quinta-feira, 17 de março de 2011

“MENINO, SE FIZER ARTE, VAI FICAR DE CASTIGO”


Todos nós, mais antigos, ou ouvimos ou dissemos isso milhares de vezes. Em nosso vocabulário, o primeiro conceito que apreendemos é o de que FAZER ARTE é fazer besteira, praticar alguma traquinagem. Ou seja, em Português, começa tudo errado. No dicionário, arteiro é aquele que faz “arte”, é quem revela arte em astúcia, velhacaria... Triste começo no aprendizado de conceitos.
Em Inglês, a palavra mais usada para travessura, brincadeira de mau gosto é mischief, sem relacionar-se com a palavra que significava, no sânscrito, capacidade de dominar a matéria, moldar, ajustar, enfim, uma atividade transformadora realizada pelo homem. No latim, ARS tinha a ver com técnica, habilidade adquirida em exercício paciente e voltado para um fim definido, fosse estético, ético ou utilitário.
No idioma francês, também não vi nenhuma ligação; praticar uma travessura é “faire de siennes”. Arte é uma coisa bem vista, prazerosa, como se vê da expressão “faire quelque chose pour l’amour de l’art. Isso quer dizer que fazer uma coisa com prazer pode ser verbalizada com a palavra “arte”. Rosa foi fundamental nessa conversa sobre a palavra em francês e, direto de Paris, deu-me todas as dicas, Aprendi muito. Foi tão gentil que, para mostrar como se diz algo do tipo “como manda o figurino”, usou,como exemplo a frase: - Ana nos recebeu para jantar “dans les règles de l’art”.
O uso da palavra que mais gostei foi na expressão “l’enfance de l’art”. Refere-se a uma coisa elementar, fácil, algo como se a dizer “é uma brincadeira de criança”. Seria o lúdico que não deveríamos perder quando queremos nos expressar artisticamente, ou essa liberdade tão necessária à criação que a infância tem em abundância? Quem sabe quer lembrar a magia inerente à arte e que povoa o mundo infantil de forma tão intensa?
Adorei o ensaio com que Frederico Morais abre seu livro “A Arte é o que eu e você chamamos de Arte”. Sabemos que ela é um mistério, e por isso tantos falam nela... Não se conseguiu, porém, uma definição que possa traduzi-la por inteiro. Nem pensar em unanimidade, que é burra, como acertadamente dizia Nelson Rodrigues, quando se trata de avaliar uma obra como “boa” arte ou arte “ruim”.
Eu concordo com Marcel Duchamps – “A arte pode ser ruim, boa ou indiferente, mas qualquer que seja o adjetivo empregado,temos que chamá-la de arte. A arte ruim é arte, do mesmo modo que uma emoção ruim é uma emoção.” Posso, então, ficar mais animada e continuar com meus escritos, e até mesmo mostrar ao mundo as instalações que imaginei e que Emidio tão artisticamente tornou reais, através do milagre que Derain afirmava ser necessário, já que, para a Arte, não bastam as idéias,
Oscar Wilde, de quem sou fã, considerava os artistas mentirosos profissionais, e que jamais podemos acreditar no que dizem. Precisamos, sim, olhar sua arte para sabê-los. E Picasso tinha certeza de que a Arte não é a Verdade, mas a mentira que nos ajuda a compreendê-la ... pelo menos, aquela que somos capazes de entender. E Nietzsche encerrou o assunto dizendo que temos a Arte para não morrer da Verdade.
Na mesma linha, Umberto Eco, sempre brilhante, ensinou que toda obra de arte, mesmo enquanto pronta, é “aberta”, pois será interpretada das mais diferentes maneiras, embora não corra o risco de ver alterada sua irredutível singularidade. Veremos, então, a tal verdade a que Picasso se referiu?
Amédée Ozenfant, pintor cubista francês, afirmou que “A arte demonstra que o ordinário é extraordinário”. E é essa a alquimia do artista, transformando metais inferiores no mais puro metal Em crônica sobre a Beleza, comentei que Chico Buarque usava as mais simples e cotidianas palavras de nossa língua para dizer, em suas maravilhosas músicas, que alguém morreu na contramão atrapalhando o tráfego, para falar do feijão que ela faz todo dia sempre igual, da gente humilde com cadeiras na calçada... É, sem dúvida, um dos nossos maiores alquimistas.
Pergunta importante: onde deve estar a Arte? Lebel afirmou que deveria, literalmente, descer à rua, sair do zôo cultural, concordando com Vlaminck, que tinha horror ao odor e à monotonia dos museus, Camnitezer respondeu com veemência – “O fato de estar na rua não faz a obra mais democrática, ao contrário, pode aumentar o caráter autoritário de seu discursos”. E como fico eu no meio desse tiroteio? Já não sei se viro uma grafiteira marginal, se me tranco na Academia Brasileira de Letrinhas...
Fico profundamente feliz com os emails que recebo de meus fiéis leitores que, com o maior carinho, fazem com que eu continue com vontade de escrever. Comentam o tema que abordei, contam casos parecidos, elogiam, enfim, respondem ao estímulo que pretendo passar com meus textos. Toda obra de arte é feita duas vezes, uma pelo artista, quando a cria, e outra pelo espectador, quando a observa e absorve, transformando, dentro dele, as sensações despertadas.
Goethe, outro dos meus ídolos, acreditava que existem três tipos de leitores: o primeiro goza sem julgar; o segundo julga sem gozar, e o terceiro julga gozando ou goza julgando e é justamente esse quem recria a arte. Só não quero um tipo que julgue “me” gozando.
Salvador Dali, para mim, fez as duas “artes” – traquinagem e arte no sentido que o mundo dá à palavra. Pelo menos, era muito arteiro e levado quando abria a boca. Chegou a dizer que, quando pintava, fazia ouro, pois cada quadro dele produzia um polpudo cheque que era logo convertido no metal nobre. Dizia, ainda, que seu exibicionismo mascarava sua verdadeira personalidade – ao atrair olhares, com seu dandismo provocante, fugia desses mesmos olhares, mostrando-se exatamente como não seria.
Ben Vautier adora polemizar, com suas pinturas-textos e instalações. Atira frases do tipo “A arte é inútil”, “Tudo é arte. Nada é arte”. Pois é... tudo e nada. Nem os gênios conseguem traduzi-la? Não faz mal. A Arte não precisa ser dita. Precisa ser sentida.
Depois dessas elucubrações todas, minhas e de tantos outros, decidi seguir o conselho de Sócrates, que dizia que a Arte é longa e a Vida é curta. Vou deixar viver, com muita liberdade e para o sempre que for possível, a menina levada que existe aqui dentro, que quer ”pintar o bordar” de todos os jeitos que a vida permitir. E vou adorar ouvir que ficarei de castigo se insistir em fazer arte.

domingo, 13 de março de 2011

AH! A COR DE SEUS OLHOS!!!


