domingo, 6 de fevereiro de 2011

VOVÓ DO PÓ
Ana Hertz


Em julho de 2010, a Polícia Civil inaugurou uma Delegacia do Idoso em Copacabana, bairro que concentra muitos velhinhos do Rio de Janeiro pois, além da famosa praia, ali tudo o que nós precisamos no nosso dia-a-dia. Preocupados com aumento do número de assaltos aos vovôs e vovós daquela área, sobretudo quando saem dos bancos, as autoridades já tinha preparado, na 12ª. DP, um curso de defesa pessoal para os seniors. Por sermos mais frágeis, os meliantes têm grande facilidade em nos dominar. Tenho a maior curiosidade em saber se o curso continua existindo e se a procura tem sido grande. E eu, por causa dessa história toda, estou com vontade de dar um pulo até lá, não para aprender como devo sair dos bancos de maneira segura, mas simplesmente para pedir dicas para conseguir fazer justamente o contrário – quero entrar neles!.
Mesmo que alguns possam duvidar, sou uma pessoa com um razoável estoque de paciência. Embora só ocorrendo uma vez por década, o problema é que vou do oito ou oitenta em questão de segundos... Como já disse, é raro acontecer e, mesmo que ninguém precise ficar muito preocupado com tal possibilidade, confesso-me pronta a virar um monstro furioso, tanto por um aparente “quase nada”, como por uma questão da maior importância,.
Na verdade, o que tem me levado à loucura nos últimos tempos é o sistema de segurança instalado nas portas dos bancos do Rio de Janeiro. Não tem uma vez sequer que eu consiga entrar sem que tenha, praticamente, que tirar a roupa. Uma vez, mesmo depois de tirar tudo, literalmente tudo, de dentro da bolsa, não me deixaram entrar. Como era uma bolsa Guess, com algumas ferragens de enfeites, imaginei que a quantidade de metal fosse o problema. Sugeri, então, deixar a bolsa vazia do lado de fora, com a funcionária que instruía os clientes junto aos caixas eletrônicos, para que pudesse entrar e fazer o pagamento que precisava. Não fui autorizada a deixar a bolsa com alguém do estabelecimento ... regras do banco. Resumo da ópera - não consegui entrar naquela agência do Banco Itaú da Av. Rio Branco. Fiquei furiosa, é claro, e saí andando, sem saber o que fazer. O mencionado pagamento indicava, com exclusividade, as agências daquele banco. Na esquina da Rua São José, encontrei outra agência deles. Entrei sem que fosse preciso tirar da bolsa algo além do celular. Ou seja, a mesma instituição tem sistemas diferentes.
Isso vem se repetindo todas as vezes que preciso ir pessoalmente fazer alguma transação. É claro que existem outros meios de fazer muitas coisas nos bancos 24 horas, ou pelo telefone ou, ainda, utilizando o sistema online. Mas, repito, algumas vezes não há como evitar, e é nessas horas que eu enlouqueço. Pode ser que eu seja meio perua e ande com cordões, brincos, anéis, relógios e pulseiras em excesso, tudo ao mesmo tempo, e traga, na bolsa, a carteira de metal onde guardo cartões de crédito, dois celulares, guarda-chuva, escova de cabelo também de metal.... Embora tudo isso seja retirado e colocado naquele compartimento salvador, o danado do dispositivo continua “detectando” alguma coisa perigosíssima em meu poder. Quem sabe uma AR-15?
Por mais incrível que pareça, nas duas últimas vezes em que isso ocorreu foi, justamente, na minha própria agência do Banco do Brasil. Mostrei o cartão magnético do banco, onde se lê o número da agência e o meu nome, mostrei minha identidade... nada! Foi necessário que um dos vigilantes subisse à sobreloja para chamar um dos gerentes. Qualquer pessoa medianamente sensata pode avaliar a minha vontade de matar dez. Não poderia desistir porque tinha que resolver o problema de uns honorários recebidos do exterior.
Houve, eu sei, um acentuado aumento das estatísticas no que se refere à criminalidade feminina. Antes, a gente nunca desconfiaria de um casal que se aproximasse, ou de uma ou duas mulheres juntas... agora, infelizmente, não podemos nos descuidar. Pelo que andei lendo, a maioria das criminosas entra no crime para acobertar o marido, o companheiro, ou filhos, não sendo frequente, pelo que parece, uma iniciativa pessoal. Em geral, o delito é por tráfico, e são muitas as que são apanhadas quando levam drogas para dentro do presídio, na hora da visita àquele que está lá dentro. Ficam os dois, então. É bem menor o número de condenadas por latrocínio ou homicídio, crimes mais cometidos pelos homens, embora isso não queira dizer que não tenhamos, entre nós, mulheres, algumas que ficaram até mesmo na história pelo que andaram aprontando.
