segunda-feira, 22 de março de 2010

I LOVE PARIS, AINDA
Março de 2010.


Nos 12 dias que passei em Paris, aproveitei para conhecer novos restaurantes, daqueles que deixam a gente com água na boca mal se olha o cardápio. Como foram muitos, não vou conseguir falar sobre tudo o que comi de maravilhoso em cada um deles, mas devo sugerir que quem for Paris deve reservar um tempinho para almoçar, por exemplo, no Le Recamier, especialista em souflés, doces e salgados. Optei pelo que é preparado com farinha escura e cogumelos selvagens. Intraduzível o sabor! Fica na rua de mesmo nome, em Saint German-de-Prés, e a gente deve saltar na estação de metrô Sèvres – Babylone.

Por certo, seria mais interessante e charmoso jantar no Benoit, mas não adianta sonhar – reservas somente com três meses de antecedência!. Assim, quem quiser provar do que há de melhor do Chef Alain Ducasse que apareça por lá, então, entre duas e meia e três da tarde, pois pode dar sorte, como eu e Bianca demos, e conseguir uma mesa. Não tem risco – peça o que quiser e quase morra pela boca. Acabei não provando o que estava anunciado como a sobremesa top – La truffe noire, preparada com o vinho Châteauneuf-du-Pape. Da próxima vez, juro que não vou perder a oportunidade!
Como a gente já sabe que as aparências enganam, não dê meia volta, volver quando chegar ao Le Hangar, um restaurante no Marais, ao lado da estação Rambuteau, pertinho do Beaubourg. A aparência simples não nos deixa acreditar que a cozinha possa nos surpreender. Mas surpreende! E os preços são bem razoáveis. Vive cheio! Também no Marais, aproveite o Le Gaigne, com um cardápio de primeira! O haddock e a truta são excelentes, e o preço não assusta.

Aquela história de que a culinária francesa apresenta, sempre, pratos com porções muito reduzidas das iguarias não cabe quando se fala no Moissonnier, especializado em comida da região de Lyon. Impossível comer sozinho... podemos pedir um prato para cada dois! Fica perto da estação de metrô Cardinal Lemoine, ali pelo Jardin des Plantes. Tem charme, como a maioria dos restaurantes de Paris. Pelo que vi, são mais de 6.000 ao todo, variando dos mais simples aos conhecidos templos da gastronomia mais famosa do mundo.

Adorei o bar-restaurante Le Fumoir, onde meu sobrinho Luiz e sua mulher Vivien levaram Rosa e eu, e que tem um ambiente charmosérrimo e pratos deliciosos. Fica bem pertinho do Louvre e vale realmente a pena. Fomos atendidos por funcionários muito elegantes e, por sorte, nossa mesa era na biblioteca...que também funciona como tal, durante o dia, emprestando livros e oferecendo jornais para uma leitura rápida. O ambiente nos leva de volta ao século XIX, e fiquei imaginando passar uma tarde ali, lendo e bebericando alguns dos deliciosos e famosos coquetéis que oferecem. Uma informação prática – o brunch servido aos domingos custa, sem bebidas, perto de vinte e seis euros.

E foi no Le Grand Colbert que, além de uma cozinha ótima, com pratos sempre com algum toque exótico, encontramos um garçon super simpático que falava Português. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que os patrões haviam montado duas pousadas em Fortaleza, e que ele, por ter supervisionado as obras, aprendeu nossa língua. Mas o melhor de tudo foi saber que foi filmada ali aquela deliciosa cena da comédia romântica “Alguém tem que ceder”, quando Harry, o personagem de Jack Nicholson, vai a Paris atrás da Érica, papel desempenhado pela Diane Keaton. Esse detalhe torna o lugar mais charmoso ainda.

Para completar, na mesa ao lado, estava Cristiana Reali, amiga da Rosa, e a quem tínhamos acabado de assistir na peça “On Purge bebe”. Nossa atriz brasileira é um sucesso por lá... merecido o sucesso, pois ela é mesmo muito boa no que faz. E as comédias de Georges Feydeau agradam há mais de um século! A boa arte é, sem dúvida, atemporal.

E vale falar no Theatre du Palais-Royal, onde a peça vem sendo encenada. Belíssimo, mesmo com 370 anos de idade!. Construído sob a batuta de Richelieu, abriu suas portas em 1641. Durante muitos anos, a trupe de Molière apresentou-se naquele palco. Embora reconhecidamente um político de caráter complexo, eminência parda de Luís XIII, o cardeal foi um grande patrocinador das artes e das letras. Fundou a Academia Francesa, cuja atribuição permanece a de regular a língua francesa, preservando, sobretudo, sua pureza. A responsabilidade inicial da instituição foi a de preparar um dicionário. E a gente aqui no Brasil tendo que trocar toda hora de dicionário... Já não sei mais quando tem hífen, quando não tem... E “mataram” o trema!

Falando mais um pouco da Academia Francesa e seus 40 membros, ela congrega poetas, romancistas, dramaturgos, filósofos, médicos, cientistas, críticos de arte, militares, políticos, religiosos, enfim, todos que eles acreditam serem capazes de honrar a língua nacional. E, mais do que tudo, possam refletir a imagem do talento, da cultura, da inteligência e da ciência, bases da intelectualidade francesa.

Em tempo, nossa Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897 por Machado de Assis, também com 40 membros, foi instituída segundo o modelo da francesa, objetivando o cultivo da língua e da literatura nacionais. O drama é que não tenho certeza se temos feito as melhores escolhas. Descobri que o mais antigo membro do quadro atual é o José Sarney, e que também o Marco Maciel é imortal. Acho que vou mudar de assunto. Para não sofrer mais.

Voltando aos restaurantes, devo recomendar Le Zyriab, no Institut du Monde Árabe, metrô Jussieu, para quem gosta de comida típica do oriente. Simplesmente deliciosa. O melhor é pedir vários pratos para dividir com os companheiros de mesa. Eu e Bianca pedimos tudo - quibe, coalhada, tabule, kafta, arroz de lentilha... Fica no nono andar, oferecendo uma vista panorâmica dos telhados de Paris de tirar o fôlego. E a arquitetura, não somente do restaurante, mas do prédio todo, merece ser apreciada com bastante atenção.
Eu e Rosa fomos ver a exposição dos desenhos de Delacroix, no museu instalado na casa onde morou e onde mantinha, no prédio nos fundos, seu ateliê. Fantástica a mostra. Ele, realmente, era de um talento invejável, e fiquei encantada com a coleção de desenhos que trouxeram de Nova York, de propriedade de uma grande colecionadora. Saindo de lá, aproveitamos para “respirar” o mesmo ar de Sartre e Beauvoir e fomos comer omelete no Café de Flore. O metrô mais próximo é o Saint Germain-de-Prés.

O lugar ficou famoso pela clientela intelectual que freqüentava seu maravilhoso interior art déco, nos anos do pós-guerra. Parece que, agora, vemos mais turistas em suas mesas do que seres pensantes. Acho que as perguntas que o famoso casal lançava nas discussões sobre o existencialismo ainda pairam por ali. Dizem que foi naquelas mesas que Sartre escreveu sua famosa trilogia “Os caminhos da Liberdade”. Lembro-me que, quando li, um dos volumes era emprestado de um amigo. Quando acabei, fiz questão de comprar para ter, para sempre, a coleção completa. Bem em frente, temos o restaurante considerado seu rival, o Les Deux Magots, que também estava superlotado naquele dia. É outro que também deve constar da lista dos imperdíveis.

Não posso deixar de contar que voei pela TAP nessa viagem e tive a sorte de minha escala em Portugal ter sido no Porto. Segunda cidade do país, foi quem lhe deu o nome, pois o povoado pré-romano de onde se originou era chamada de Cale, ou Portus Cale. Bem, isso dizem, mas nunca se sabe. Fiquei lá apenas duas horas, mas isso foi o bastante para me deixar com vontade de voltar. Nem mesmo a insistente chuva me desanimou, e o metrô, o “Andante”, facilitou minha vida. Impressionou-me seu traçado, bem abrangente, com 60 quilômetros de rede e 60 estações para atender a metrópole com um milhão e duzentos mil habitantes. No Rio de Janeiro, se não me engano, são 40 estações em cerca de 50 quilômetros de extensão. Somos, na área atendida pela rede, cerca de mais de 6 milhões de habitantes.