Nunca disseram isso para mim... também, pudera!. Com olhos da cor de burro quando foge, o que poderia esperar? Por sorte, chegaram a dizer que a luz deles era especial. Um consolo por não ter olhos cor violeta como Liz Taylor. Nem a cor dos olhos, nem a beleza da pele, do rosto, dos dentes... Todos conhecem bem aquela definição para pessoas não tão dotadas em termos de beleza - tão simpática! Tampouco nasci com os olhos cor de mel da Rapunzel. Bem, essa história de cores rende boas conversas!
Minha guerra colorida começou há dez anos, quando comprei o apartamento e quis pintar uma parede de vermelho/vinho. Toda feliz, encontrei o tom perfeito em uma tabela de cores dessas que as indústrias disponibilizam; pedi ao César, excelente profissional da pintura, que desse a primeira mão para testarmos. Tive um ataque de riso quando o vinho que esperava apresentou-se, acreditem, cor de abóbora! Lembrava um bordel de beira de estrada! Juro que nunca entrei em estabelecimento congênere, mas vi em filmes mexicanos. Pedi que suspendesse a pintura que ele tampouco havia gostado, pois tinha achado uma cor muito “sensual”. Isso confirmou minha sensação de que bem poderia fingir estar numa casa de tolerância em plena Lagoa Rodrigo de Freitas.
Virei Ana Palmeirão, “prima” da Rosa Palmeirão, vivida por Luiza Thomé na novela da Globo exibida na época, “Porto dos Milagres”. Ela tinha um “centro de lazer noturno”, e as paredes, por certo, deveriam ser da cor que encontrei nas minhas. Como meu anjo da guarda não dorme em serviço, consegui realizar, dias depois, meu sonho de consumo com o vermelho/vinho da marca International, tintas que, infelizmente, não são mais fabricadas.
Agora, precisei de nova pintura na casa, e o drama recomeçou. Olhei vários mostruários e escolhi as duas cores que mais gostei, bem próximas às originais, uma para a tal parede escandalosa e outra para o resto da casa. Podem acreditar: nenhuma das duas funcionou. Essa tecnologia moderna, para mim, não serve. A máquina/computador mistura a cor e pronto! Tudo errado! E uma delas me faz parecer ridícula... em vez do salmão claro escolhido, ficou tudo simplesmente cor-de-rosa! Voltei à primeira juventude... pink na casa toda! Decidi abandonar a luta e deixar assim mesmo... provavelmente, minhas netas caçulas vão adorar! Daqui a dez anos, quem sabe eu consigo o que desejo?
Curiosa, fui ler sobre as cores. Diverti-me horrores “aprendendo” que cor é a percepção visual provocada pela ação de um feixe de fotos sobre células especializadas da retina, que transmite impressões para o sistema nervoso, através de informação já processada no nervo ótimo. Para complicar mais, descobri que a cor de um objeto é comandada pelas médias de frequência dos pacotes de onda que as moléculas que o constituem reflete. A coisa terá, então, uma determinada cor quando não absorver, justamente, os raios correspondentes à frequência daquela cor que exibe. Poucas vezes me senti com o Q.I tão parecido com o de uma ameba burra! Será, então, que o alimento não terá gosto de maionese se absorver a “freqüência” da maionese? Para lembrar tal gosto, precisa absorver outros sabores e rejeitar justamente o que deseja ter? Melhor nem tentar entender.
As cores também são “traduzidas”, e culturas distintas vão atribuir significados diferentes para cada cor. O vermelho, por exemplo, foi muito usado pelos romanos, pelos nazistas e pelos comunistas. Hoje em dia, todo fast-food que se preze apela para a cor do sangue, que provoca sempre uma reação nas pessoas. Pode ser, dependendo do olhar, um sinal de paixão, de energia, de amor, de alegria... mas também de perigo, raiva, fogo, revolução... Como sempre, o que vale é a versão, e eu fico com a primeira.
Enquanto isso, o branco lembra a paz, o verde, a natureza; o azul nos leva a pensar em harmonia, o preto, em sofisticação (nosso pretinho básico), mas também em luto... E por aí vai.
Uma das coisas mais bonitas que vi sobre o tema foi o livro Flicts, do nosso brilhante Ziraldo. Nele, temos as cores que todos amam e uma menos querida. Como acontece com as pessoas... Quem não leu, perdeu; mas ainda dá tempo! Compre para um filho, ou neto, afilhado ou sobrinho. Ou para você mesmo,sem precisar disfarçar!
Nas flores, a natureza explode em cores inimagináveis. Nas borboletas, também. Mesmo quando a flor é branca, sua beleza não tem medida. Quem nunca se imaginou dando uma grande festa num salão inteiramente decorado com flores brancas? E um buquê de noiva de rosas vermelho-sangue? E as maravilhosas orquídeas que os jovens costumavam oferecer às moças que os acompanhariam aos bailes? Flores nos fazem sonhar...
O homem, desde que começou a se entender por gente, quis reproduzir o mundo que via e também o que imaginava. E sempre em cores! As pinturas nas cavernas de Lascaux, na França, datam, segundo especialistas, de mais de 17 mil anos. Só conseguiam usar o marrom, o vermelho e o amarelo, pigmentos de origem mineral, mas o resultado final é extraordinário. Pensava que o vermelho sempre era obtido com o sangue de animais... lá, em Lascaux, essa cor vinha das hematitas, tão comuns aqui em nossas Minas Gerais. Na Grécia antiga, o preto, o branco, o vermelho e o amarelo eram as cores usadas pelos artistas. Se pudessem entrar numa máquina do tempo e visitar uma loja do tipo da Pearl, em Nova York, não iam acreditar na infinidade de tons que estão, agora, à disposição dos pintores.
As cores são a matéria fundamental da pintura, e os artistas fazem milagres. “Pintam e bordam”, dão forma, conseguem nos enganar aliando-as a truques de perspectiva; enfim, conseguem provocar sensações das mais diversas em todos nós. As cores dos trópicos em Gauguin, torturadas em Van Gogh, suaves em Fragonard, um dos grandes do Rococó, enfim, infinitas as nuances que esses mestres conseguiram mostrar em suas telas.
E como falei em telas, pintores e cores, vou encerrar xom a música Aquarela de Toquinho, quando diz que “nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá, o fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar. Vamos todos numa linda passarela de uma aquarela que, um dia, enfim, descolorirá”. Enquanto não descolorir, quero a minha parede vermelho/vinho de novo, e pretendo me acostumar com as outras que ficaram rosadas; na verdade, mesmo que seja com olhos da cor mais sem graça do mundo, a de burro quando foge, quero ver todas as cores do mundo!