Quando penso em mulher delinquente, no Brasil, lembro-me logo da Lili Carabina, imortalizada nas telas por Betty Faria. Djanira, seu nome verdadeiro, deu um trabalho danado à polícia nos anos 70. Usava uma peruca loura para seduzir todo mundo (Ah! As louras, sempre as louras!). Suas penas, somadas, ultrapassavam 100 anos... e incluíam condenações por homicídio, latrocínio, assaltos, tráfico de drogas, e mais outras coisas bastante assustadoras. Na última fuga da cadeia, levou tiros na cabeça e ficou com um dos lados do corpo prejudicado. Morreu um ano e pouco depois de liberada, dizendo-se arrependida e uma interessada estudiosa da Bíblia. Para confirmar o que comentei antes, seu primeiro crime foi matar os dois assassinos de seu companheiro... que era traficante!
Hollywood também produziu um célebre filme sobre uma das mais famosas criminosas americanas, a Bonnie, aquela do Clyde. O casal morreu em 1934, depois de três anos e pouco de muita encrenca no tempo da Grande Depressão. Muitos experts dizem que ela, na verdade, nunca disparou um só tiro, e que foi seu sex-appeal como amante de um bandido considerado menor que acabou fazendo com que o mito superasse a realidade, e a caça aos dois tenha ocasionado umas tantas mortes desnecessárias. Nunca vamos saber de tudo.
Essa história toda é para dizer que, com a fértil imaginação que me é característica, concluí que não consigo entrar nos bancos porque lembro alguma criminosa famosa... Quem sabe sou parecida com a Betty Faria de 1989, quando filmou a Lili Carabina? Ou a Faye Dunaway, em 1967, fazendo par com Warren Beatty, o Clyde da telona? O drama é que logo caio na real, conscientizo-me da minha faixa etária e chego à conclusão que a televisão deve ter mostrado alguma assaltante idosa, uma daquelas chamadas de Vovó do Pó, e estão me confundido com a tal zinha. Só pode ser, pois não há explicação lógica para essa dificuldade em entrar no banco.
E se eles acham que sou uma velhinha meliante, e que estou ali para assaltá-los, o que supõem que eu esteja querendo comprar com o dinheiro eventualmente apurado? Será que descobriram que meu sonho de consumo é comprar uma garrafa de champagne Arman de Brignac, que custa a bagatela de R$2.200,00 nas boas delicatessens do Brasil? Aquela linda garrafa dourada que combina com meu lado perua, cujo sabor tem que ser uma maravilha... por esse preço! Ou por que desejo investir uns R$30.000,00 em uma garrafa da melhor safra do Chateau Mar Gaux? Pois é... se continuam me impedindo de acessar minha conta bancária, não poderei atender meus desejos mais profundos. E onde fica minha liberdade de ir e vir, direito garantida pelo artigo 5º, da Constituição Brasileira?
Mesmo não tendo o tal perfil da maioria das criminosas, pois não tenho marido, companheiro ou parente envolvido em crimes, não me deixam entrar com facilidade. E, embora sempre sofra para entrar no meu própria agência, tapetes vermelhos são estendidos, portas são escancaradas e a imprensa toda vai prestigiar aqueles que, sem o menor pudor, tiram o dinheiro do povo. Entram em qualquer lugar sob uma chuva de aplausos...
É por isso que permaneço com sérias dúvidas se há mesmo necessidade de treinar os velhinhos para se livrarem dos bandidos nas saídas dos bancos. Caso os sistemas de segurança continuem a ser do jeito que são, nós, da terceira idade, cidadãos honrados, vamos acabar não conseguindo entrar neles sequer para sacar nossas minguadas aposentadorias.... O bom é que, não estaremos correndo risco algum de sermos assaltados. E eu, que devo ter a cara da “Vovó do Pó”, não vou conseguir pegar dinheiro para pagar meu IPVA que vence semana que vem! Tem alguém
aí que possa me ajudar?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

JAMES BOND EM WASHINGTON

Impossível resistir ao convite de Najat, amiga querida a quem não via desde 1996, e lá fui eu rever Washington depois de tanto tempo. Sempre gostei da capital americana em razão de seus maravilhosos museus, tanto os ligados ao Smithsonian Institute, quando os outros, autônomos, sempre do melhor padrão.
A cidade não mudou muito desde que a visitei pela última vez, e só não havia congelado naquele fevereiro porque a acolhida de Vera e Genard foi a mais calorosa possível. Dessa vez, o calor do verão já estava chegando, e pude revisitar o Monumento à Guerra da Coréia sem ter que andar com neve na altura dos joelhos. Não esqueço a sensação de congelamento que senti daquela vez e confesso que foi uma das muitas vezes em que questionei minha sanidade mental. Enfrentar uma temperatura de cerca de 8 graus abaixo de zero para visitar um monumento ao ar livre demonstra uma completa insensatez. Enfim, o monumento impressionou-me tanto que valeu o risco de pegar uma pneumonia dupla.