E se falarmos do sistema de transporte de Paris, ficamos profundamente envergonhados. O metrô tornou-se um símbolo da cidade e foi inaugurado em 1900. Tem nada mais nada menos do que 16 linhas, 300 estações e 214 quilômetros! Leva mais de quatro milhões de passageiros por dia.

Vou voltar, sei que ainda vou voltar... assim disseram nossos poetas Chico e Tom... em outra circunstância, eu sei. Mas prometo a mim mesma uma visita decente ao Porto, a Portugal todo, pois sei que também vou me encantar. Por enquanto, fica somente I Love Paris.



terça-feira, 16 de março de 2010

I LOVE PARIS

I LOVE PARIS
Março de 2010


“I Love Paris”. Estranho eu mencionar a música de Cole Porter, em Inglês, se o que quero nessa crônica é falar da França? “J’aime Paris” não me parece a mesma coisa. Muitos vão se perguntar por que, então, não usei “Sous le ciel de Paris”, um céu que a voz de Yves Montand imortalizou da maneira mais perfeita. Na verdade, qualquer outro título me pareceria menos intenso do que I Love Paris. O que interessa mesmo é que estou com a maioria - amo Paris tanto quanto a torcida do Flamengo, do Coríntians e do meu Vasco.

Essa paixão que a cidade desperta tem história, e ouvi dizer que são cerca de 30 milhões de visitantes por ano. No século XVII,
já era a capital da maior potência política européia; no século XVIII , transformou-se no centro cultural europeu , ganhando o título de Cidade Luz, que carrega até hoje, em razão da efervescência intelectual e artística durante o Iluminismo; e ficou conhecida como a Meca da Belle Époque no século XIX. São razões de sobra para explicar o fascínio que desperta.

Há controvérsias quanto à história da cidade. A única certeza é que os Parisii, gauleses de origem celta, eram os “donos” da região quando Júlio César chegou com as tropas romanas. Nomeou-a Lutécia
por causa da lama que o Rio Sena deixava quando invadia a vila de pescadores em suas margens. O nome Paris venceu, felizmente, tempos depois. Esses fatos me fazem rir sozinha, ao pensar nas aventuras dos ”heróis gauleses” Asterix e Obelix, histórias em quadrinho da melhor qualidade. Gostava muito daquele humor super inteligente de Uderzo e Goscinn, e acho que vou reler algumas delas.

Na Primeira Guerra, a cidade não sofreu grandes ataques, mas na segunda foi ocupada pelos alemães logo em 1940; somente em agosto de 1944, foi libertada. Por sorte, estava inteira, pois o general alemão que chefiava as tropas invasoras, um homem culto e amante das artes, ostensivamente desobedeceu Hitler, que ordenara a destruição total da cidade.

Na tentativa de aliviar as tensões sociais que já se mostram nos subúrbios de Paris, muito em razão da emigração que se faz presente, e quem sabe “inspirado” por sua Carla Bruni, o Presidente Sarkozy tem, na manga, vários projetos de desenvolvimento econômico e tecnológico para o país, bem como um grande plano para a criação de uma administração da “Grand Paris”, ou “Greater Paris”. Será a administração para aquilo em que Paris deverá se transformar nos próximos 40 anos - uma metrópole do século XXI. Confesso que temo que, com esse crescimento, venha a perder parte de seu grande charme!

Não pude resistir ao convite de minha querida amiga Rosa, que divide seu tempo entre Paris e o Rio, e mais uma vez lá fui eu, com mil casacos na mala. Peguei um pouco de neve esse ano, enquanto o resto da Europa sofria horrores com as intempéries. As previsões quanto ao clima no futuro, aquelas mais do que assustadoras, talvez nem sejam tão exageradas, pelo que estamos vendo por agora.

Não foi uma viagem turística, no tradicional conceito de ”turismo de massa”. Mas alguns lugares famosos foram revisitados, com grandes descobertas, o que nos faz ter certeza do quanto deixamos de ver, de sentir, por passarmos grande parte da vida, vamos dizer, um pouco “adormecidos”. E isso não é só quando estamos em lugares novos... tampouco percebemos bem os lugares onde passamos grande parte do tempo. E, pior, as pessoas que estão conosco há muito podem ser verdadeiros desconhecidos ... Vemos pouco, pouco mesmo, do que quer que seja.

A Torre Eiffel, construída para a Exposição Universal de 1889,
nos cem anos da Revolução Francesa, continua atraindo o interesse dos turistas, como também o Arco do Triunfo, a Igreja de Notre-Dame de Paris, a Saint-Chapelle, com seus vitrais deslumbrantes, Les Invalides, o Pantheon... Olhei somente por fora, mas pude ver lá dentro, com a memória a me trazer tudo de volta.

O frio e a chuvinha miúda, incessante não me impediram de pegar o metrô e ir, mais uma vez, olhar Paris lá de cima. A Sacré Cœur é deslumbrante, mas o encantamento que se desperta na gente em Montmartre não vem somente dela. Bem pertinho, meio escondida, tanto que eu não havia visto antes, está a Place du Tertre, com muitos artistas de rua pintando os turistas deslumbrados com aquela atmosfera. A gente se imagina no tempo em que Montmartre era o centro da arte moderna, lá pelo início do século XX, com tantos gênios exercendo sua arte por ali, a maioria ainda bem pobre. Voltei, realmente, no tempo e me vi imortalizada por Picasso como uma das Demoiselles d’Avignon, acabando “meus dias” pendurada numa das paredes do MOMA, lá em Nova York. Ou, quem sabe, retratada como se eu fora Dora Maar, quando Picasso estava apaixonado e cubista ao extremo.

Quando desci de Montmartre, deparei-me com um enorme cartaz que anunciava, nada mais nada menos, do que um show do Trio Esperança, aquele lá dos anos 60. Levei um susto, agradável, sem dúvida, mas um susto. E lá estava a Evinha, com aquela carinha de sempre e o sorriso característico. No grupo, faltava o irmão, mas, para compensar, a nova componente deve ser uma outra irmã. No show marcado para o final do mês de janeiro, lançaram o novo CD, dessa vez interpretando de Bach a Jobim. Enfim, estão lá na Europa há décadas, apresentando-se para os que apreciam nossa música.

Com essa história, fiquei curiosa sobre o destino dos Golden Boys, os outros cantores da família, que seguiam a linha dos The Platters; e lá fui eu para o Google. Como sempre que consulto a rede, acabo esbarrando em mil problemas, pois aparecem informações sobre quase tudo que apresenta semelhança com o que se procura, um universo inacreditável. Depois de alguma procura e um pouco em dúvida, entendi que os Golden Boy somente gravaram até 1971.

Museus. Não vou mais ao Louvre, pelo menos por mais uns belos anos. Parece uma heresia, mas confesso que seus 17 quilômetros de galerias me aterrorizam. Informação demais ao mesmo tempo e, nesses casos, ouso dizer que o que abunda prejudica... As visitas anteriores, inúmeras, já me bastam. Bianca, minha caríssima amiga, sugeriu o Museu Jacquemart-André, uma jóia que a gente encontra no Boulevard Haussmann, perto de Charles de Gaulle-Étoile. Encantou-me a luxuosa residência, bem característica do século XIX, com uma preciosa coleção de pinturas da renascença italiana e da pintura francesa do século XVIII, isso sem falar nas importantes obras de pintura flamenga. Vale conferir.

Outro lugar imperdível é o Museu Nissim de Camondo, na Rue de Monceau. Na mansão do princípio do século XX, modelada a partir do Petit Trianon de Versailles, encontramos o que há de melhor em mobiliário e objetos de arte. Seus proprietários, a família de um banqueiro judeu, tiveram um destino bastante trágico na Segunda Guerra, e deles somente restou esse museu. O ser humano, em geral, carrega em si o gérmen do que há de mais nobre e de belo, mas alguns trazem o que há de mais abominável, e a História fica manchada de sangue para sempre.