segunda-feira, 7 de março de 2011

AINDA OS BANCOS

Parece mentira, mas não tem uma vez que as coisas transcorram tranquilamente... Ontem, deixei a bolsa e a pasta 007 na costureira, decidida a não me aborrecer mais uma vez, e fui ao banco pagar o IPVA apenas com a carteira na mão (o que é um perigo no Centro do Rio) e o celular escondido no soutien.
Uma segunda-feira... a fila era enorme, mesmo a de velhinhos. Enquanto conversava com mais três seniors, tive a sensação de que não saíamos do lugar. Ao perceber que a pessoa na boca do caixa era uma jovem de cerca de 20 anos, perguntei à funcionária a razão daquilo numa fila preferencial - ela não estava grávida, não era deficiente física, nem levava um bebê no colo. A própria mocinha virou-se e, na maior cara de pau, disse que havia pedido ao vovô que ia ser atendido que a deixasse passar na frente, pois ela estava com muita pressa. É claro que o velhinho, sentindo-se um galã, cedeu-lhe a vez.
Todos já imaginam que não consegui ficar calada. Perguntei à moça se ela não tinha vergonha do que tinha feito e, sem esperar a resposta, disse ao vovô seduzido que, caso realmente quisesse fazer charme para a mocinha, teria que ter saído da fila e ido lá para o final, jamais encaixando alguém à frente. Disse-lhe que a alternativa seria perguntar se todos atrás dele concordavam com a colher de chá que queria dar. Colher de sopa, na verdade, pois a fila era imensa. Ele se desculpou, constrangido, mas a mocinha nem se abalou... E, acredito eu, a maioria dos jovens que ouviram a história devem ter imaginado que a velhinha ranzinha aqui teria reagido por inveja à beleza e ao frescor da juventude perdidos há tempos. Quem me conhece bem sabe que não foi por causa disso... Continuo priorizando o respeito ao outro, em qualquer situação. Resumo da ópera: não dou uma dentro quando lido com instituições bancárias.
Meus fiéis leitores responderam à primeira crônica contando suas experiências e histórias com pessoas próximas. Impressionante como é comum esse desconforto, e vi que não sou a única com cara de meliante... metade do planeta me acompanha. Marília, que se confessa pessoa de pavio curtíssimo, certa vez “derramou” o conteúdo de sua bolsa no chão, dentro da porta giratória, quando o vigilante insistiu que certamente ainda haveria algo de metal na bolsa dela. Ao ficar comprovado que, de metálico, não havia sequer um grampo, o rapaz respondeu que, provavelmente, o que ainda fazia o sensor apitar seriam as embalagens metalizadas de seus remédios! Vamos rir ou chorar?
Jane contou que a filha também ficou presa na porta... Estudante de Direito, preparou uma carta ressaltando o absurdo, carta essa que surtiu efeito - dois gerentes foram visitá-la em casa, desculpando-se em nome do banco. Imaginem a loucura... foram visitá-la! O problema é que outros tantos cidadãos continuam passando pelo mesmo drama e ninguém pede desculpas ou tenta resolver o problema..
Rosa, ainda em sua temporada anual em Paris, contou-me que a aventura bancária dela foi, recentemente, diferente. Os bancos franceses parecem não gostar de dinheiro vivo. Explicando melhor – não conseguiu trocar uma nota de 500 euros nem mesmo na agência onde tem conta desde os anos oitenta! Os funcionários simplesmente instruíam-na a depositá-la em vez de fazer uma troca. Olhavam-na como se tivesse saído de um covil de falsários... Como é cliente do banco, caso a nota fosse falsa, poderiam se compensar retirando da conta dela o valor correspondente... Tudo em vão - não conseguiu convencê-los e acabou dando outro jeito. O drama é planetário.
Existem leis que obrigam as instituições a instalarem sistemas avançados de segurança. Em 2007, os bancos investiram um total de 7 bilhões de reais nisso. Acho que esse valor não fez cócegas no orçamento deles, que beiram os 800 no país; em 2010, apenas os três que mais lucraram conseguiram, juntos, alcançar a astronômica cifra de 20 bilhões de reais! O que melhores resultados obteve foi justamente aquele onde enfrentei o problema que relato no início dessa crônica, e acaba de anunciar que seu lucro foi o maior de toda a história dos bancos no Brasil! Estou na dúvida se devo parabenizá-lo por isso.
Nos Estados Unidos, os três maiores lucraram 40 bi, isso em dólares. De certa forma, se a análise levar em conta o tamanho da economia dos dois países, estou certa de que, relativamente, a atividade foi mais lucrativa aqui abaixo do Equador. Parece que o Well Fargo foi o segundo com melhor desempenho, e tenho a certeza de que isso se deu com a ajuda dos 40 dólares que deixei depositados na minha conta corrente por lá...
Na busca de dados sobre os estabelecimentos bancários nos Estados Unidos, deparei-me com o número assustador dos que pediram falência desde a recente crise econômica. Do total de 8430, mais de 300 não tinham mais como continuar, e são, ainda, mais de 800 em situação periclitante. Entendo que o tal lucro de 40 bilhões de dólares para tantas instituições financeiras contra os 20 bi divididos entre nossos oitocentos bancos não é nada demais.
A dúvida que me assalta (sem trocadilhos) nos momentos em que fico impedida de entrar no banco é se essa parafernália toda realmente faz diferença no que tange à segurança dos estabelecimentos. No Brasil, tivemos, no ano 2000, quase mil e novecentos assaltos. Com o tempo, as estatísticas foram baixando de forma expressiva e, no ano passado, foram 337. Fazendo continhas – menos de um assalto para cada dois bancos.
Nos Estados Unidos, em 2007, foram mais de 9.000 mil assaltos. Como são menos de 8.500 bancos, vamos dizer que, grosso modo, a média seria um pouquinho mais de um assalto por cada instituição. Na minha agência do Wells Fargo, levo o que quiser na minha bolsa, não tem porta que apita, enfim, nada... Mas tem mais assaltos! E isso começou nos tempos dos mocinhos e bandidos, das diligências, tudo retratado nos filmes com John Wayne.
O maior assalto a banco da história foi registrado no Iraque, em 2003. Aproveitando o principal bombardeio americano no Iraque, a quadrilha fugiu com quase um milhão de dólares. Em outra pesquisa, o número um teria sido na Inglaterra, em 1987. No Brasil, o “vencedor” aconteceu no Ceará.
Nunca se sabe se a ficção imita a realidade, ou se a realidade copia Hollywood. Em 2005, uma falsa empresa de colocação de grama alugou uma casa em rua paralela ao Banco Central, em Fortaleza. Durante três meses, cavaram um túnel para chegar ao objetivo final, usando uma Kombi com logotipo da empresa para levar a terra retirada do percurso que construíam até o cofre. Não levantaram suspeitas porque o veículo, todos os dias pela manhã, saía carregado com o que todos pensavam ser grama para colocar em jardins. Com esse ousado plano,apoderaram-se de mais de 150 milhões de reais. Não dizem que a vergonha está em roubar e não poder carregar? Pois é, essa turma não passou por essa “vergonha”- carregou o produto do assalto, que pesava nada mais, nada menos do que três toneladas!
E por ter sido um crime tão bem arquitetado, virou filme, com estréia prevista ainda para esse primeiro semestre de 2011. Elenco de primeira, conta com Cassius Gabus Mendes, Tonico Pereira e Lima Duarte que, por certo, não será o galã. Vai ser o Delegado...
Quando, recentemente, fui ver meu filho Mauricio, minha nora e minhas netas em São Paulo, empaquei também no sistema de segurança do Aeroporto Santos Dumont. E olhem que, quando aquele bip-bip antipático tocou, eu já tinha tirado as enormes argolas, a pulseira e o anel avantajados, enfim, tudo que pudesse atrapalhar. Qual foi a sorte? A funcionária, que sabe das coisas, foi logo avisando que meus saltos altíssimos (tipo 12 centímetros) levam, por dentro, um pino de metal. Fiquei descalça e, por certo, nada mais buzinou... Ou seja, a Cinderela aqui vai ter que comprar sapatinhos de cristal para não mais passar por essa coisa toda! Ou desfilar por aí da sandálias havaianas.
E como ainda estou com vontade de escrever, vou agora virar minha metralhadora giratória para os sistemas de segurança dos aeroportos, mais rígidos depois do 11 de setembro de 2001. Lembrei-me da reportagem do Fantástico e fui em busca de detalhes que pudessem ilustrar melhor a crônica. Foram oito os aeroportos pelos quais a réplica de uma AR-15 passou sem ser detectada, nem mesmo quando colocada na bagagem de mão do repórter. Inacreditável, não? Não sei bem qual foi a explicação da Infraero para o fato, mas considero isso indesculpável. .
Esbarrei na informação de que estão sendo fabricadas roupas íntimas que escondem as partes pudendas dos passageiros que precisam passar pelos mais de 400 scanners com Raio X instalados em muitos aeroportos americanos. São folhinhas de figueira metalizadas costuradas nas calcinhas, cuecas e soutiens e que protegem os viajantes da radiação e do olhar indiscreto do supervisor de segurança, que perde, assim, a oportunidade de se divertir... ou de se horrorizar!
E tem mais. Descobriram, ou foram geneticamente modificadas, não sei bem, algumas plantas que conseguem detectar a presença de bombas, e cujas sementes estarão no mercado em poucos anos. Os aeroportos serão ornamentados com bonitos vasos de plantas que estarão lá para substituir a tarefa dos animais, cujo faro é utilizado com muito sucesso. Será que os bancos vão aproveitar a idéia e acabar com as malditas portas giratórias? Eu e a galera do Flamengo iríamos adorar.
Resumo da história – Não sou eu, com minha bolsa Guess cheia de argolas, a representante o perigo. Ficam controlando tanto os pobres correntistas, os velhinhos e velhinhas, aborrecendo-nos sobremaneira, e não é aquele sisteminha antipático que vai impedir um assalto de maior “substância”. É só ler mais um pouco sobre o assunto e ficará demonstrado que os mais espetaculares casos já registrados não começaram pela porta da frente. O drama é que os serviços de segurança não se convencem disso.
Não consegui ter certeza se, durante o período da ditadura aqui no Brasil, nossa atual governante participou realmente de assaltos a bancos – há controvérsias. Há quem diga que atuou substancialmente no assalto à casa de uma amante do Ademar de Barros, onde havia um cofre com as “sobras” que o ele guardava de sua vida pública, cuja filosofia “rouba, mas faz” era conhecida de todos. Será que foi com esse dinheiro que ela fez as plásticas todas para ficar mais bonitinha durante a campanha? Brincadeiras à parte, não quero mais falar de bancos e portas giratórias, pois tem muita coisa boa por aí para eu continuar dando palpite. E ninguém perde por esperar.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