Desta vez, com uma temperatura bastante civilizada, pude passear em meio às estátuas em bronze dos soldados, todos como se a caminhar em um campo de batalha, É claro que ver esse batalhão comove mesmo que o dia esteja glorioso, ao lembrar a tragédia das guerras, de quanto o homem tem se mostrado insensato através de sua história... mas a sensação de solidão se aprofunda se a neve, cortante, insiste em cair.
Pude notar, agora, a belíssima idéia de quem projetou o monumento. Foram instaladas, em granito cinza polido, paredes de cerca de 2 metros de altura, onde foram “desenhados” muitos soldados. Assim, conforme os visitantes passam ao longo desse mural, as imagens se misturam. Temos, unidos, num mesmo espaço, aqueles que foram para a guerra e os que agora, com grande emoção, procuram homenageá-los.... Mesmo os que não morreram lá longe deixaram, nos campos de batalha, a melhor parte de suas vidas e a possibilidade de serem inteiros de novo. A emoção me pega de jeito.
A vantagem de se voltar a lugares já visitados é poder, com calma, descobrir que, mesmo o que se conhece, pode tornar-se uma bela surpresa. E foi o que me aconteceu. Em cinco inesquecíveis dias, consegui me divertir muito com tanta novidade.
Há algum tempo, tenho evitado os grandes museus. Como já comentei, o excesso de informação tira um pouco do deslumbramento que se pode ter. Nesse caso, discordo do “quod abundat non nocet”. Prejudica, sim. E, por causa disso, lá fui eu em busca do novo nos de pequena extensão.
Pensei que o Newseum fosse menor... não é um Louvre, com 17 quilômetros de galerias, mas é bem grandinho.. O prédio, moderno, tem sete andares divididos em 14 galerias, 15 teatros e várias lojas. Ouvi dizer que é o único museu do mundo que trata de por que razão e como as notícias são preparadas. Foi inaugurado em 1997, em um prédio menor, mas seus fundadores logo concluíram que deveriam concentrar esforços para montar um espaço de maiores dimensões e pudessem realizar o trabalho planejado. Fecharam em 2002 e somente em 2008 o novo museu, agora muito mais espaçoso, foi aberto ao público. Uma das galerias mais interessantes é a que apresenta, a cada dia, a primeira página original de 80 diferentes jornais do mundo inteiro. Seus organizadores dizem que o objetivo maior da instituição é difundir a idéia de que a imprensa deve ser livre, para que um povo seja realmente livre.
Em outra galeria, temos à disposição, em telas de computadores, todos os dias, a primeira página de jornais do mundo inteiro. Não consegui contar quantos jornais brasileiros enviam seu material para o Newseum, mas encontrei, pelo menos, uns cinquenta. Hoje, verifiquei que o site deles mostra 759 primeiras páginas de periódicos de mais de setenta países. Tinha das Ilhas Fiji, do Iran (!?!), de Andorra, da Rússia... Aproveitei para ler a primeira página do Diário de Borborema, de Campina Grande, mas não apresentava grandes novidades. Sem dúvida, esse museu vai ficar na minha lista de prioridades toda vez que voltar a Washington. É surpreendente!
A National Gallery já era minha velha conhecida, mas a National Portrait Gallery estava na lista de espera há anos. Uma das coisas que me atraiu foi descobrir o critério utilizado para a escolha do acervo. Não são levadas em conta a personalidade do retratado e a qualidade artística da peça. O objetivo é contar, através de pinturas, esculturas e, mais recentemente, de fotografias, a história do homem, do povo, do país e também do mundo.
Em minha agenda turística, também estava indicado o International Spy Museum, localizado bem pertinho da Portrait Gallery. A fila para entrar já era grande meia hora antes da abertura das bilheterias, o que demonstra o sucesso desse museu, e encontrei enorme variedade de pessoas se acotovelando pelas galerias.
Descobri coisas do arco da velha. Saber que Josephine Baker atuou como espiã foi uma surpresa e tanto. Tudo o que eu sabia era que fora uma showwoman bastante famosa, que havia se transferido para a Europa em razão da segregação racial que ainda reinava nos Estados Unidos, e que adotara 12 crianças de diferentes nacionalidades. Só agora descobri que a espertinha trabalhava para a Resistência Francesa, na Segunda Guerra, levando e trazendo fotografias e mensagens escondidas nas exuberantes roupas que usava em seus shows. Por esse relevante serviço, recebeu do governo francês, quando de sua morte, honras militares, tendo sido a primeira mulher americana distinguida com tal honraria.