No Les Arts Décoratifs, pude ver a exposição sobre Madeleine Vionnet, considerada, por alguns, mais talentosa do que Chanel. Todos se mostravam encantados com suas criações, aparentemente simples, mas que são fantásticas, com drapeados que ficaram famosos. Um outro mundo, esse da moda, mas não menos fascinante...

Mais um ponto alto da viagem foi a exposição “Personne” do conhecido artista francês Christian Boltanski. Eu ainda não havia visto o Grand Palais depois da reforma e fiquei maravilhada. Poucos lugares oferecem tamanho desafio a um artista. Considerada uma obra prima da engenharia, com o maior telhado de vidro da Europa e sua estrutura de ferro com paredes de pedra, esse espaço faz com que tudo que aconteça ali ganhe uma força ainda maior.
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Boltanski, sabemos, é um artista polêmico. Essa montagem representa o Holocausto e, realmente, atinge o espectador no estômago. Ouve-se, ao fundo, o som repetitivo de um “tam-tam” que vai atordoando os visitantes com uma força indescritível e que, logo, logo, beira o insuportável. É composto do batimento de 69 corações, difundido por alto-falantes instalados em pontos estratégicos. Alguns críticos dizem que o tipo de experiência artística que ele traz nessa exposição serve para manipular emocionalmente quem a vê e discordam. Não vou entrar na discussão por não entender do tema, mas devo confessar que Bianca e eu sentimos o peso daquilo tudo. Saímos de lá e fomos direto ao Ladurée, bem pertinho, para tomar um chá, ou melhor, uma taça de champagne, que ninguém é de ferro e, de certa forma, precisávamos mudar de ares e de assunto.

Como Paris não se esgota, tudo o mais que tenho a falar vai ficar para uma outra vez, em conversa sobre cinema, teatro e ótimos restaurantes.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

ABRE AS ASAS SOBRE NÓS...
Ana Hertz
Outubro de 2009.
Henry Brown, escravo na Virgínia, mesmo não tendo sofrido qualquer violência física, não queria continuar escravo. Dizia que, mesmo sob condições consideradas ótimas, a escravidão era insuportável. Quando sua mulher e filhos foram vendidos para uma fazenda em outra cidade, decidiu que havia chegado a hora. Construiu uma caixa relativamente pequena, com dois furos para que o ar entrasse, trancou-se lá dentro com uma garrafa de água, uns biscoitos e foi “despachado” por trem para a casa dos amigos que tinha na Filadélfia, onde reinava um clima diferenciado de liberdade. Logo que chegou ao destino na tal caixa, virou Henry “Box” Brown, nome com que ficou conhecido para todo o sempre. Do mesmo jeito que, nas nossas terras ao sul do Equador, um famoso apelido também se incorporou ao nome real – Luiz Inácio “Lula” da Silva. Box Brown, então, passou a ser um dos maiores divulgadores das idéias abolicionistas, levando a discussão para o resto do país; isso causou ao pobre homem grandes problemas, como acontece com todos aqueles que se insurgem contra o “status quo”. Para não ser devolvido ao dono, precisou fugir para a Inglaterra, de onde somente conseguiu voltar muitos anos depois para, finalmente, viver o resto da vida como homem livre.
Aprendi sobre Henry Box Brown através dos contadores de histórias da Filadélfia. Das 11 às 5 da tarde, em onze diferentes bancos de praças do Distrito Histórico, eles contam, para os que ali aparecem, diferentes histórias daquele tempo em que o país lutava para ser livre. Fiquei fascinada com o que ouvi desses contadores, alguns atores de teatro, outros professores, todos animadíssimos. Não falam dos figurões, que todos conhecem, e sim das “figurinhas”, daqueles seres humanos até então desconhecidos, mas que se tornaram lendas por seus feitos ou seus ideais de liberdade. Outros que me impressionaram foram os “rangers”, aqueles que orientam os visitantes nos monumentos e principais pontos da cidade. São todos muito bem informados, e não apenas em relação à história americana. Conversei com um deles, a quem perguntei a razão de não haver folhetos explicativos em Português, pois havia encontrado em inúmeras línguas, até em polonês.... Explicou que talvez estivessem esgotados, mas que havia, sim. E começou a conversar sobre as grandes navegações portuguesas, sobre as colônias lusas na África, nossos “pagamentos” em recursos naturais que iam direto para a Inglaterra, e sobre as colônias espanholas mandando a prata do Novo Mundo direto para os banqueiros internacionais... Foi bom saber que há, em outros pontos do mundo, quem saiba um pouco mais sobre o Brasil. Não tem mais tanta gente achando que nossa capital é Buenos Aires e que falamos espanhol.
Outro relato que me chamou atenção foi sobre uma escrava da esposa de George Washington, figura histórica que me surpreendeu negativamente. Tinha escravos! Queria a independência americana, tinha ideais de liberdade, mas não abria mão de sua condição de dono de seres humanos. Enfim, a escrava particular de Martha Washington, Oney Judge, uma noite, enquanto o casal jantava, aproveitou para ir embora e nunca foi recapturada. Ficou famosa por ter ousado fugir da casa do Presidente dos Estados Unidos e afirmou, anos depois, que sempre foi muito bem tratada, mas que não queria ser eternamente propriedade de alguém!. Achei o máximo! Em seu testamento, Washington registrou que todos os 250 escravos da família somente deveriam ser libertados após a morte de sua esposa. Ou seja, enquanto viveram, aproveitaram-se bastante dos pobres coitados.
Um ponto turístico muito famoso da cidade é a Elfreth’s Alley, a mais antiga rua dos Estados Unidos ainda existente, onde residiam artesãos e artífices das mais diversas origens no início do século XVIII. O lugar é lindo, com casas coladinhas umas na outras, de um charme só! Trinta e duas, construídas entre 1702 e 1836, ainda estão muito bem preservadas. Cada uma vale a bagatela de um milhão de dólares, mesmo sendo mínima!Desde o começo de sua história, a comunidade da Filadélfia estabeleceu uma grande liberdade religiosa; não foi à toa que, nessa cidade predominantemente protestante, foi rezada a primeira missa pública da religião católica, isso em 1730. William Penn, seu fundador, havia sido perseguido por ser um quaker e não queria que, em sua colônia, isso acontecesse com quem quer que fosse. Ali conviviam judeus, católicos, quakers, protestantes e outras minorias que se uniram em congregações, algumas delas existindo até hoje, sempre procurando manter uma melhor relação entre as diferentes crenças. Se todos pensassem assim... Para divertir um pouco, vale dar essa nota - vi um padre, devidamente paramentado, deixar o pátio da igreja num belíssimo conversível vermelho! Que inveja! Como diria minha avó, sinal dos tempos.