VOVÓ DO PÓ
Ana Hertz


Em julho de 2010, a Polícia Civil inaugurou uma Delegacia do Idoso em Copacabana, bairro que concentra muitos velhinhos do Rio de Janeiro pois, além da famosa praia, ali tudo o que nós precisamos no nosso dia-a-dia. Preocupados com aumento do número de assaltos aos vovôs e vovós daquela área, sobretudo quando saem dos bancos, as autoridades já tinha preparado, na 12ª. DP, um curso de defesa pessoal para os seniors. Por sermos mais frágeis, os meliantes têm grande facilidade em nos dominar. Tenho a maior curiosidade em saber se o curso continua existindo e se a procura tem sido grande. E eu, por causa dessa história toda, estou com vontade de dar um pulo até lá, não para aprender como devo sair dos bancos de maneira segura, mas simplesmente para pedir dicas para conseguir fazer justamente o contrário – quero entrar neles!.
Mesmo que alguns possam duvidar, sou uma pessoa com um razoável estoque de paciência. Embora só ocorrendo uma vez por década, o problema é que vou do oito ou oitenta em questão de segundos... Como já disse, é raro acontecer e, mesmo que ninguém precise ficar muito preocupado com tal possibilidade, confesso-me pronta a virar um monstro furioso, tanto por um aparente “quase nada”, como por uma questão da maior importância,.
Na verdade, o que tem me levado à loucura nos últimos tempos é o sistema de segurança instalado nas portas dos bancos do Rio de Janeiro. Não tem uma vez sequer que eu consiga entrar sem que tenha, praticamente, que tirar a roupa. Uma vez, mesmo depois de tirar tudo, literalmente tudo, de dentro da bolsa, não me deixaram entrar. Como era uma bolsa Guess, com algumas ferragens de enfeites, imaginei que a quantidade de metal fosse o problema. Sugeri, então, deixar a bolsa vazia do lado de fora, com a funcionária que instruía os clientes junto aos caixas eletrônicos, para que pudesse entrar e fazer o pagamento que precisava. Não fui autorizada a deixar a bolsa com alguém do estabelecimento ... regras do banco. Resumo da ópera - não consegui entrar naquela agência do Banco Itaú da Av. Rio Branco. Fiquei furiosa, é claro, e saí andando, sem saber o que fazer. O mencionado pagamento indicava, com exclusividade, as agências daquele banco. Na esquina da Rua São José, encontrei outra agência deles. Entrei sem que fosse preciso tirar da bolsa algo além do celular. Ou seja, a mesma instituição tem sistemas diferentes.
Isso vem se repetindo todas as vezes que preciso ir pessoalmente fazer alguma transação. É claro que existem outros meios de fazer muitas coisas nos bancos 24 horas, ou pelo telefone ou, ainda, utilizando o sistema online. Mas, repito, algumas vezes não há como evitar, e é nessas horas que eu enlouqueço. Pode ser que eu seja meio perua e ande com cordões, brincos, anéis, relógios e pulseiras em excesso, tudo ao mesmo tempo, e traga, na bolsa, a carteira de metal onde guardo cartões de crédito, dois celulares, guarda-chuva, escova de cabelo também de metal.... Embora tudo isso seja retirado e colocado naquele compartimento salvador, o danado do dispositivo continua “detectando” alguma coisa perigosíssima em meu poder. Quem sabe uma AR-15?
Por mais incrível que pareça, nas duas últimas vezes em que isso ocorreu foi, justamente, na minha própria agência do Banco do Brasil. Mostrei o cartão magnético do banco, onde se lê o número da agência e o meu nome, mostrei minha identidade... nada! Foi necessário que um dos vigilantes subisse à sobreloja para chamar um dos gerentes. Qualquer pessoa medianamente sensata pode avaliar a minha vontade de matar dez. Não poderia desistir porque tinha que resolver o problema de uns honorários recebidos do exterior.
Houve, eu sei, um acentuado aumento das estatísticas no que se refere à criminalidade feminina. Antes, a gente nunca desconfiaria de um casal que se aproximasse, ou de uma ou duas mulheres juntas... agora, infelizmente, não podemos nos descuidar. Pelo que andei lendo, a maioria das criminosas entra no crime para acobertar o marido, o companheiro, ou filhos, não sendo frequente, pelo que parece, uma iniciativa pessoal. Em geral, o delito é por tráfico, e são muitas as que são apanhadas quando levam drogas para dentro do presídio, na hora da visita àquele que está lá dentro. Ficam os dois, então. É bem menor o número de condenadas por latrocínio ou homicídio, crimes mais cometidos pelos homens, embora isso não queira dizer que não tenhamos, entre nós, mulheres, algumas que ficaram até mesmo na história pelo que andaram aprontando.
Quando penso em mulher delinquente, no Brasil, lembro-me logo da Lili Carabina, imortalizada nas telas por Betty Faria. Djanira, seu nome verdadeiro, deu um trabalho danado à polícia nos anos 70. Usava uma peruca loura para seduzir todo mundo (Ah! As louras, sempre as louras!). Suas penas, somadas, ultrapassavam 100 anos... e incluíam condenações por homicídio, latrocínio, assaltos, tráfico de drogas, e mais outras coisas bastante assustadoras. Na última fuga da cadeia, levou tiros na cabeça e ficou com um dos lados do corpo prejudicado. Morreu um ano e pouco depois de liberada, dizendo-se arrependida e uma interessada estudiosa da Bíblia. Para confirmar o que comentei antes, seu primeiro crime foi matar os dois assassinos de seu companheiro... que era traficante!
Hollywood também produziu um célebre filme sobre uma das mais famosas criminosas americanas, a Bonnie, aquela do Clyde. O casal morreu em 1934, depois de três anos e pouco de muita encrenca no tempo da Grande Depressão. Muitos experts dizem que ela, na verdade, nunca disparou um só tiro, e que foi seu sex-appeal como amante de um bandido considerado menor que acabou fazendo com que o mito superasse a realidade, e a caça aos dois tenha ocasionado umas tantas mortes desnecessárias. Nunca vamos saber de tudo.
Essa história toda é para dizer que, com a fértil imaginação que me é característica, concluí que não consigo entrar nos bancos porque lembro alguma criminosa famosa... Quem sabe sou parecida com a Betty Faria de 1989, quando filmou a Lili Carabina? Ou a Faye Dunaway, em 1967, fazendo par com Warren Beatty, o Clyde da telona? O drama é que logo caio na real, conscientizo-me da minha faixa etária e chego à conclusão que a televisão deve ter mostrado alguma assaltante idosa, uma daquelas chamadas de Vovó do Pó, e estão me confundido com a tal zinha. Só pode ser, pois não há explicação lógica para essa dificuldade em entrar no banco.
E se eles acham que sou uma velhinha meliante, e que estou ali para assaltá-los, o que supõem que eu esteja querendo comprar com o dinheiro eventualmente apurado? Será que descobriram que meu sonho de consumo é comprar uma garrafa de champagne Arman de Brignac, que custa a bagatela de R$2.200,00 nas boas delicatessens do Brasil? Aquela linda garrafa dourada que combina com meu lado perua, cujo sabor tem que ser uma maravilha... por esse preço! Ou por que desejo investir uns R$30.000,00 em uma garrafa da melhor safra do Chateau Mar Gaux? Pois é... se continuam me impedindo de acessar minha conta bancária, não poderei atender meus desejos mais profundos. E onde fica minha liberdade de ir e vir, direito garantida pelo artigo 5º, da Constituição Brasileira?
Mesmo não tendo o tal perfil da maioria das criminosas, pois não tenho marido, companheiro ou parente envolvido em crimes, não me deixam entrar com facilidade. E, embora sempre sofra para entrar no meu própria agência, tapetes vermelhos são estendidos, portas são escancaradas e a imprensa toda vai prestigiar aqueles que, sem o menor pudor, tiram o dinheiro do povo. Entram em qualquer lugar sob uma chuva de aplausos...
É por isso que permaneço com sérias dúvidas se há mesmo necessidade de treinar os velhinhos para se livrarem dos bandidos nas saídas dos bancos. Caso os sistemas de segurança continuem a ser do jeito que são, nós, da terceira idade, cidadãos honrados, vamos acabar não conseguindo entrar neles sequer para sacar nossas minguadas aposentadorias.... O bom é que, não estaremos correndo risco algum de sermos assaltados. E eu, que devo ter a cara da “Vovó do Pó”, não vou conseguir pegar dinheiro para pagar meu IPVA que vence semana que vem! Tem alguém
aí que possa me ajudar?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