Toda essa história de espionagem tem um charme danado. Ian Fleming, ele mesmo um agente do serviço de inteligência britânico, foi quem deu vida a James Bond, aquele que minha geração e algumas outras sempre adoraram. Os filmes fizeram sucesso desde o primeiro da série, “O Satânico Dr. NO”. Mas o primeiro livro que ele realmente escreveu foi Casino Royale, que só foi para as telas no século XXI. Ele morreu em 1964, tendo assistido a apenas dois filmes, E o mais famoso intérprete de 007, Sean Connery, não era o ator que Fleming queria como Bond. Não conseguia vê-lo como o melhor para o papel, o que vem comprovar que nem sempre o criador entende bem sua própria criatura...
A ficção traz histórias de todo tamanho e cor e que despertam grande interesse em muita gente, sobretudo porque a literatura e os filmes sobre o assunto mostram personagens cheios de glamour, extremamente corajosos e que sempre vencem o “mal”. Mas a vida real tem coisas muito mais mirabolantes para contar,
Não foi durante a “guerra fria” entre os Estados Unidos e a União Soviética que os espiões “nasceram”; na verdade, foi quando floresceram e ficaram famosos. A História da civilização tem registros de espionagem desde a época das dinastias egípcias, das chinesas, enfim, desde sempre o homem se valeu dessa atividade na tentativa de vencer seu potencial inimigo. Na verdade, o primeiro serviço institucional de inteligência só foi criado durante o reinado de Luiz XIV, o famoso Rei Sol. Antes, a atividade era exercida mais informalmente, sem a organização “estatal”.
E os “inimigos” não estão só na política, e a espionagem industrial também tem história Essa, atualmente, é tão – ou mais – requintada do que aquela que se infiltra nos diferentes países. Para se manter na liderança de vendas, as empresas se valem dos mais variados meios para obter informações de seus concorrentes, para que possam evitar grandes surpresas. Contratam ex-funcionários dos oponentes, infiltram agentes em postos importantes, chantageiam empregados, interceptam comunicações... enfim, fazem de tudo para descobrir que novidade está o outro preparando.
E o cinema não ia ficar fora disso. O último filme que assisti sobre o assunto foi “Duplicidade”, com Julia Roberts e Clive Owen. Eu esperava mais, embora sempre dê para divertir um pouquinho. O mais recente, intitulado “A Origem”, com Leonardo DiCaprio, acabou não entrando na minha agenda.
Chego a Washington e penso logo em Watergate... É a capítulo de espionagem dentro da própria “casa” melhor esclarecido do último século. Veio à tona boa parte do que os republicanos fizeram nos escritórios do Partido Democrático e, como resultado, vários assessores de Nixon foram condenados e mandados para a prisão. E o presidente americano, antes que as coisas ficassem ainda piores para o lado dele, renunciou. Temia o iminente impeachment e uma mais que provável condenação. Melhor cortar o dedo do que perder a mão. Como aos inimigos não damos as costas, a traição exercida por eles não é tão perigosa quanto a que nos preparam aqueles que estão perto de nós, rondando-nos com pele de cordeiro. Daí, a razão de os provadores dos reis terem sido figuras tão importantes - o perigo mora ao lado.
Há bem pouco tempo, um ex-agente da KGB que havia se transferido para o lado britânico foi envenenado e morreu de uma forma terrível. Não foram poucos os eliminados assim, e existe até mesmo uma corrente de historiadores que afirma que Napoleão foi vítima de envenenamento, por arsênico, e que não morreu de úlcera perfurada coisa nenhuma. Tais alegações têm por base estudos científicos realizados por especialistas da Universidade de Glasgow, que tiveram acesso a fios de cabelo do grande personagem, guardados durante gerações por descendentes de funcionários seus. Eu fico na dúvida... os tais fios seriam dele mesmo?
As armas usadas pelos serviços secretos são incríveis, de causar inveja à imaginação dos maiores e melhores ficcionistas. Que tal um guarda-chuva que dispara balas de cianureto? E um “inocente” cigarrinho com cicuta? O fato é que não existe dificuldade alguma para se conseguir um veneno eficaz - a Natureza os fabrica aos borbotões.! Podemos escolher entre os de origem mineral, vegetal ou animal... Os laboratórios preparam outras tantas substâncias poderosas. O flúor, por exemplo, é uma substância altamente tóxica, mas excelente, em dosagem baixa, para tratar das cáries. O iodo, outro perigoso veneno, da mesma forma tem excelente uso terapêutico. E volto a fazer referência à conhecida expressão “Quod abunda non nocet” ... Claro que não cabe ao falarmos de venenos!
O Brasil também tem histórias para contar. Nosso primeiro serviço secreto foi criado em 1956, pelo Juscelino, e recebeu o nome de Serviço Federal de Informações e de Contra-Informação – SFICI. Teve vida curto, pois em 1964 foi desativado pelos militares, que montaram o terrível SNI, sobre o qual não preciso tecer comentários... todos conhecem bem. Nos dias de hoje, temos a tal da Agência Brasileira de Inteligência, que já se viu envolvida em vários escândalos do tipo Watergate, um deles o caso dos grampos no BNDES.