Na verdade, poderia escrever sobre um milhão de coisas que vi e aprendi nessa viagem à Filadélfia, mas acho que falar no presídio que visitei, assunto que tem a ver com liberdade, e em Benjamin Franklin, esse extraordinário personagem da história americana, já vai ser o suficiente para um longo texto. De 1829 a 1971, quando fechou suas portas, a Eastern State Penitentiary foi assunto bastante controverso. Seu projeto arquitetônico foi copiado por cerca de 300 prisões mundo afora, inclusive aqui no Brasil. A teoria correcional era manter o prisioneiro confinado e trabalhando o tempo todo, afastando-o de ambientes “favoráveis” ao crime. Isolado, poderia arrepender-se e penitenciar-se (daí o novo nome para as prisões – penitenciária). O sistema era tão rígido que usavam máscaras nos prisioneiros para que não se comunicassem nem mesmo com os guardas! Charles Dickens, quando esteve nos Estados Unidos, visitou o complexo e ficou chocado. Considerou o processo adotado de extrema crueldade e baseado em princípios totalmente equivocados. Al Capone esteve encarcerado por lá e outro famoso prisioneiro foi um gato! Como o bichano havia matado o cachorrinho da esposa do Governador, foi “sentenciado” e recebeu um número, como qualquer outro criminoso. Existe uma versão mais aceitável para essa história tão maluca. O Governador pensou em animar os prisioneiros e mandou o animal para que fizesse um pouco de companhia a eles. Como não podia mostrar qualquer sinal de abrandamento nas regras, inventou a história do “gato assassino de cachorros”.
Benjamin Franklin, minha paixão platônica por tantos anos, era escritor, filósofo, cientista, inventor, diplomata, dentre outras tantas coisas. Preocupado com os diversos problemas da comunidade, organizou o primeiro grupo de bombeiros voluntários nas colônias, bem como a primeira companhia de seguros contra incêndios. Inventou o pára-raios, as lentes bifocais e mais uma lista enorme de coisas. Filosofava de maneira bem popular, e com isso tornou-se famoso. Um de seus dizeres que gosto muito diz que a gente deve ficar com os olhos muito bem abertos antes do casamento, mas que, depois da celebração, deve mantê-los meio fechados! Nunca vi conselho mais sábio!
Continuo sem saber do que gostei mais. Foram dias interessantíssimos, de grandes descobertas, de alegria em ver como a liberdade vem conquistando o mundo. Quando ouvia uma história, qualquer que fosse, abstraía-me da nacionalidade, da condição social, da cor e do sexo daquele personagem e absorvia um pouco do eterno desejo de ser livre que o ser humano traz dentro de si desde o início dos tempos.
Por outro lado, se alguém imagina que foi fácil para aquela nova nação libertar-se do jugo inglês, está redondamente enganado. A luta continuou por vários anos. Dos 56 que assinaram a Declaração da Independência americana, muitos foram torturados até a morte como traidores, e outros tantos morreram lutando para preservar os ideais de liberdade. A grande maioria, oriunda de famílias ricas, perdeu toda a fortuna, e não poucos viram suas famílias dispersadas... mas não desistiram. Valia a pena continuar. O Liberty Bell exibe sua fenda, uma ferida exposta, como se o cobre no qual foi forjado soubesse que não poderia ser inteiro porque ainda está longe o tempo em que todos os homens serão livres, donos de seu próprio destino. Ficou mudo, como a nos lembrar do longo caminho a percorrer e do preço, por vezes muito alto, que se paga pela liberdade. Eu dizia, em alto e bom som, que Benjamin Franklin era meu amor platônico. Passados mais de 40 anos, descobri que não era amor platônico coisa nenhuma. Foi bom ter ido até a Filadélfia e poder estar mais “perto” dele, embora com quase 300 anos nos separando. Aprendi muito sobre suas idéias, obras, seu imenso desejo de fazer melhor o mundo em que vivia, saboreando com tranquilidade sua presença tão marcante em toda a história daquele país. Agora, possa afirmar que me sinto mais confortável e que já me libertei. Era apenas uma admiração enorme... Queria era ter sido sua secretária particular, aquela que o ouviria enquanto pensasse alto, aquela que, talvez, passasse a limpo seus rascunhos...
E sobre o amor platônico, cantado por poetas desde o início dos tempos, acabei aprendendo muito. Pelo que descobri, esse é o mais incompreendido conceito de Platão. Todos acham que é apenas o amor assexuado, acético, daquele em que as pessoas não ficam próximas fisicamente. Mas não significa isso, não, trazendo algo muito mais profundo do que essa idéia simplificada. Sendo por demais complexa, sua discussão exigiria tantas laudas que ninguém agüentaria. Assim, vamos fingir que é esse popularmente conhecido e falar um pouco desse amor à “distância”. Eu não faço muita fé nele. A paixão e o amor precisam do encantamento que o outro desperta na gente, mas não apenas através da idéia, não apenas através dos desejos “inspirados”. Precisamos, também, do tato, do cheiro, da presença real do outro, para que seja possível essa troca que nos faz mais humanos. Roberto Freire diz que anda solta por aí a ideologia do sacrifício, e que acabamos acreditando que amar significa perder substancialmente a liberdade. E que o amor platônico, esse sim, aprisiona, pois é incompleto... Eu fico pensando cá com meus botões... a liberdade não é o outro quem tira da gente. Acabamos sendo nossos verdadeiros carcereiros, agrilhoando-nos ao sentimento amoroso mesmo quando não nos é pedido isso. Ficamos presos a uma idéia e não conseguimos nos libertar do que não tem concretude.
E, voltando ao livro “Ame e dê vexame”, Freire afirma que o verdadeiro amor liberta. Diz: ”Porque te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos completar. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários. E eu brinco, dando um palpite para acrescentar – E, sendo desnecessários, seremos livres!
Pensando bem... Será mesmo? Para evitar maiores riscos, melhor orar aos céus, de maneira bem abrangente - Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