JAMES BOND EM WASHINGTON

Impossível resistir ao convite de Najat, amiga querida a quem não via desde 1996, e lá fui eu rever Washington depois de tanto tempo. Sempre gostei da capital americana em razão de seus maravilhosos museus, tanto os ligados ao Smithsonian Institute, quando os outros, autônomos, sempre do melhor padrão.
A cidade não mudou muito desde que a visitei pela última vez, e só não havia congelado naquele fevereiro porque a acolhida de Vera e Genard foi a mais calorosa possível. Dessa vez, o calor do verão já estava chegando, e pude revisitar o Monumento à Guerra da Coréia sem ter que andar com neve na altura dos joelhos. Não esqueço a sensação de congelamento que senti daquela vez e confesso que foi uma das muitas vezes em que questionei minha sanidade mental. Enfrentar uma temperatura de cerca de 8 graus abaixo de zero para visitar um monumento ao ar livre demonstra uma completa insensatez. Enfim, o monumento impressionou-me tanto que valeu o risco de pegar uma pneumonia dupla.
Desta vez, com uma temperatura bastante civilizada, pude passear em meio às estátuas em bronze dos soldados, todos como se a caminhar em um campo de batalha, É claro que ver esse batalhão comove mesmo que o dia esteja glorioso, ao lembrar a tragédia das guerras, de quanto o homem tem se mostrado insensato através de sua história... mas a sensação de solidão se aprofunda se a neve, cortante, insiste em cair.
Pude notar, agora, a belíssima idéia de quem projetou o monumento. Foram instaladas, em granito cinza polido, paredes de cerca de 2 metros de altura, onde foram “desenhados” muitos soldados. Assim, conforme os visitantes passam ao longo desse mural, as imagens se misturam. Temos, unidos, num mesmo espaço, aqueles que foram para a guerra e os que agora, com grande emoção, procuram homenageá-los.... Mesmo os que não morreram lá longe deixaram, nos campos de batalha, a melhor parte de suas vidas e a possibilidade de serem inteiros de novo. A emoção me pega de jeito.
A vantagem de se voltar a lugares já visitados é poder, com calma, descobrir que, mesmo o que se conhece, pode tornar-se uma bela surpresa. E foi o que me aconteceu. Em cinco inesquecíveis dias, consegui me divertir muito com tanta novidade.
Há algum tempo, tenho evitado os grandes museus. Como já comentei, o excesso de informação tira um pouco do deslumbramento que se pode ter. Nesse caso, discordo do “quod abundat non nocet”. Prejudica, sim. E, por causa disso, lá fui eu em busca do novo nos de pequena extensão.
Pensei que o Newseum fosse menor... não é um Louvre, com 17 quilômetros de galerias, mas é bem grandinho.. O prédio, moderno, tem sete andares divididos em 14 galerias, 15 teatros e várias lojas. Ouvi dizer que é o único museu do mundo que trata de por que razão e como as notícias são preparadas. Foi inaugurado em 1997, em um prédio menor, mas seus fundadores logo concluíram que deveriam concentrar esforços para montar um espaço de maiores dimensões e pudessem realizar o trabalho planejado. Fecharam em 2002 e somente em 2008 o novo museu, agora muito mais espaçoso, foi aberto ao público. Uma das galerias mais interessantes é a que apresenta, a cada dia, a primeira página original de 80 diferentes jornais do mundo inteiro. Seus organizadores dizem que o objetivo maior da instituição é difundir a idéia de que a imprensa deve ser livre, para que um povo seja realmente livre.
Em outra galeria, temos à disposição, em telas de computadores, todos os dias, a primeira página de jornais do mundo inteiro. Não consegui contar quantos jornais brasileiros enviam seu material para o Newseum, mas encontrei, pelo menos, uns cinquenta. Hoje, verifiquei que o site deles mostra 759 primeiras páginas de periódicos de mais de setenta países. Tinha das Ilhas Fiji, do Iran (!?!), de Andorra, da Rússia... Aproveitei para ler a primeira página do Diário de Borborema, de Campina Grande, mas não apresentava grandes novidades. Sem dúvida, esse museu vai ficar na minha lista de prioridades toda vez que voltar a Washington. É surpreendente!
A National Gallery já era minha velha conhecida, mas a National Portrait Gallery estava na lista de espera há anos. Uma das coisas que me atraiu foi descobrir o critério utilizado para a escolha do acervo. Não são levadas em conta a personalidade do retratado e a qualidade artística da peça. O objetivo é contar, através de pinturas, esculturas e, mais recentemente, de fotografias, a história do homem, do povo, do país e também do mundo.
Em minha agenda turística, também estava indicado o International Spy Museum, localizado bem pertinho da Portrait Gallery. A fila para entrar já era grande meia hora antes da abertura das bilheterias, o que demonstra o sucesso desse museu, e encontrei enorme variedade de pessoas se acotovelando pelas galerias.
Descobri coisas do arco da velha. Saber que Josephine Baker atuou como espiã foi uma surpresa e tanto. Tudo o que eu sabia era que fora uma showwoman bastante famosa, que havia se transferido para a Europa em razão da segregação racial que ainda reinava nos Estados Unidos, e que adotara 12 crianças de diferentes nacionalidades. Só agora descobri que a espertinha trabalhava para a Resistência Francesa, na Segunda Guerra, levando e trazendo fotografias e mensagens escondidas nas exuberantes roupas que usava em seus shows. Por esse relevante serviço, recebeu do governo francês, quando de sua morte, honras militares, tendo sido a primeira mulher americana distinguida com tal honraria.
Toda essa história de espionagem tem um charme danado. Ian Fleming, ele mesmo um agente do serviço de inteligência britânico, foi quem deu vida a James Bond, aquele que minha geração e algumas outras sempre adoraram. Os filmes fizeram sucesso desde o primeiro da série, “O Satânico Dr. NO”. Mas o primeiro livro que ele realmente escreveu foi Casino Royale, que só foi para as telas no século XXI. Ele morreu em 1964, tendo assistido a apenas dois filmes, E o mais famoso intérprete de 007, Sean Connery, não era o ator que Fleming queria como Bond. Não conseguia vê-lo como o melhor para o papel, o que vem comprovar que nem sempre o criador entende bem sua própria criatura...