Se um dia eu quiser escrever uma história de espiões, e conseguir mil informações interessantes sobre esses aparelhinhos tipo 007, vou entrar em contato com ex-agentes da CIA, do FBI, da KGB, do Mossad, do M16, a rede que é considerada, por unanimidade, a mais eficiente de todos os tempos. Esses ingleses...
E, chegada a hora de finalizar o texto, sinto-me do mesmo jeito que a grande maioria dos escritores fica quando se senta diante da folha em branco... agora, da tela em branco. O que vou dizer? Como arrematar toda a escrivinhação? A boa técnica fala em voltar ao parágrafo inicial, retomar o tema e, assim, fechar o trabalho. Vou fugir do conselho... Não vou falar dos maravilhosos museus que visitei em Washington, dando preferência a comentar o que li em “Caixa Preta”, do brilhante escritor israelense Amós Oz.
Mesmo que o tema do romance não tenha nenhuma relação com espiões, governos estrangeiros ou com a capital americana, pude encontrar coisas interessantíssimas – e polêmicas! - sobre alguns grupos sociais. Discorrer sobre essas pérolas me obrigaria a escrever mais umas trinta laudas, o que não é o caso. Vou restringir-me a uma observação daquele autor que me pareceu apropriada para falar dos espiões. Para evitar que, na minha ignorância, eu mude uma palavra e venha desmerecer o original, vou apenas transcrever: “Na medida em que a pessoa perdeu a auto-estima, sua razão de viver, o verdadeiro significado da vida, simultaneamente eleva-se, engrandece-se, glorifica-se, santifica-se a justificação de seu credo, sua nação, sua raça, do ideal que abraçou ou do movimento ao qual jurou fidelidade.” Isso pode nos ajudar a entender porque os agentes secretos se arriscam tanto. A causa ou país que escolheram defender instalou-se naquelas almas para preencher o vazio que incomodava.
Eu, que gosto um bocado de mim, prefiro uma vida mais comum, temperada com aventuras apenas medianamente extravagantes. E, seguindo a boa técnica, arremato dizendo - “Vá a Washington... os museus são fantásticos!”

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

UM LUGAR CHAMADO TEXAS
Maio de 2008
A palavra TEXAS tem origem indígena, como têm as designações de tantos outros lugares aqui da América. Veio do termo tejas, que é como se pronuncia, em Espanhol, o vocábulo tayshas da língua dos Hasinai, que significa amigo, aliado. É uma terra bem antiga, e especialistas, com auxílio do carbono 14, comprovaram que povos bastante desenvolvidos viveram por aqui, com evidências de tribos estabelecidas há mais de 11.000 anos!

É impressionante como o Espanhol é falado aqui nos Estados Unidos. Isso se deve não só à imigração de latinos no último século, que fazem de tudo para ficar por aqui, na esperança de uma vida melhor; no caso específico do Texas, como essas terras fizeram parte do México, que as perdeu em definitivo em 1848, no final da Guerra Mexicano-Americana, a língua original permaneceu com bastante força. Por não aceitar a anexação, aos Estados Unidos, da República Independente do Texas, que havia declarado sua independência em 1836, o México resolveu brigar para ter as terras de volta. Com a derrota, acabou sofrendo um prejuízo ainda maior, e lá se foi a área que hoje é formada pelos estados da California, Nevada, Utahm Novo México,
Texas, e parte do Arizona e do Colorado, ou seja, quase um terço do atual território americano. O Espanhol, então, marca sua presença, como se a querer lembrar a todos a origem das terras. O apelido do Texas é Lone Star State, por causa da estrela solitária da bandeira, que ostenta o vermelho, o azul e o branco; ela é praticamente igual à do Chile e só agora deixei de confundir as duas.
Segundo maior estado dos Estados Unidos, é também o segundo mais populoso, com aproximadamente 23 milhões de habitantes pelo censo de 2006. Só perde para a Califórnia, considerada um paraíso por muitos americanos e outros tantos forasteiros, que para lá se mudam. Talvez inspirados em Lulu Santos, que um dia avisou que ia para a Califórnia, viver a vida sobre as ondas, ser artista de cinema, pois o destino dele era ser star.
O território texano caracteriza-se por interessantes contrastes. As regiões ao norte e a leste apresentam rios, lagos e florestas, enquanto o sul e o oeste têm um clima mais árido, desértico em vários pontos. Há regiões em que você dirige horas e horas seguidas com a impressão de que não vai chegar a lugar nenhum, que se perdeu para sempre. Sentia-me, nessas viagens, como nos filmes - as estradas vazias, terra avermelhada ao redor, muitos cactus e, de repente, aparece um carro, e o motorista é um serial killer! Para compensar esses vazios, em outros pontos do estado, as cidades são tão próximas umas das outras que parecem ser uma só. De Houston, por exemplo, já não se sabe bem onde começa ou acaba.