LIBERDADE, LIBERDADE...

LIBERDADE, LIBERDADE...
Ana Hertz
Setembro, 2009

Perceber-se curado de um amor platônico, daqueles completamente impossíveis, proporciona uma das melhores sensações de liberdade que alguém pode saborear. E lá fui eu até a Filadélfia para, além de conhecer mais um lugar, tentar livrar-me da paixão dessa espécie que sinto desde os 17 anos. Um tempo longo demais. Benjamin Franklin não deve nunca ter imaginado que ficaria gravado para sempre na minha memória poética.
Como queria vasculhar o passado, sobretudo a segunda metade do século XVIII, escolhi a dedo o hotel. Estar no Historic District da cidade considerada o berço da América desde bem cedo a cada dia foi uma bela idéia. Caminhava seus vários quilômetros quadrados sem sentir qualquer desconforto, embriagada pelo que podia descobrir a cada esquina. Meu joelho e meu pé foram cúmplices maravilhosos, deixando para trás as fraturas sofridas.
Informações históricas e dados precisos não eram meu objetivo maior, pois, sem dúvida, no Google eu poderia obter o que quisesse. Queria mais. Gostaria de poder sentir com mais intensidade esse sentimento que move o ser humano na busca pela liberdade, essa busca que o faz ultrapassar seus próprios limites, arriscando-se a cada passo do caminho, sonhando com aquilo que ele nunca teve... ou havia perdido... e a Filadélfia me oferecia essa oportunidade.
Além de sua arquitetura, seus moradores se orgulham dela por quase tudo, também chamada de cidade do amor fraternal. Uma das mais famosas esculturas que estão la é a que traz a palavra “LOVE” em metal vermelho. Nenhum turista que se preze deixa de posar para uma foto mostrando a obra e eu me incluo na lista. E explicar o nome adotado fica muito fácil - vem do grego Philos, que quer dizer amor, amizade, e adelphos, que significa irmão.
Uma das coisas que mais me encantou foi saber que há uma lei municipal determinando que 1% do orçamento das construções seja aplicado em algum projeto cultural de interesse público. Sonho de consumo de todos aqueles que gostam de arte! Pena que, no Brasil, ainda estejamos precisando de muitos “por centos” para a saúde, educação, saneamento básico... Vai levar um tempo antes que alguma coisa parecida venha favorecer a cultura. E sabemos que a única saída do ser humano passa pela arte.
Com prédios imponentes, a cidade exibe, com orgulho, o resultado de um cuidadoso projeto urbanístico. O primeiro idealizador? William Penn, no final do século XVII. Simplesmente inacreditável o fato de que esse homem tenha se preocupado, no século XVII, com os séculos que viriam depois. Hoje em dia, poucos administradores vão além do dia seguinte... Suas praças foram construídas para separar os diferentes quarteirões, dificultando, assim, a propagação dos incêndios que destruíam, num piscar de olhos, uma cidade inteira, como acabou acontecendo com Chicago duzentos anos depois. A Filadélfia é considerada a melhor representante da história da arquitetura americana, e isso é mais um dos numerosos motivos para que seus habitantes se orgulhem dela.
Como em qualquer grande cidade, porém, sempre aparecem problemas que devem ser resolvidos de forma definitiva. Foi elaborado, em 1984, um projeto sensacional para resolver o problema dos graffitis que, de forma desordenada, poluíam visualmente aquele belo espaço. Seus idealizadores foram brilhantes. Em vez de proibir, pois tem mais sabor tudo aquilo que não nos é permitido, trataram de canalizar a energia criativa dos grafiteiros para a construção de murais. E a organização sem fins lucrativos, que conta com a participação da iniciativa privada, já produziu cerca de dois mil e oitocentos murais. Se mais não fosse, proporcionou a mais de vinte mil jovens carentes a oportunidade de trabalhar com arte! E sempre melhor redirecionar do que proibir. Caetano dizia que é proibido proibir e, nesse caso, provou-se que foi perfeito.
Mudando um pouco de assunto - o que é melhor? A ficção ou a realidade? Bem, a discussão já dura séculos, literalmente. No caso da Filadélfia, acho que o mundo real pode ser bem mais interessante do que a ficção. Pude ver inúmeras esculturas, a maioria belíssima, e por isso é quase impossível apontar apenas uma como preferida. A dificuldade não se prende apenas no aspecto artístico da peça, mas também quem ela está representando.
Posei ao lado da estátua do Benjamim Franklin, que já revelei ser minha paixão há tantos anos, e eternizei o momento tirando um retrato. Uso a palavra “retrato”, antiquada, para dizer o quanto voltei no tempo. No entanto, recusei-me a fazer o mesmo com a de Stallone, ou melhor, de Rocky, um Lutador, ou Rocky Balboa, sei lá. Tirei de longe uma foto, para levar para meu neto Igor, sem deixar que minha imagem fosse capturada ao lado. Acreditem se quiser - fica nos jardins do Museu de Arte da Filadélphia!
O mais grave de tudo isso, porém, reside no fato de que essa estátua já foi “personagem” de vários filmes, um da estatura de “Philadelphia”, com Tom Hanks. Enquanto isso, O Pensador, de Rodin, não deve ter tido tanta sorte. E o que é da maior ironia - o Conselho Diretor do Museu, depois de anos a fio resistindo a que Rocky ficasse em seus jardins, agora aprova que suas réplicas sejam vendidas na sua lojinha! Sempre tem alguma coisa que atrapalha...
Nesse mesmo Museu de Arte, tirei uma foto que, devo confessar, deixa-me emocionada só de pensar. Meu pai estudou na Filadélfia, em 1941, fazendo um curso de especialização em Odontologia. Quando eu decidi ir lá, minha irmã enviou uma foto dele na escadaria que leva à entrada principal do prédio. Atrás, eu via um prédio alto, um cruzamento de avenidas com um chafariz no meio, frondosas árvores... Não pude resistir e postei-me no mesmo lugar, esperando passar alguém a quem pudesse pedir que registrasse aquele momento. Logo, logo passou um japonês com uma câmera daquelas de fazer inveja a Sebastião Salgado e eu, na maior sem-cerimônia, pedi-lhe que fotografasse com minha humilde camerazinha. Imagino que quase teve um infarto ao verificar a qualidade de meu equipamento... mas não se deu por achado e clicou.
Vi as diferenças que o progresso trouxe, mas não houve mudança significativa. O prédio mais alto parece um nanico se comparado às novas construções, as copas das árvores escondem muita coisa... mas o chafariz continua onde sempre esteve. E foi com a mais profunda emoção que pude “estar” naquele belíssimo museu americano com meu pai, a quem perdi há mais de quarenta anos. Os sessenta e oito anos que se passaram desde que ele esteve passeando naquelas galerias não conseguiram atrapalhar nosso passeio. Um momento do passado que se fez presente.
Falei, falei, mas ainda não consegui conversar sobre a liberdade. O drama é que a Filadélfia tem muita coisa interessante para ser comentada, e acho melhor que essa conversa tenha um capítulo de continuação. Um é pouco, dois é bom, mas três seria demais!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