A ficção traz histórias de todo tamanho e cor e que despertam grande interesse em muita gente, sobretudo porque a literatura e os filmes sobre o assunto mostram personagens cheios de glamour, extremamente corajosos e que sempre vencem o “mal”. Mas a vida real tem coisas muito mais mirabolantes para contar,
Não foi durante a “guerra fria” entre os Estados Unidos e a União Soviética que os espiões “nasceram”; na verdade, foi quando floresceram e ficaram famosos. A História da civilização tem registros de espionagem desde a época das dinastias egípcias, das chinesas, enfim, desde sempre o homem se valeu dessa atividade na tentativa de vencer seu potencial inimigo. Na verdade, o primeiro serviço institucional de inteligência só foi criado durante o reinado de Luiz XIV, o famoso Rei Sol. Antes, a atividade era exercida mais informalmente, sem a organização “estatal”.
E os “inimigos” não estão só na política, e a espionagem industrial também tem história Essa, atualmente, é tão – ou mais – requintada do que aquela que se infiltra nos diferentes países. Para se manter na liderança de vendas, as empresas se valem dos mais variados meios para obter informações de seus concorrentes, para que possam evitar grandes surpresas. Contratam ex-funcionários dos oponentes, infiltram agentes em postos importantes, chantageiam empregados, interceptam comunicações... enfim, fazem de tudo para descobrir que novidade está o outro preparando.
E o cinema não ia ficar fora disso. O último filme que assisti sobre o assunto foi “Duplicidade”, com Julia Roberts e Clive Owen. Eu esperava mais, embora sempre dê para divertir um pouquinho. O mais recente, intitulado “A Origem”, com Leonardo DiCaprio, acabou não entrando na minha agenda.
Chego a Washington e penso logo em Watergate... É a capítulo de espionagem dentro da própria “casa” melhor esclarecido do último século. Veio à tona boa parte do que os republicanos fizeram nos escritórios do Partido Democrático e, como resultado, vários assessores de Nixon foram condenados e mandados para a prisão. E o presidente americano, antes que as coisas ficassem ainda piores para o lado dele, renunciou. Temia o iminente impeachment e uma mais que provável condenação. Melhor cortar o dedo do que perder a mão. Como aos inimigos não damos as costas, a traição exercida por eles não é tão perigosa quanto a que nos preparam aqueles que estão perto de nós, rondando-nos com pele de cordeiro. Daí, a razão de os provadores dos reis terem sido figuras tão importantes - o perigo mora ao lado.
Há bem pouco tempo, um ex-agente da KGB que havia se transferido para o lado britânico foi envenenado e morreu de uma forma terrível. Não foram poucos os eliminados assim, e existe até mesmo uma corrente de historiadores que afirma que Napoleão foi vítima de envenenamento, por arsênico, e que não morreu de úlcera perfurada coisa nenhuma. Tais alegações têm por base estudos científicos realizados por especialistas da Universidade de Glasgow, que tiveram acesso a fios de cabelo do grande personagem, guardados durante gerações por descendentes de funcionários seus. Eu fico na dúvida... os tais fios seriam dele mesmo?
As armas usadas pelos serviços secretos são incríveis, de causar inveja à imaginação dos maiores e melhores ficcionistas. Que tal um guarda-chuva que dispara balas de cianureto? E um “inocente” cigarrinho com cicuta? O fato é que não existe dificuldade alguma para se conseguir um veneno eficaz - a Natureza os fabrica aos borbotões.! Podemos escolher entre os de origem mineral, vegetal ou animal... Os laboratórios preparam outras tantas substâncias poderosas. O flúor, por exemplo, é uma substância altamente tóxica, mas excelente, em dosagem baixa, para tratar das cáries. O iodo, outro perigoso veneno, da mesma forma tem excelente uso terapêutico. E volto a fazer referência à conhecida expressão “Quod abunda non nocet” ... Claro que não cabe ao falarmos de venenos!
O Brasil também tem histórias para contar. Nosso primeiro serviço secreto foi criado em 1956, pelo Juscelino, e recebeu o nome de Serviço Federal de Informações e de Contra-Informação – SFICI. Teve vida curto, pois em 1964 foi desativado pelos militares, que montaram o terrível SNI, sobre o qual não preciso tecer comentários... todos conhecem bem. Nos dias de hoje, temos a tal da Agência Brasileira de Inteligência, que já se viu envolvida em vários escândalos do tipo Watergate, um deles o caso dos grampos no BNDES.
Se um dia eu quiser escrever uma história de espiões, e conseguir mil informações interessantes sobre esses aparelhinhos tipo 007, vou entrar em contato com ex-agentes da CIA, do FBI, da KGB, do Mossad, do M16, a rede que é considerada, por unanimidade, a mais eficiente de todos os tempos. Esses ingleses...
E, chegada a hora de finalizar o texto, sinto-me do mesmo jeito que a grande maioria dos escritores fica quando se senta diante da folha em branco... agora, da tela em branco. O que vou dizer? Como arrematar toda a escrivinhação? A boa técnica fala em voltar ao parágrafo inicial, retomar o tema e, assim, fechar o trabalho. Vou fugir do conselho... Não vou falar dos maravilhosos museus que visitei em Washington, dando preferência a comentar o que li em “Caixa Preta”, do brilhante escritor israelense Amós Oz.
Mesmo que o tema do romance não tenha nenhuma relação com espiões, governos estrangeiros ou com a capital americana, pude encontrar coisas interessantíssimas – e polêmicas! - sobre alguns grupos sociais. Discorrer sobre essas pérolas me obrigaria a escrever mais umas trinta laudas, o que não é o caso. Vou restringir-me a uma observação daquele autor que me pareceu apropriada para falar dos espiões. Para evitar que, na minha ignorância, eu mude uma palavra e venha desmerecer o original, vou apenas transcrever: “Na medida em que a pessoa perdeu a auto-estima, sua razão de viver, o verdadeiro significado da vida, simultaneamente eleva-se, engrandece-se, glorifica-se, santifica-se a justificação de seu credo, sua nação, sua raça, do ideal que abraçou ou do movimento ao qual jurou fidelidade.” Isso pode nos ajudar a entender porque os agentes secretos se arriscam tanto. A causa ou país que escolheram defender instalou-se naquelas almas para preencher o vazio que incomodava.
Eu, que gosto um bocado de mim, prefiro uma vida mais comum, temperada com aventuras apenas medianamente extravagantes. E, seguindo a boa técnica, arremato dizendo - “Vá a Washington... os museus são fantásticos!”