Nos locais menos populosos é que surgiram os cowboys que são, hoje, um dos símbolos do estado. O interessante é que não estão apenas nas áreas rurais, e em todo canto há homens usando aquele típico chapéu e com botas bem características. Nas primeiras vezes que os vi, pensei que só estariam faltando os revólveres e as espingardas. Ledo engano, pois é o estado onde mais se vendem armas! Qualquer cidadão residente pode ter uma arma não registrada, desde que seja menor do que uma metralhadora ou do que um lançador de granadas. Pode até andar no carro com ela carregada, se o destino for um outro condado fora de sua origem, passando por um terceiro?! Mesmo sendo advogada, não consegui entender a razão desse terceiro condado. O problema é que nem mesmo o Departamento de Polícia tem idéia do armamento espalhado pelo Texas. Mesmo assim, a taxa de criminalidade é bem inferior a outros estados americanos.
A partir do início do século XX, o Texas, um estado agropecuário, viu sua economia diversificar-se e, atualmente, são as indústrias petrolífera e aeroespacial e o setor financeiro que possuem maior importância no seu desenvolvimento. São quilômetros e mais quilômetros de instalações petrolíferas, um movimento intenso de caminhões... realmente uma potência. Ë, sem dúvida, o estado que apresenta as melhores condições para superar os problemas trazidos pela recente crise. Sempre que penso em filmes passados no Texas, imagino naquelas cobras todas tentando pegar o personagem principal, o que sempre me pareceu um exagero, com cobras demais. Na verdade, é isso mesmo. São 72 tipos diferentes, sendo que 15 representam real perigo aos humanos. E as aranhas? Novecentos tipos diferentes! Felizmente, só duas são perigosíssimas, e uma é a nossa conhecida viúva negra. As outras 898 apenas assustam. E existem, nos parques, as Fire-Ants... só pelo nome já se adivinha que a picada dessas formigas queima como fogo.
Não são as cobras ou as aranhas aquilo que mais assusta mesmo todo mundo. São os furacões. O mais fraquinho tem ventos de 120 kilômetros por hora, e o mais forte passa de 250. Ainda não consegui entender direito a diferença entre furacão, ciclone, tornado e tufão, mas sei que todos são terríveis. E esses fenômenos aqui acontecem com freqüência. Se o furacão for dos mais fortes, o alerta é para que todos saiam de perto do litoral e procurem cidades mais para o interior. São milhões de pessoas de carro pelas estradas, e percursos que durariam 1 hora são percorridos em quase 20 horas. Por sorte, só peguei tempestades tropicais, também assustadores, mas os transtornos que causam são bem menores. Nos últimos anos, os piores furacões foram o Katrina e o Rita. Em 2005, o Katrina desalojou cerca de um milhão de pessoas, e o Rita, logo depois, fez estragos nas Bahamas, em Cuba, México e Estados Unidos. Importante lembrar que os nomes de furacões não são apenas femininos, como muitos engraçadinhos gostavam de contar - também são masculinos! Existe uma relação de nomes já definidos por um organismo internacional, que se repetem a cada seis anos. Os mais violentos têm sua denominação retirada da lista, talvez por superstição. Mas esses dois mais recentes, realmente terríveis, tinham nome de mulher...
E como sempre tudo tem dois lados, acabei descobrindo que os furacões desempenham importantes funções ecológicas – servem para renovar os mangues, reequilibrar a atmosfera e restaurar a salinidade dos estuários. Isso dá algum conforto aos que sofrem com as consequências? Por certo que não, mas não podemos negar que são necessários.
Novo assunto. Na Primeira Guerra Mundial, a frota de navios americanos foi escoltada para a Europa por um navio de guerra que homenageou o estado - USS Texas. Na Segunda Guerra, participou do desembarque na Normandia e foi “aposentado” em 1946, sendo, hoje, um museu flutuante. Em sua longa trajetória como um dos mais importantes vasos de guerra americanos, sofreu somente uma baixa, o que é um recorde bastante interessante. Na visita a esse ponto histórico, descobri que a Coca-Cola é mais antiga do que eu. No refeitório dos marinheiros, há uma máquina do refrigerante mais conhecido do mundo com sua inconfundível marca registrada. Foi produzida, primeiramente, como nova versão de uma bebida francesa, em 1884, ainda contendo álcool. Em razão de leis que proibiam a produção e ingestão de bebidas alcóolicas, seu inventor, em 1886, desenvolveu uma nova fórmula que não contrariava a lei. De início, foi vendida como medicamento, tornando-se logo bastante popular, pois diziam que curava dor de cabeça, neurastenia, dispepsia e, acreditem, impotência. Imaginem só. Era vendida em máquinas e somente em 1935 passou a ser comercializada em garrafas. Cheguei a fotografar uma dessas primeiras máquinas, bem semelhante a uma bomba de gasolina. Em latas, só em 1955.