CHICAGO, CHICAGO
Ana Hertz
Maio de 2009


Conhecia Chicago através dos incontáveis filmes que vi sobre a “cidade sem lei”, como ficou conhecida durante a Lei Seca. E de Nova York emendamos, eu e Bianca, direto para lá.
Deve ser o frio que assusta os turistas brasileiros, pois não se ouve muito o Português por aquelas freguesias. Em 1982, chegou a fazer 33 graus negativos. Basta deixar para ir em maio, junho, quando o clima é bem ameno... vale realmente a pena!
Somente perto do século XIX veio o primeiro forasteiro para estabelecer-se na área povoada pelos índios. Jean-Baptiste DuSable, mestiço com pai francês e mãe de origem africana, estabeleceu o primeiro posto comercial na região, tornando-se o “pai de Chicago”. Li que Illinois foi o primeiro estado americano a assinar a abolição da escravatura, honrando, por certo, as origens de Chicago.
A cidade se desenvolveu rapidamente, o que atraía novos moradores o tempo todo, na eterna busca pelo sucesso... até que uma vaca interrompeu o processo. Com um coice, derrubou a lâmpada a óleo que iluminava o celeiro onde estava, e o fogo espalhou-se com uma rapidez e força incontroláveis. E a próspera cidade, em poucas horas, resumia-se a 6 edificações. Todo o resto havia sido destruído, noventa mil pessoas não tinham mais nada, e trezentas estavam mortas.
Na verdade, ninguém sabe se foi a vaca mesmo, ou se foi seu “acusador” quem causou o desastre. Daniel Sullivan era um bêbado conhecido, e foi ele a “testemunha” da estranha história do coice. Como sabemos que não importa o fato, o que vale é a versão, a tal vaquinha teve muito mais do que 15 minutos de glória. Ficou para a história como a causadora do grande incêndio de Chicago em 1871, e seus donos, os “O’Leary”, também tiveram sua fatia da fama.
Honrando um de seus mais famosos apelidos, Chicago, a “Big Shoulders” City, já estava, em 1875, praticamente nova de novo, sem sinais da destruição que sofrera. E em 1893, com todo o orgulho abriu suas portas para uma exposição internacional em homenagem aos 400 anos da chegada de Colombo ao Novo Mundo. Um pedaço de terra pantanosa foi transformada na “White City”, com prédios, estátuas e fontes. Por seis meses, atraiu mais de vinte e sete milhões de visitantes, o que foi um sucesso, já que, na época, a população americana era de cinquenta e poucos milhões.
Chicago teve um grande desenvolvimento também graças à malha ferroviária construída a partir dali. Não sei se o guia exagerou, mas disse que todos os trens que transitam pelos Estados Unidos devem, obrigatoriamente, passar por Chicago. Achei o rapaz meio “bairrista”, mas não consegui conferir a informação.
Outra coisa interessante que descobri - chegam a 64 os agraciados com o Prêmio Nobel que cursaram a Universidade de Chicago. Lembro-me, quando estive na Alemanha, que a Universidade de Humbolt tem 32 laureados. Isso mostra como Chicago está na frente! Tenho certeza de que a maioria de nós não conhece nem um centésimo desses premiados, mas sei que um dos mais famosos moradores de Chicago desperta, até hoje, um estranho fascínio em muita gente. Al Capone é considerado o mais famoso gangster americano de todos os tempos e o grande símbolo da podridão que imperava por ali durante os anos vinte. Por que o ser humano se sente atraído pelo desviante? Os gênios são desconhecidos e ele ganhou a “imortalidade”.
Scarface, como também era conhecido, havia feito tanta confusão em Nova York, onde morava, que seu chefe o mandou para Chicago esperar que as coisas voltassem aos seus lugares. Nova York, sem dúvida, recuperou-se, enquanto Chicago... Como se bem sabe, os prefeitos, policiais, políticos, estavam todos ligados a ele.
Vimos um dos prédios onde manteve, durante anos, seu quartel-general. Imponente, representava perfeitamente a arquitetura dos anos 20, quando Chicago explodiu com construções belíssimas. O que foi produzido naquele período, com inovações estéticas e tecnológicas, ganhou o nome de Escola de Chicago. Com a utilização do aço na estrutura das construções, surgiram os arranha-céus que são, a cada dia, mais altos. Mesmo eu, analfabeta em arquitetura, fiquei simplesmente extasiada com o que vi.
Bianca tinha ouvido falar num restaurante instalado no nonagésimo-quinto andar de uns dos prédios mais altos de Chicago, a John Hancock Tower. E fomos experimentar “The Signature Room on the 95th”. A noite estava clara, sem uma nuvem sequer, e ver as luzes da cidade a perder de vista foi, sem dúvida, fantástico. Adoro ver as coisas de um plano mais elevado, o que não significa complexo de superioridade ou algo parecido. Resume-se à preferência pela possibilidade de ver a paisagem de uma forma mais completa.
Voltando ao restaurante. Comi, pela primeira vez, um peixe chamado halibut, e o prato se chama Roasted Alaskan Halibut . Foi no Google que descobri que é da família do nosso linguado, mas em tamanho gigante. Vive nas águas do Pacífico e pode beirar os duzentos quilos. Não foi uma escolha, pois não tinha a menor idéia no que resultaria meu pedido, mas acertei em cheio. Bianca escolheu um prato com quinoa, mas não foi o jantar de seus sonhos.
Mais um famoso de Chicago - Barack Obama, o primeiro afro-americano a ser eleito presidente. O detalhe é que não nasceu na cidade, e sim no Havaí, mas foi para a “windy city” após concluir o curso em Harvard. Professor de Direito na famosa Universidade, virou “filho de Chicago”, pois foi onde iniciou sua carreira política..
Ficamos maravilhadas com o Millenium Park. Inaugurado em 2004, abriga o mais sofisticado teatro ao ar livre dos Estados Unidos, que realmente impressiona pelo design. E a escultura de forma elíptica que vimos num dos recantos do parque, por sorte inaugurada dias antes, é extraordinária. “The Bean”, do artista inglês Anish Kapoor, foi construído com placas de aço altamente polido, transformando-se em um verdadeiro espelho que reflete o céu, as nuvens, os arranha-céus e os visitantes, que podem tocar a peça, olhar-se, fotografar-se (como fizemos); enfim, uma escultura viva que, a cada centímetro para cima, ou para o lado, a cada minuto, mostra um mundo um pouco diferente. A nuvem passou, veio outra mais branquinha, o homem que olha, admirado, já se vai, dando lugar a criança que brinca com a própria imagem... Como diziam Lulu Santos e Nelson Motta – “...tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo”. Bastante interessante.
Dentre alguns fatos sobre a cidade, achei interessante mencionar que o Chicago River corre para trás! Por motivos de saúde pública, em 1900 foi construído um canal que possibilitou a proeza, e a cidade tem, por certo, um rio sem poluição. O Michigan Lake, muito bonito, é o maior lago do mundo que se localiza num único país. Por outro lado, vale ressaltar - o primeiro restaurante Mcdonald’s foi montado aqui, e poderíamos ter ficado sem isso. A primeira reação nuclear em cadeia foi produzida na Universidade de Chicago. Uma tragédia para a humanidade.
Chicago tem mais de 40 museus, 150 teatros e mais de 600 restaurantes. E foi num deles, Petterino’s, que eu, mesmo não sendo Terezinha de Jesus, de uma queda fui ao chão. O lugar é ótimo, bem no distrito dos teatros, a comida, o vinho e o serviço bem bons... eu recomendo! Mas o chão estava super escorregadio. Resumindo a ópera – dei um mal jeito naquele joelho que quebrei há dois anos, e acabei precisando de joelheira e fisioterapia por 40 dias. Não fiquei presa por causa disso, mas realmente perdi um pouco a mobilidade nos primeiros dez dias. Para minha agradável surpresa, o seguro do restaurante pagou tudo! Nem foi preciso ir atrás deles. No dia seguinte ao tombo, ligaram-me da Seguradora e ficou tudo resolvido. Minhas despesas com RX, joelheira e taxi foram reembolsadas através de um cheque, e o fisioterapeuta recebeu diretamente o pagamento pelas sessões. Inacreditável!
Não teríamos gostado tanto de Chicago se não tivéssemos Renato Gomes como anfitrião. Renato, filho de Ângela Dias, amiga querida, é um jovem economista de extensa cultura e profundo bom gosto. Falta pouco para concluir seu doutorado, e sabe bem onde ir para aproveitar melhor a cidade.
Levou-nos ao Demera, na 4801 N Broadway Street, um fantástico restaurante etíope. Nunca tida me aventurado por essa cozinha e, simplesmente, adorei. Para comer o “combinado” que ele sugeriu, com muitos vegetais e carne, conhecendo vários pratos diferentes ao mesmo tempo, não usamos talheres, e sim a “injera”, um pão bem fino, circular, tradicional para acompanhar a comida. Uma festa de Babbete! Depois, foi só atravessar a rua para aterrissar na melhor opção para ouvir jazz. Recomendo os dois lugares.
Green Mill é um jazz club tradicional, sofisticado ao mesmo tempo que informal, atmosfera dos anos quarenta, e que preserva o cuidado com a melhor música. Capone era frequentador assíduo e sentava-se na mesa central, de onde podia observar as portas da frente e de trás. Em caso de emergência, corria para o balcão das bebidas, onde havia a entrada do túnel secreto que o levaria para fora da zona de perigo. Esperto o rapaz.
E foi capengando que deixei Chicago, apelidada de “windy city” porque o vento marca presença. E, nos corredores do aeroporto, vi que se candidatou a sediar as Olimpíadas em 2016. Vai disputar com Tókio, Madri e Rio de Janeiro. Pelo que ouvi dizer, a mais cotada é Tókio, depois vem Madri, mais abaixo está Chicago e, lanterninha do grupo, a nossa cidade maravilhosa. Enfim, gosto é gosto, ninguém discute. Apenas lamenta. E todas elas são bastante interessantes. Como não conheço Tókio, de repente tenho uma bela razão para ir até lá.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