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

UM LUGAR CHAMADO TEXAS
Maio de 2008
A palavra TEXAS tem origem indígena, como têm as designações de tantos outros lugares aqui da América. Veio do termo tejas, que é como se pronuncia, em Espanhol, o vocábulo tayshas da língua dos Hasinai, que significa amigo, aliado. É uma terra bem antiga, e especialistas, com auxílio do carbono 14, comprovaram que povos bastante desenvolvidos viveram por aqui, com evidências de tribos estabelecidas há mais de 11.000 anos!

É impressionante como o Espanhol é falado aqui nos Estados Unidos. Isso se deve não só à imigração de latinos no último século, que fazem de tudo para ficar por aqui, na esperança de uma vida melhor; no caso específico do Texas, como essas terras fizeram parte do México, que as perdeu em definitivo em 1848, no final da Guerra Mexicano-Americana, a língua original permaneceu com bastante força. Por não aceitar a anexação, aos Estados Unidos, da República Independente do Texas, que havia declarado sua independência em 1836, o México resolveu brigar para ter as terras de volta. Com a derrota, acabou sofrendo um prejuízo ainda maior, e lá se foi a área que hoje é formada pelos estados da California, Nevada, Utahm Novo México,
Texas, e parte do Arizona e do Colorado, ou seja, quase um terço do atual território americano. O Espanhol, então, marca sua presença, como se a querer lembrar a todos a origem das terras. O apelido do Texas é Lone Star State, por causa da estrela solitária da bandeira, que ostenta o vermelho, o azul e o branco; ela é praticamente igual à do Chile e só agora deixei de confundir as duas.
Segundo maior estado dos Estados Unidos, é também o segundo mais populoso, com aproximadamente 23 milhões de habitantes pelo censo de 2006. Só perde para a Califórnia, considerada um paraíso por muitos americanos e outros tantos forasteiros, que para lá se mudam. Talvez inspirados em Lulu Santos, que um dia avisou que ia para a Califórnia, viver a vida sobre as ondas, ser artista de cinema, pois o destino dele era ser star.
O território texano caracteriza-se por interessantes contrastes. As regiões ao norte e a leste apresentam rios, lagos e florestas, enquanto o sul e o oeste têm um clima mais árido, desértico em vários pontos. Há regiões em que você dirige horas e horas seguidas com a impressão de que não vai chegar a lugar nenhum, que se perdeu para sempre. Sentia-me, nessas viagens, como nos filmes - as estradas vazias, terra avermelhada ao redor, muitos cactus e, de repente, aparece um carro, e o motorista é um serial killer! Para compensar esses vazios, em outros pontos do estado, as cidades são tão próximas umas das outras que parecem ser uma só. De Houston, por exemplo, já não se sabe bem onde começa ou acaba.
Nos locais menos populosos é que surgiram os cowboys que são, hoje, um dos símbolos do estado. O interessante é que não estão apenas nas áreas rurais, e em todo canto há homens usando aquele típico chapéu e com botas bem características. Nas primeiras vezes que os vi, pensei que só estariam faltando os revólveres e as espingardas. Ledo engano, pois é o estado onde mais se vendem armas! Qualquer cidadão residente pode ter uma arma não registrada, desde que seja menor do que uma metralhadora ou do que um lançador de granadas. Pode até andar no carro com ela carregada, se o destino for um outro condado fora de sua origem, passando por um terceiro?! Mesmo sendo advogada, não consegui entender a razão desse terceiro condado. O problema é que nem mesmo o Departamento de Polícia tem idéia do armamento espalhado pelo Texas. Mesmo assim, a taxa de criminalidade é bem inferior a outros estados americanos.
A partir do início do século XX, o Texas, um estado agropecuário, viu sua economia diversificar-se e, atualmente, são as indústrias petrolífera e aeroespacial e o setor financeiro que possuem maior importância no seu desenvolvimento. São quilômetros e mais quilômetros de instalações petrolíferas, um movimento intenso de caminhões... realmente uma potência. Ë, sem dúvida, o estado que apresenta as melhores condições para superar os problemas trazidos pela recente crise. Sempre que penso em filmes passados no Texas, imagino naquelas cobras todas tentando pegar o personagem principal, o que sempre me pareceu um exagero, com cobras demais. Na verdade, é isso mesmo. São 72 tipos diferentes, sendo que 15 representam real perigo aos humanos. E as aranhas? Novecentos tipos diferentes! Felizmente, só duas são perigosíssimas, e uma é a nossa conhecida viúva negra. As outras 898 apenas assustam. E existem, nos parques, as Fire-Ants... só pelo nome já se adivinha que a picada dessas formigas queima como fogo.
Não são as cobras ou as aranhas aquilo que mais assusta mesmo todo mundo. São os furacões. O mais fraquinho tem ventos de 120 kilômetros por hora, e o mais forte passa de 250. Ainda não consegui entender direito a diferença entre furacão, ciclone, tornado e tufão, mas sei que todos são terríveis. E esses fenômenos aqui acontecem com freqüência. Se o furacão for dos mais fortes, o alerta é para que todos saiam de perto do litoral e procurem cidades mais para o interior. São milhões de pessoas de carro pelas estradas, e percursos que durariam 1 hora são percorridos em quase 20 horas. Por sorte, só peguei tempestades tropicais, também assustadores, mas os transtornos que causam são bem menores. Nos últimos anos, os piores furacões foram o Katrina e o Rita. Em 2005, o Katrina desalojou cerca de um milhão de pessoas, e o Rita, logo depois, fez estragos nas Bahamas, em Cuba, México e Estados Unidos. Importante lembrar que os nomes de furacões não são apenas femininos, como muitos engraçadinhos gostavam de contar - também são masculinos! Existe uma relação de nomes já definidos por um organismo internacional, que se repetem a cada seis anos. Os mais violentos têm sua denominação retirada da lista, talvez por superstição. Mas esses dois mais recentes, realmente terríveis, tinham nome de mulher...
E como sempre tudo tem dois lados, acabei descobrindo que os furacões desempenham importantes funções ecológicas – servem para renovar os mangues, reequilibrar a atmosfera e restaurar a salinidade dos estuários. Isso dá algum conforto aos que sofrem com as consequências? Por certo que não, mas não podemos negar que são necessários.
Novo assunto. Na Primeira Guerra Mundial, a frota de navios americanos foi escoltada para a Europa por um navio de guerra que homenageou o estado - USS Texas. Na Segunda Guerra, participou do desembarque na Normandia e foi “aposentado” em 1946, sendo, hoje, um museu flutuante. Em sua longa trajetória como um dos mais importantes vasos de guerra americanos, sofreu somente uma baixa, o que é um recorde bastante interessante. Na visita a esse ponto histórico, descobri que a Coca-Cola é mais antiga do que eu. No refeitório dos marinheiros, há uma máquina do refrigerante mais conhecido do mundo com sua inconfundível marca registrada. Foi produzida, primeiramente, como nova versão de uma bebida francesa, em 1884, ainda contendo álcool. Em razão de leis que proibiam a produção e ingestão de bebidas alcóolicas, seu inventor, em 1886, desenvolveu uma nova fórmula que não contrariava a lei. De início, foi vendida como medicamento, tornando-se logo bastante popular, pois diziam que curava dor de cabeça, neurastenia, dispepsia e, acreditem, impotência. Imaginem só. Era vendida em máquinas e somente em 1935 passou a ser comercializada em garrafas. Cheguei a fotografar uma dessas primeiras máquinas, bem semelhante a uma bomba de gasolina. Em latas, só em 1955.
Voltando ao Texas, descobri que tem várias cidades com nomes interessantes e que algumas apresentam coisas diferentes, insólitas mesmo. Paris, por exemplo, a melhor pequena cidade do estado, tem até uma réplica da Torre Eiffel. Só que com um chapéu de cowboy no alto. E que é vermelho! Gustave Eiffel, lá do céu, deve ter ficado louco quando viu isso. Seu maravilhoso projeto foi alterado e ganhou um adereço que não combina com a obra. Mais uma coisa diferente? Vá até Hunt, onde poderá visitar a réplica de Stonehenge, cuja altura equivale a pouco mais da metade do monumento original na Inglaterra, e que tem quase a mesma circunferência. Para completar, estão lá também réplicas das estátuas encontradas na Ilha de Páscoa. Pisa tem sua torre inclinada? A cidade texana de Groom tem uma também... só que é uma torre com um reservatório de água. Pensa-se logo que perdeu o prumo por causa de um furacão, mas não foi nada disso. Para atrair mais fregueses para seu restaurante, o dono do estabelecimento contratou engenheiros que atenderam ao seu sonho maluco e projetaram com a inclinação. O restaurante pegou fogo há algum tempo atrás e não existe mais. A torre, no entanto, continua inclinada e chamando atenção. Talvez sobreviva à maravilhosa torre italiana.
Confesso não saber qual dessas idéias é a mais estranha, mas um dos mais fortes candidatos é o Cadillac Ranch, em Amarillo, junto à histórica Rota 66. Um milionário excêntrico juntou dez cadillacs usados, daqueles “rabo de peixe”, e enterrou-os em seu campo de trigo até a metade, deixando de fora só a traseira. Os visitantes são convidados a ilustrar as carrocerias, cada um escrevendo o que quiser, desde declarações de amor eterno, passando por estranhas mensagens ao mundo e chegando a manifestações delirantes. Os menos ousados preferem escrever apenas o nome ou as iniciais. Entretanto, quando a excentricidade faz com que um milionário chinês reconstrua a Cidade Proibida de Beijing, talvez possamos aplaudir de pé. Temos, em Houston, uma espécie de parque temático histórico, que é realmente um assombro. Em réplicas com 1/3 do tamanho original, podemos ver o exército de 6.000 soldados em terra-cota do Imperador Qin. E a cidade em si apresenta-se com um vigésimo do tamanho original. Não sei se procede a informação, mas soube que os próprios chineses que moram no Ocidente preferem vir ver essa aqui a enfrentar toda a burocracia para ir até a China.
E como se não bastasse, surpreendi-me, há alguns dias, com uma das paisagens mais belas que já vi. Eram oito e meia, e a noite acabara de chegar. O Centennial Park, todo gramado, parecia um lago verde, margeado por árvores majestosas, belíssimas... não se vislumbrava uma única construção. No céu do mais puro azul escuro, uma enorme lua cheia, dourada, mas tão dourada, que custei a acreditar no que estava vendo. Emocionada, torci pelos que, naquele momento, sonhavam com seus amores. Implorei aos poetas que pensassem suas rimas e, com a magia daquela lua, encantassem as palavras e fizessem nascer os mais belos poemas... Era a Natureza, vitoriosa, exuberante. As estrelas, escondidas, não quiseram aparecer, humilhadas com tamanha beleza. O Texas me oferecia um céu para que eu nunca mais pudesse esquecer essa terra que, honrando seu nome, fez com que eu me sentisse em casa, entre grandes amigos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

APROVEITANDO PARA DAR UNS PALPITES
Setembro de 2010.