Voltando ao Texas, descobri que tem várias cidades com nomes interessantes e que algumas apresentam coisas diferentes, insólitas mesmo. Paris, por exemplo, a melhor pequena cidade do estado, tem até uma réplica da Torre Eiffel. Só que com um chapéu de cowboy no alto. E que é vermelho! Gustave Eiffel, lá do céu, deve ter ficado louco quando viu isso. Seu maravilhoso projeto foi alterado e ganhou um adereço que não combina com a obra. Mais uma coisa diferente? Vá até Hunt, onde poderá visitar a réplica de Stonehenge, cuja altura equivale a pouco mais da metade do monumento original na Inglaterra, e que tem quase a mesma circunferência. Para completar, estão lá também réplicas das estátuas encontradas na Ilha de Páscoa. Pisa tem sua torre inclinada? A cidade texana de Groom tem uma também... só que é uma torre com um reservatório de água. Pensa-se logo que perdeu o prumo por causa de um furacão, mas não foi nada disso. Para atrair mais fregueses para seu restaurante, o dono do estabelecimento contratou engenheiros que atenderam ao seu sonho maluco e projetaram com a inclinação. O restaurante pegou fogo há algum tempo atrás e não existe mais. A torre, no entanto, continua inclinada e chamando atenção. Talvez sobreviva à maravilhosa torre italiana.
Confesso não saber qual dessas idéias é a mais estranha, mas um dos mais fortes candidatos é o Cadillac Ranch, em Amarillo, junto à histórica Rota 66. Um milionário excêntrico juntou dez cadillacs usados, daqueles “rabo de peixe”, e enterrou-os em seu campo de trigo até a metade, deixando de fora só a traseira. Os visitantes são convidados a ilustrar as carrocerias, cada um escrevendo o que quiser, desde declarações de amor eterno, passando por estranhas mensagens ao mundo e chegando a manifestações delirantes. Os menos ousados preferem escrever apenas o nome ou as iniciais. Entretanto, quando a excentricidade faz com que um milionário chinês reconstrua a Cidade Proibida de Beijing, talvez possamos aplaudir de pé. Temos, em Houston, uma espécie de parque temático histórico, que é realmente um assombro. Em réplicas com 1/3 do tamanho original, podemos ver o exército de 6.000 soldados em terra-cota do Imperador Qin. E a cidade em si apresenta-se com um vigésimo do tamanho original. Não sei se procede a informação, mas soube que os próprios chineses que moram no Ocidente preferem vir ver essa aqui a enfrentar toda a burocracia para ir até a China.
E como se não bastasse, surpreendi-me, há alguns dias, com uma das paisagens mais belas que já vi. Eram oito e meia, e a noite acabara de chegar. O Centennial Park, todo gramado, parecia um lago verde, margeado por árvores majestosas, belíssimas... não se vislumbrava uma única construção. No céu do mais puro azul escuro, uma enorme lua cheia, dourada, mas tão dourada, que custei a acreditar no que estava vendo. Emocionada, torci pelos que, naquele momento, sonhavam com seus amores. Implorei aos poetas que pensassem suas rimas e, com a magia daquela lua, encantassem as palavras e fizessem nascer os mais belos poemas... Era a Natureza, vitoriosa, exuberante. As estrelas, escondidas, não quiseram aparecer, humilhadas com tamanha beleza. O Texas me oferecia um céu para que eu nunca mais pudesse esquecer essa terra que, honrando seu nome, fez com que eu me sentisse em casa, entre grandes amigos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

APROVEITANDO PARA DAR UNS PALPITES
Setembro de 2010.

Para animar ainda mais o encontro de amigos, Emidio e eu passamos alguns dias procurando coisas divertidas... e conseguimos um material bastante interessante. Olhamos adesivos em jornaleiros, viajamos pelo fascinante universo do Google e, finalmente, folheamos muitos livros. Recortamos, então, versos de grandes poetas, pescamos pérolas de alguns filósofos, enfim, bebemos em incontáveis fontes de informação. Para o bem e para o mal.
Do que escolhemos, selecionei umas poucas coisas que não necessariamente são as melhores que foram ditas ou escritas, mas me parecem apropriadas para palpites. Outras se bastam... nem mesmo vou comentar, apenas transcrever
Tenho certeza de que Martha Medeiros e eu não fomos criadas pela mesma mãe, a minha no caso, mas a poeta pensa igualzinho à D. Eny, que afirmou, quando eu beirava os 30 anos, que quem tem juízo não se diverte. Vejam que belos versos a escritora gaúcha escreveu sobre isso: “Mesmo tendo juízo/não faço tudo certo/todo paraíso/precisa de um pouco de inferno”
Dela, trago, ainda, outra idéia bem interessante – “Tenho urgência de tudo que deixei para amanhã”. Na mesma linha, Picasso tinha dito: “O que já fiz não me interessa/Só penso no que ainda não fiz”. Nem vou tentar inventar outro jeito de dizer a mesma coisa – vou apenas concordar!