NEW YORK, NEW YORK, I AM LEAVING TODAY

NEW YORK, NEW YORK, I AM LEAVING TODAY!
Ana Hertz
Maio de 2009


Visitei Nova York muitas vezes e espero voltar ainda outras tantas. É, sem dúvida, interessantíssima. Não é possível comparar com Paris, Londres, Roma, Rio de Janeiro ou qualquer outra cidade, grande ou pequena, famosa ou não, pois cada lugar tem milhões de coisas que nenhum outro tem. Não se excluem, e o melhor é conhecer tudo!
Em qualquer festa, ao se ouvir o primeiro acorde de “New York, New York”, canção imortalizada por Sinatra e lindamente interpretada por Lisa Minelli, todo mundo sai dançando. São três ou quatro notas inconfundíveis, e devo dizer que, mal ouço, também vou logo para o meio do salão. O fascínio pela música equipara-se ao que quase todo mundo sente pela cidade. Na letra, temos que Nova York nunca dorme. Fiquei, agora, em um hotel bem em Times Square e é isso mesmo. Já quase de manhã e ainda se vê gente com cara de que vai emendar. Ouvem-se um sem número de línguas, os traços raciais são os mais variados, alguns parecem saídos de outra fauna; enfim, a diversidade impera, mas não menos que o entusiasmo.
Em viagens de férias, ficou ainda mais distante da televisão. Tenho muito mais o que fazer. Uma vez por dia, entretanto, gosto de dar uma olhada nas notícias, para não ficar completamente alienada. Numa dessas vezes, vi na CNN Headlines que astronautas americanos estavam fazendo reparos no telescópio espacial Hubble, e era possível acompanhar ao vivo os procedimentos. Fascinante ver quanto o homem conseguiu evoluir, desde Eratóstenes, aquele grego que já sabia que a Terra era redonda e que tinha uma circunferência de cerca de 40.000 quilômetros mais de duzentos anos antes de Cristo. Errou apenas por 500 quilômetros! Quando penso nisso, tenho certeza de que meu Q.I equipara-se ao de uma ameba burra.
Voltando ao telescópio, parece que estava novamente precisando de uma “cirurgia para corrigir a miopia”. E os cientistas deram conta disso. Encantada, via o astronauta dando voltas no espaço, com uma coragem que eu jamais teria, quando o noticiário “aterrissou” em Ohio, numa reunião que parecia o conselho de uma das cidades daquele estado americano... Os conselheiros discutiam se uma jovem, loura e bonita, poderia continuar na frente de uma churrascaria, atraindo a clientela apenas com um biquíni, sendo que, na parte de baixo, ela usava um shortinho jeans. Preciso esclarecer – a “jovem” era simplesmente um manequim de plástico, tamanho natural.
Sei que, hoje em dia, muitos seios que andam passeando por aí também não são verdadeiros, são de silicone, e nem por isso podem ficar muito “à vontade”. Mas preocupar-se com os peitinhos semi-escondidos de um manequim de plástico e, por causa disso, ser convocada uma reunião do conselho da cidade, enquanto o mundo explode com uma crise econômica sem precedentes, e o homem caminha no espaço sideral é, por certo, inconcebível. Mas estava lá, num dos principais canais de televisão, para todo mundo ver. E os responsáveis pelo destino daquela cidade situada num dos principais pólos industriais do país, ciosos de sua responsabilidade em preservar a moral e os bons costumes, votaram pela exigência de que a “mocinha” se vestisse dentro dos conformes, usando, no lugar do biquíni, uma camiseta. E não se fala mais nisso.
Como o tempo estava maravilhoso, e para esquecer o biquíni, fui com minha amiga Bianca passear no Central Park. A natureza naqueles mais de 800 acres, em plena primavera, mostrava-se muito bonita, sobretudo porque jamais comparo o que vejo pelo mundo afora com o que temos no Brasil, ou em outro lugar. Delicio-me com o que está ali sem estabelecer qualquer relação. Ele fica ali porque o terreno pantanoso e cheio de formações rochosas era completamente impróprio para projetos privados, e construir arranha-céus naquela área seria complicadíssimo e muito caro. Virou o primeiro parque público americano. Uma boa troca.
Sentamos num banco e ficamos observando os passantes, absorvendo aqueles momentos relaxantes. Passou por nós, então, um senhor bastante idoso, numa cadeira de rodas empurrada por uma cuidadora. O homem ia de cabeça baixa e olhava a própria mão. Seu olhar, parado como se sem vida estivesse, parecia que tinha ficado preso no passado... ou, quem sabe, mostrava-se vazio porque sofria com a ausência de futuro. A cena tocou-nos de forma indelével. Ainda pensativas, vimos sentar-se no banco ao lado um homem ainda jovem, que devia andar lá pelos quarenta. Sua tristeza transbordava pelos olhos que fixavam o nada, quem sabe pensando no emprego que acabara de perder, ou a crise que o derrotava naquele momento era apenas sua, de mais ninguém. Agarrava-se ao filho pequeno que tinha ao colo como se temesse perdê-lo, como se aquela fosse a última vez que poderia tê-lo nos braços. Foram momentos que nos trouxeram de volta à terra.
Porém, a Ilha da Fantasia, como chamo todo e qualquer destino que escolho para passar alguns dias de férias, voltou a impor-se como um ditador que comanda um exército invencível. Desviamos o pensamento daqueles dois homens e fomos ver STOMP. Simplesmente, notável. Apresentando-se em teatros, na verdade não pode ser classificado como uma peça, um musical ou uma ópera. Por isso, alguns se recusam até mesmo a considerar o show como teatro, alegando que não apresenta as características tradicionais dessa arte. Não há enredo, diálogos, ou falas. Por outro lado, tem mímica e caracterização. Cada personagem apresenta uma personalidade diferente, que se revela, escandaradamente, pela mímica e pela dança. Por isso, devemos considerá-lo, sim, teatro.
Barulho, tira-se de qualquer coisa. Música, não. Até, agora, eu pensava assim e tinha certeza de que, para executar melodias, precisamos dos instrumentos musicais adequados. Estava completamente enganada e, por isso, STOMP é surpreendente. Aquele grupo tira música de vassouras que, aparentemente, estão apenas varrendo o chão, e pessoas lendo o jornal nos fazem querer dançar. E quando brincam em abrir e fechar isqueiros? Quem ainda não viu, não sabe o que está perdendo.
Adorei passear no SOHO, o famoso cast-iron historic distric, e fiquei me lembrando de que o aluguel já foi super acessível, tanto que muitos artistas se mudaram para lá por causa disso. Hoje, impossível para eles. Quem está lá agora? Griffes como Armani, Prada, Mark Jacobs... um luxo de lojas, num contraste fortíssimo com algumas edificações ainda não recuperadas e que denunciam a decadência que se viu anos atrás. Aproveitamos para almoçar no conhecido Fanelli’s Café, que é uma delícia com seu ambiente acolhedor, do século XIX, com fotos nas paredes de várias gerações de boxeadores americanos, que faziam dali um ponto de encontro. No bar, por certo, só homens... mulheres eram permitidas apenas no salão cuja placa ainda se vê: Ladies and Gents Room.
Esperto o holandês que comprou a ilha dos índios, no início do século XVII, pelo que hoje seriam cerca de sessenta e cinco dólares. Bem, assim contam alguns. E nasceu a Nova Amsterdam. O italiano que primeiro pisou nessas terras, em 1524, não teve a mesma idéia, provavelmente porque não podia imaginar no que se tornaria. A bem da verdade, os holandeses aproveitaram muito pouco. Logo, logo, os ingleses vieram e a ilha virou Nova York, isso em 1664. Martin Scorcese contou maravilhosamente a saga dessa cidade no século dezenove, em seu filme “Gangues de Nova York”.
Apesar de todos os passeios, essa cidade também me entristece, por causa do 11 de setembro. Fui ao Ground Zero e fiquei me perguntando - como a gente se esquece, com tanta freqüência, de nossa humanidade? Ver aquele evento recontado me fez pensar na história do homem, com suas guerras, atos de intolerância, de desrespeito, descaso, invasões, pequenos assassinatos a cada dia em cada canto do mundo, provas da mais completa insanidade. Quando apresentamos uma “desculpa” para um ato desses, com base em “culpas” anteriores dos terceiros atingidos, perdemos a razão. Ficamos iguais aos que acusamos. Pura perda de tempo tentar me convencer do contrário.
Nessa visita a Nova York, comemorei mais um aniversário, na companhia de Bianca, que veio da Itália para a data, e Aloísio D’Aguiar, um excelente músico brasileiro que mora aqui há 30 anos, irmão de minha amiga Rosa e que se apresenta, atualmente, também no Via Brasil, na 46. Fomos jantar no Serafina, ali na Broadway, que faz parte de uma cadeia de restaurantes italianos bastante conhecida. Servem pratos bem gostosos, apresentam uma carta com bons vinhos, os garçons são super atenciosos... e têm uma sobremesa maravilhosa! Dividimos, os três, um petit gateau daqueles! Saímos felizes de lá. Não tem erro. Caso estejam por aquelas bandas, podem ir sem qualquer susto gastro-econômico.
Tenho evitado museus muito grandes. Tornam-se cansativos e, depois de algum tempo, por causa do excesso de informação, você já não está vendo mais nada direito. Como já visitei o Louvre, o Metropolitan e o British Museum mais de uma vez cada um, agora procuro os menores, tendo algumas boas surpresas. Geralmente, são em casas belíssimas, por si só verdadeiras obras de arte, transformadas em museus quando seus proprietários morrem e assim o determinam. A Frick Collection é uma delas. Fica na 70th. Street e tem peças incríveis. Vermeer, Turner, Degas, eles estão todos presentes, em pequenas gotas como devemos usar os melhores perfumes.
No Guggenheim, apenas visitamos a lojinha do museu, ainda em reforma para a comemoração de seus cinquenta anos. E nova visita ao MoMA também ficou para uma próxima vez. Foram apenas 4 dias que passaram sem a gente sentir. Só não saí com muita pena, porque embarquei para Chicago, em nova aventura. E sei, também, que vou voltar um dia, para rever Nova York, com todas as suas dores e com seus grandes amores.

sábado, 2 de maio de 2009

A ILHA DO PADRE

A ILHA DO PADRE
Ana Hertz
Maio 2009.

O pior é que não só a ilha é do Padre. Todo o resto também! A padaria, a escola, a lanchonete... Brincadeiras à parte, Padre Island fica junto a Corpus Christie, mais ou menos a 4 horas de Houston, para o sul. É uma pequena cidade aqui no Texas, cuja população beira os quatro mil e quinhentos habitantes. A ilha, South Padre Island, faz parte de uma formação de ilhas que constituem uma barreira natural ao longo da costa do Golfo do México. Ouvi falar dela, pela primeira vez, quando o furacão Dolly, ano passado, estava em plena atividade. Os dois últimos fenômenos naturais que atingiram Padre Island, em 1967 e em 2008, fizeram grandes estragos por aqui.