Para animar ainda mais o encontro de amigos, Emidio e eu passamos alguns dias procurando coisas divertidas... e conseguimos um material bastante interessante. Olhamos adesivos em jornaleiros, viajamos pelo fascinante universo do Google e, finalmente, folheamos muitos livros. Recortamos, então, versos de grandes poetas, pescamos pérolas de alguns filósofos, enfim, bebemos em incontáveis fontes de informação. Para o bem e para o mal.
Do que escolhemos, selecionei umas poucas coisas que não necessariamente são as melhores que foram ditas ou escritas, mas me parecem apropriadas para palpites. Outras se bastam... nem mesmo vou comentar, apenas transcrever
Tenho certeza de que Martha Medeiros e eu não fomos criadas pela mesma mãe, a minha no caso, mas a poeta pensa igualzinho à D. Eny, que afirmou, quando eu beirava os 30 anos, que quem tem juízo não se diverte. Vejam que belos versos a escritora gaúcha escreveu sobre isso: “Mesmo tendo juízo/não faço tudo certo/todo paraíso/precisa de um pouco de inferno”
Dela, trago, ainda, outra idéia bem interessante – “Tenho urgência de tudo que deixei para amanhã”. Na mesma linha, Picasso tinha dito: “O que já fiz não me interessa/Só penso no que ainda não fiz”. Nem vou tentar inventar outro jeito de dizer a mesma coisa – vou apenas concordar!
Oscar Wilde foi outro que sempre me encantou, e não foi difícil conseguir dezenas de pérolas dele. Escolhi três. A primeira é “Todas as pessoas fascinantes têm vícios: está aí o segredo de sua fascinação.” Agora que entendi essa história toda, vou colecionar outras tantas, vamos dizer, manias... pode funcionar!
Como ele adorava polemizar, foi bastante ácido quando diagnosticou: “As mulheres malvadas nos atormentam... as boas nos aborrecem.” Não parou por aí e afirmou que “Podemos resistir a tudo, menos às tentações.” Estaríamos, então, perdoados, por atender aos próprios desejos? Há controvérsias a esse respeito.
Por falar em tentações e mulheres malvadas, achei muito bom o que Picasso disse sobre a mulher ideal: “Um homem só encontrou a mulher ideal quando olhar seu rosto e vir um anjo e, tendo-a nos braços, ter as tentações que só os demônios provocam.” Ótimo tema para homens e mulheres discutirem noite a dentro.
Na verdade, não só as pessoas que têm vícios nos fascinam - é claro que também as pessoas que se mostram sensíveis são irresistíveis, Quando li “A menina que roubava livros”, de Markus Zusak, fiquei encantada com o jeito simples de filosofar do jovem escritor australiano. Impossível encontrar quem discorde de que “É difícil não gostar de alguém que não apenas nota as cores, mas fala delas.”
E falando em sensibilidade, não poderia deixar Charles Chaplin de fora. A maioria de nós apenas se lembra de suas comédias do tempo do cinema mudo, comédias que derramavam poesia e, por vezes, faziam a gente chorar. Do que dizia o genial criador de Carlitos, escolhi “Não devemos ter medo de confrontos. Até mesmo os planetas se chocam. E do caos nascem as estrelas.” Bem, modus in rebus. Alguém quer discutir isso?
Nessa busca de coisas interessantes, por certo esbarrei em Nietzsche, filósofo que, confesso, às vezes me irrita. Não tenho mais idade para ser hipócrita e esconder meus gostos e desgostos. Ele adorava falar mal das mulheres e, por mais que eu consiga dar um desconto em nome de sua obra como um todo, não gosto disso. Assim, para me ajudar a ser imparcial, lembrei-me de que ninguém é lúcido o tempo todo. Abandonando minha implicância, pude trazer duas maravilhas dele. Ambas falam do amor, da razão e da loucura, e nem sei de qual gosto mais. Vocês podem escolher entre “Há sempre um pouco de loucura no amor. Mas existe sempre um pouco de razão na loucura” e “O amor é o estado em que o homem é capaz de ver as coisas tal qual elas não são.” Acrescento o ditado popular – “O amor é cego...e surdo, também!”
No momento em que pensei na Arte, não resisti, fui em busca de Nietzsche de novo, e não vou discordar de uma vírgula do que encontrei! Que tal “Temos a arte para não morrer da verdade”? Com mais vigor, afirmou que “A arte deve, antes de tudo e em primeiro lugar, embelezar a vida e, portanto, fazer com que nós próprios nos tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros”. Desse jeito, vou acabar achando Nietzsche o máximo.
Deixo sempre bem claro que detesto quando alguém fala na “terceira idade” ou na “melhor idade”. Ainda não acharam palavras apropriadas para essa fase da vida em que a maioria de nós ainda tem uma grande dose de energia vital, que ainda sonha, constrói, aproveita a vida e tudo mais, mas que, não há como negar, já dobrou a esquina. Ouvi, outro dia, uma definição engraçada – a juventude da velhice é a “juventice”. De qualquer forma, o termo velhice é meio assustador. Para nos consolar, Picasso dizia sempre que “Leva muito tempo para nos tornarmos jovens.” E quem levar essa idéia a sério pode aproveitar muito de todo o tempo que ainda nos resta. Eu tenho conseguido!
Hoje, dia 7 de setembro, nossa comemoração da Independência é mencionada na campanha eleitoral que toma conta do país inteiro. Cabe lembrar que o fantástico Bernard Shaw, um dia qualquer lá atrás, escreveu uma jóia com a qual muitos concordam sem pestanejar – “Ele não sabe nada e pensa que sabe tudo. Isso aponta claramente para uma carreira política”. Triste, mas verdadeiro, não?
Aproveitando o feriado chuvoso, tinha pensado em dar mil palpites sobre tudo isso, mas logo percebi que não havia muito a dizer. Escrevi um pouco para não apresentar apenas uma sequência de pensamentos, e também por ser uma palpiteira e tanto. Mas todos os comentários são desnecessários. Termino, então, com algumas raridades/barbaridades que não devem ser levadas a sério. Resolvi trazê-las apenas a título de curiosidade, certa de que os homens que estão à nossa volta jamais concordariam com o que está escrito.
“Todas as mulheres que seduzirem e levarem ao casamento os súditos de Sua Majestade mediante o uso de perfumes, pinturas, dentes postiços, perucas e recheios nos quadris, incorrem em delito de bruxaria e o casamento fica automaticamente anulado.”
(Constituição Nacional Inglesa do século XVIII)
“O pior adorno que uma mulher pode querer usar é ser sábia.” (Lutero - século XVI)
“A mulher deve adorar o homem como a um deus. Toda manhã, por nove vezes consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados, perguntar-lhe: - Senhor, que desejais que eu faça?” (Zaratustra – filósofo persa – século VII A.C)
“Inimiga da paz, fonte de inquietação, causa de brigas que destroem toda a tranqüilidade, a mulher é o próprio diabo.” (Petrarca – século XIV)
Foram lembrados, aqui, grandes pensadores, poetas, enfim, pessoas consideradas geniais. Mas o autor (anônimo) que nos legou a filosofia “etílica” que encerra essa conversa foi, sem dúvida, muito criativo – “A cachaça e a cerveja são os maiores inimigos do homem. Mas o homem que foge de seus inimigos é um covarde!” Com uma caipirinha de maracujá na mão, convido todos - Vamos à luta!