilo que vulgarmente consideramos consumo, mas será, invariavelmente, consumido. Quem tem dúvidas de que esse dinheirinho vai voltar à roda viva?  Vai pagar a faculdade dos netos, um apartamento maior, ou até mesmo nos salvar com os remedinhos que precisaremos para uma vida melhor.  Se não voltar a circular pelas nossas mãos, os herdeiros vão dar cabo dele bem mais depressa do que gostaríamos.  Não tem saída - uma hora ou outra, vai girar.
O problema é que é muito difícil sobrar para que possamos colocar no cofrinho.  Se temos uma receita mais reduzida, vamos nos comprimir no orçamento e damos conta.  Se elevamos os ganhos, vamos nos espalhando aqui, ali, sem muita percepção do movimento, e logo, logo, não podemos mais viver fora daquele novo padrão.  A dificuldade é a mesma para o pobre deixar de tomar o refrigerante no final de semana e o rico comprar apenas meia caixa de whisky, quando está acostumado a uma inteira!  Não nos controlamos, e a poupança, geralmente, vai para o espaço.
O cartão de crédito, o dinheiro de plástico, é um sedutor.  Como não saem da carteira as notas e as moedas,  a ilusão se instala de imediato e você nem percebe que gastou!  O dinheiro ao vivo está com os dias contados, servindo apenas para dar ao velhinho da porta da igreja, isso quando a gente vai à igreja, ou para o chiclete que o menino vende no sinal.  Pague seu carro em 60 meses e nem vai perceber que pagou 3 carros... Pagamos com cheque, com débito em conta; enfim, o mundo da fantasia, pois o que os olhos não vêem, o coração nao sente, não cifra, e continuamos com a volúpia das compras, praticamente sem abrir a carteira.  Tem agora o comércio ponto com...
Portanto, para poupar, temos que cortar.  E os especialistas afirmam - o que primeiro se corta é o “circo”.  O restaurante não mais será semanal, e o cinema, só em casa, com pipoquinha de microondas. Ou é a poupança que vai para o espaço ou é o lazer.
Eram cinco e meia, quando acabei de ouvir essa história toda de poupança, ações, CDB, PGBL, VGBL, cheque especial, e mal tinha tempo de chegar ao compromisso seguinte.  Literalmente, corri para a Estação das Letras e pude ouvir Tatiana Salem Levy falando de seu processo criativo.  Naquele espaço, sonhei, voei alto, pensei na alma e não na Bolsa.
Indo para casa mais tarde, noite alta, percebi o quanto tinha aprendido naquele dia.  Tanto recebi a receita para cortar despesas e aplicar onde posso fazer render alguns dos meus trocadinhos, como tive a confirmação de que a literatura, a arte, tudo isso é fundamental ao ser humano.  Em 10 minutos, havia comprado 4 livros.
Resumo da ópera – A BOVESPA e seus financistas me aconselham a gastar apenas o que é “essencial” para a sobrevivência.  Nada extra!  Nem os livros!  Com isso, aplico a sobra, deixo render e, em 10 anos, tenho um belo extra no meu cofre de porquinho.  Pois é, basta cortar meu lazer, meu prazer...
Pensando cá com meus botões.  Faltam 35 anos e meio para eu chegar aos 100.  Alguém vai acreditar que vou deixar de lado alguns dos maiores prazeres da vida para guardar por “meros” 10 anos uma determinada grana para, depois, consumir?  Mesmo sendo a mais otimista das pessoas, não sou ingênua.   Dez anos não são uma eternidade. São uma preciosidade!  Quero desfrutá-los intensamente.  Repito, a BOVESPA não me convenceu. Vou continuar comprando meus livrinhos, escolhendo a bolsa, não a de valores, mas a Prada,  Louis Vuitton...  Nesse momento da vida, a poupança é que deve ir para o espaço... não o prazer! Dele, não abro mão. Com cuidado, é claro, posso ter o pão e o circo. O que vale mesmo é o “Não deixe pra amanhã o que pode fazer hoje!”  E tenho dito!