Ao chegar, fui direto conhecer Padre Island National Seashore, reserva protegida com unhas e dentes pelo governo federal americano. São mais de 100 kilômetros de praias e dunas, vegetação nativa, fauna especial, sendo que essa barreira de ilhas representa uma importante fonte de óleo e gás natural, em razão de suas rochas de origem orgânica que datam, segundo os estudiosos, da Era Terceária. As praias não são bonitas como as nossas, como era de se imaginar, mas ficam cheias de turistas, mesmo com o mar encapelado. As dunas são parecidas com as do Nordeste, mas tampouco conseguem superar as nossas. Nessas horas, penso em como a Natureza foi pródiga quando arquitetou a costa brasileira...

Não tive oportunidade de ver a desova das tartarugas que fazem seus ninhos na região, inclusive na área da reserva, sempre entre abril e junho. Fiquei com pena, mas morri de medo de aventurar-me pelas praias com meu carro, que não tem tração 4x4. O programa de proteção e acompanhamento conta com a ajuda de voluntários e de muitos turistas, que ajudam os agentes informando quando localizam ninhos. Os ovos encontrados são transportados para o laboratório e postos na incubadora, para serem cuidados e monitarados. Um dia ou dois depois de nascidas, as tartaruguinhas são devolvidas ao mar, muitas já carregando transmissores que enviam informações durante cerca de um ano para os pesquisadores em terra. Parece que é igual ao nosso projeto TAMAR.

Em Padre Island, praticam-se inúmeros esportes ligados ao mar, mas, além da pesca, windsurfing e do surf, também se vêem turistas passeando a cavalo nas praias. Em feriados de primavera e verão, a cidade fica lotada. Parece Cabo Frio, ou Arraial do Cabo, com tanta gente.

Sobre Corpus Christi, uma cidade bem maior, com mais de duzentos e setenta mil habitantes, vale dizer que tem dois museus bastante interessantes, para compensar a cidade, que não é das mais bonitas. Os primeiros a colocarem os pés na região foram os espanhóis, em 1519, justamente no dia em que era celebrada, pelos católicos, a presença de Cristo na Eucaristia. Por isso, anos depois, a cidade que ali nasceu, já no século XIX, recebeu esse nome.

Num dos museus que visitei, o de História e Ciência, acabei recordando muito coisa que aprendi nos anos escolares, e das quais já não me lembrava mais. Carlos V, imperador que reuniu, sob seu cetro, quatro casas reais, foi um dos principais personagens do século XVI na Europa. Era filho de Joana, a Louca. A gente teve a nossa louca oficial, a Maria. Por que também eles não teriam a deles? Carlos nasceu em Gand, na Holanda, por sinal uma cidade que visitei ano passado e que achei lindíssima! Além de governar os Países Baixos, ainda era rei da Espanha, da Alemanha, da Sicilia, de Nápoles e das colônias da América. Acabou sendo sagrado Imperador desse vasto império.

Os navios voltavam para a Europa abarrotados, sobretudo de prata, metal do qual a Espanha dependia para cunhar suas moedas. Uma nota interessante – no museu, um cartaz dizia que o século XVI foi testemunha da primeira grande inflação da História, pois a Espanha inundou o velho mundo com suas moedas, e o custo de vida, naquele século, aumentou 400%. Se comparados com os 81% em março de 1990 no Brasil, é até pouco para 100 anos. Ou se pensarmos na Alemanha, entre 1919 e 1923, quando os índices chegaram a um trilhão por cento.

Voltando à história - cada vez que um navio afundava, o imperador entrava em depressão. A região, favorável à formação de furacões e tempestades fortíssimas, foi palco de um sem número de naufrágios. Em 1554, aconteceu o maior desastre. Como nos outros desastres anteriores, foi organizada uma expedição de resgate, que também disputou a carga com os eternos caçadores de tesouro. Muitas vezes, conseguiam recuperar metade do que havia se perdido. O saldo negativo desse trabalho é que não havia a menor preocupação em resgatar documentos, que não interessavam a eles, como também objetos que, por não apresentarem grande valor de mercado, eram deixados de lado e perdidos para sempre e, junto, parte da história daquele tempo.

Foi nesse período, também, que foram perpetradas grandes fraudes com relação aos seguros. Os proprietários dos navios seguravam, além das embarcações, tudo que era embarcado, mesmo que pertencesse aos passageiros. Na hora do sinistro, os comandantes entravam no bote salva-vidas, deixando os passageiros e o resto da tripulação para trás e, depois, reivindicavam o seguro. Nesse museu, pude ver um interessantíssimo histórico sobre os naufrágios e os desdobramentos. Fascinante, sem dúvida.

Carlos V reinou durante 42 anos e fez um verdadeiro estrago nas finanças do império. Simplesmente, gastava, por ano, cerca de 5 vezes o que conseguia extrair das colônias no Novo Mundo. Estava sempre em guerras e exagerava no luxo com que mantinha a corte. Com a descoberta da América, os espanhóis acharam que tinha encontrado o pote de ouro na ponta do arco- íris. Poderia ter sido, mas... Chegou a declarar, por 3 vezes a falência de seu governo. O coitado do filho herdou o trono devendo, segundo o que vi, cento e cinqüenta vezes o que havia sido retirado das colônias. Ou seja, foi um império com formidável extensão de terras e recursos minerais, mas permaneceu pobre, porque a fortuna escorreu por suas mãos como água, indo, grande parte dela, para os banqueiros estrangeiros a quem pedia dinheiro emprestado, pagando altas taxas de juros. Olhem eles aí! Desde sempre. A história parece conhecida?

Revi, também, a trágica derrocada do império asteca, durante o governo de Montezuma II. Com menos de 1000 homens e uns poucos cavalos, Cortez destruiu um grande império, constituído, na época, de quase 500 cidades e uma população de cerca de dez milhões de índios. Isso, em dois anos, de 1519 a 1521!

Colombo, ao pisar nessas terras, uniu o velho ao novo, transformando o planeta num único mundo. Começou, naquele momento, a globalização. Vieram uns tantos da Europa, outros tantos da África, esses contra a vontade, sabemos, e essa terra tornou-se o que é com toda a diversidade cultural que a compõe. Foi pago um preço alto, sem dúvida. De 1492 a 1900, noventa por cento da população nativa desapareceu, como sempre acontece quando se descobre uma nova terra. O dominador e o dominado. A velha e trágica história.

O descobridor acabou descobrindo muito mais do que apenas aquele extensão de terra. Conheceu o milho e a batata, já cultivados neste lado de ca há mais de sete mil anos! Em troca do cavalo que nos mandou, que não havia por aqui, a Europa foi apresentada ao cacau... daí para o chocolate foi praticamente um pulo. Impossível imaginar-se um mundo sem um delicioso chocolate. Nossos colonizadores trouxeram os cavalos, pela primeira vez, em 1534, para a capitania de São Vicente.

O guia do museu, talvez para nos fazer relaxar, depois de tanta informação, principalmente sobre o que foi feito com os nativos, brindou-nos com uma comparação divertidíssima entre o homem e a mulher. O primeiro é como waffle, cheio de compartimentos. A segunda, comparou-a à panqueca, lisinha. Ou seja, caso algo aconteça ao homem, ele “compartimentaliza” a situação. Uma situação desagradável “espalha-se” na superfície feminina por inteiro, na maior rapidez. Por isso, o casal briga, briga, e o homem ainda pensa em sexo. A mulher, furiosa, nem quer saber.

Havia esquecido de explicar que o nome da ilha foi dado em homenagem a um padre católico, Jose Nicolas Balli, que herdou o território que Carlos III, rei de Espanha, havia dado a seu avô. Decidiu se estabelecer por lá, no século XIX, levando parte da família. Foi ele quem construiu a primeira igreja, iniciou a criação de gado, enfim, com isso tudo, o lugar começou a florescer. Merecida a homenagem. Por isso, encontramos a loja do Padre, a cafeteria do Padre, a whiskeria do Padre. E, como não poderia faltar... tem ainda o motel do Padre! É a ilha do Padre, sem a menor dúvida. Nas terras brasileiras, temos o Maranhão que, embora oficialmente tenha esse nome, deveria ser chamado de Terra do Sarney. Uma ilha era pouco para ele, preferiu o estado inteiro.