quinta-feira, 31 de maio de 2012


UM TRIÂNGULO AMOROSO
Maio de 2012

             Não tenho escrito, e não é por falta de assunto ou vontade.  A velocidade da vida acaba atrapalhando.. ou servindo de desculpa?  E me volta a pergunta de sempre - que impulso me leva a escrever?   Tento entender, primeiro, quem desejo atingir, quem devo eleger como leitor.  Depois, o que quero fazer com as palavras... as dúvidas são enormes.  O que tenho certeza é que o tema não se esgota em mim.  Todos os que lidam com a literatura, com o escrever, mesmo que sem maiores pretensões, continuam a perguntar o que nem grandes pensadores puderam responder.  E para deixar tudo ainda mais complexo, temos a tal literatura silenciosa do “não”.  Que  escritor não sofreu com  a pulsão negativa e passou anos sem escrever – a angústia da folha em branco.  Por que escrever ?  Por que não escrever ?
                   Fã ardorosa de Rubem Braga, emocionei-me com a crônica que escreveu há mais de cinquenta anos, que não perdeu a força e a atualidade.  Dedicou duas laudas à confissão -  Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto, que chegasse a chorar e dissesse – “ai, meu Deus, que história mais engraçada!” Completou a idéia, dizendo que queria que sua história fosse como um raio de sol, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, doente, de luto.
                   Braga foi além, dizendo que gostaria que um casal mal-humorado, que estivesse em casa sem falar um com o outro, fosse ler sua história.  Quando o marido começasse a rir, a mulher, curiosa, também iria ler... igualmente seu riso despertaria... e “ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que, um ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.”
             Pois é, seria algo absurdamente maravilhoso fazer isso... ajudar o outro a reencontrar a alegria que se perdeu lá atrás.  Mas  nem sempre um bom livro faz isso.  Pode trazer de volta uma dúvida existencial, ou lembranças de um passado não tão querido, enfim, nem só de flores é feita a literatura.
                   Porém, quem diria?   Depois de velha, envolvi-me num triângulo amoroso.   Pois é, estou dividida entre Rubem Braga e Montaigne.  Cada hora, fico com um.  O primeiro a me encantar foi o Rubem.  Como adoro escrever crônicas e ele foi um mestre nessa arte, fácil explicar o envolvimento.   Devo esclarecer que não estou volúvel  a ponto de trocar meu objeto da paixão, mas de acumular, justamente em terreno onde Vinicius de Moraes bem dizia que menos vale mais!   Rosa apresentou-me Montaigne quando brilhantemente traduziu “Os Ensaios” em 2010. Foi atração fatal, daquelas dignas de um romance, o que torna isso um caso para Freud estudar e tratar. 
                   Uma das vantagens de se tornar uma pessoa idosa, dentre as poucas vantagens, vale confessar, é que a autocensura vai passear em outras freguesias.  E, graças a essa liberdade, consegui perceber muitas semelhanças entre o que o célebre ensaísta pensava sobre o escrever e o que se passa pela minha cabeça insana. 
                   A culpa para essa pretensão é da introdução ao livro feita pelo crítico literário Erich Auerbach, que me fez encontrar muitos pontos em comum com o famoso francês.   Em primeiro lugar, Montaigne dava voz às forças internas que o dominavam. As minhas estão sempre em ebulição, e devo constantemente liberá-las para que não entrem em ponto de fissão nuclear e eu me divida em pedaços menores... que provavelmente continuariam a dar muito trabalho. 
                   Volto ao assunto principal - Montaigne começou a escrever para falar de suas próprias experiências, sobre o que via e lia. Todos concordam que nao perco a mania de dar palpite sobre tudo que vejo, ouço ou percebo.  Mas esses pensamentos, os dele, segundo Auerbach, não são importantes, na verdade, para nenhuma disciplina específica.  Considero o mesmo em relação aos meus delírios. São idéias de leigos, e mesmo quando parecemos estar dizendo algo coerente, nada vai além da expressão pura e simples do que se passa em nossas cabeças, sempre com base em um raciocínio multifacetado, pouco especializado e profundamente subjetivo.  No meu caso, diria – estupidamente subjetivo.
                   Seus escritos nos mostram que ele pula de um assunto para outro sem a menor cerimônia, capturado por uma palavra qualquer que lhe desperta interesse em outra coisa e, sobre essa novidade, começa a discorrer. Alguma coincidência com as croniquetas?
                   E aí vai a comprovação de nossa completa semelhança = ousamos dizer tudo o que nos vem à cabeça, na certeza de que a coesão da nossa personalidade será forte o suficiente para dar razoável unidade ao todo.
                   Como era gênio, escreveu e ficou.   Como pessoa normal, imaginativa posso até concordar, vou passar de fininho, e só os mais próximos terão lido minhas croniquetas.   Porém, nosso objetivo terá sido o mesmo - escrever para nós mesmos. Se os outros, por ventura, descobrirem em nossa obra alguma utilidade e prazer, tanto melhor.
                   Entre les deux, mon coeur balance.  Rubem ou Montaigne?  Na verdade, se estiver me sentindo abnegada, dadivosa, sou Rubem e vou  desejar escrever uma história muito engraçada, mas muito engraçada para fazer alguém feliz.  Se, ao contrário, não estiver tão preocupada com os leitores e desejar escrever para me satisfazer e dar vazão às minhas forças vitais, estou mais para Montaigne.  Pois é, no final das contas, não posso abrir mão de qualquer deles.  Fazem parte de mim.