Oscar Wilde foi outro que sempre me encantou, e não foi difícil conseguir dezenas de pérolas dele. Escolhi três. A primeira é “Todas as pessoas fascinantes têm vícios: está aí o segredo de sua fascinação.” Agora que entendi essa história toda, vou colecionar outras tantas, vamos dizer, manias... pode funcionar!
Como ele adorava polemizar, foi bastante ácido quando diagnosticou: “As mulheres malvadas nos atormentam... as boas nos aborrecem.” Não parou por aí e afirmou que “Podemos resistir a tudo, menos às tentações.” Estaríamos, então, perdoados, por atender aos próprios desejos? Há controvérsias a esse respeito.
Por falar em tentações e mulheres malvadas, achei muito bom o que Picasso disse sobre a mulher ideal: “Um homem só encontrou a mulher ideal quando olhar seu rosto e vir um anjo e, tendo-a nos braços, ter as tentações que só os demônios provocam.” Ótimo tema para homens e mulheres discutirem noite a dentro.
Na verdade, não só as pessoas que têm vícios nos fascinam - é claro que também as pessoas que se mostram sensíveis são irresistíveis, Quando li “A menina que roubava livros”, de Markus Zusak, fiquei encantada com o jeito simples de filosofar do jovem escritor australiano. Impossível encontrar quem discorde de que “É difícil não gostar de alguém que não apenas nota as cores, mas fala delas.”
E falando em sensibilidade, não poderia deixar Charles Chaplin de fora. A maioria de nós apenas se lembra de suas comédias do tempo do cinema mudo, comédias que derramavam poesia e, por vezes, faziam a gente chorar. Do que dizia o genial criador de Carlitos, escolhi “Não devemos ter medo de confrontos. Até mesmo os planetas se chocam. E do caos nascem as estrelas.” Bem, modus in rebus. Alguém quer discutir isso?
Nessa busca de coisas interessantes, por certo esbarrei em Nietzsche, filósofo que, confesso, às vezes me irrita. Não tenho mais idade para ser hipócrita e esconder meus gostos e desgostos. Ele adorava falar mal das mulheres e, por mais que eu consiga dar um desconto em nome de sua obra como um todo, não gosto disso. Assim, para me ajudar a ser imparcial, lembrei-me de que ninguém é lúcido o tempo todo. Abandonando minha implicância, pude trazer duas maravilhas dele. Ambas falam do amor, da razão e da loucura, e nem sei de qual gosto mais. Vocês podem escolher entre “Há sempre um pouco de loucura no amor. Mas existe sempre um pouco de razão na loucura” e “O amor é o estado em que o homem é capaz de ver as coisas tal qual elas não são.” Acrescento o ditado popular – “O amor é cego...e surdo, também!”
No momento em que pensei na Arte, não resisti, fui em busca de Nietzsche de novo, e não vou discordar de uma vírgula do que encontrei! Que tal “Temos a arte para não morrer da verdade”? Com mais vigor, afirmou que “A arte deve, antes de tudo e em primeiro lugar, embelezar a vida e, portanto, fazer com que nós próprios nos tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros”. Desse jeito, vou acabar achando Nietzsche o máximo.
Deixo sempre bem claro que detesto quando alguém fala na “terceira idade” ou na “melhor idade”. Ainda não acharam palavras apropriadas para essa fase da vida em que a maioria de nós ainda tem uma grande dose de energia vital, que ainda sonha, constrói, aproveita a vida e tudo mais, mas que, não há como negar, já dobrou a esquina. Ouvi, outro dia, uma definição engraçada – a juventude da velhice é a “juventice”. De qualquer forma, o termo velhice é meio assustador. Para nos consolar, Picasso dizia sempre que “Leva muito tempo para nos tornarmos jovens.” E quem levar essa idéia a sério pode aproveitar muito de todo o tempo que ainda nos resta. Eu tenho conseguido!
Hoje, dia 7 de setembro, nossa comemoração da Independência é mencionada na campanha eleitoral que toma conta do país inteiro. Cabe lembrar que o fantástico Bernard Shaw, um dia qualquer lá atrás, escreveu uma jóia com a qual muitos concordam sem pestanejar – “Ele não sabe nada e pensa que sabe tudo. Isso aponta claramente para uma carreira política”. Triste, mas verdadeiro, não?
Aproveitando o feriado chuvoso, tinha pensado em dar mil palpites sobre tudo isso, mas logo percebi que não havia muito a dizer. Escrevi um pouco para não apresentar apenas uma sequência de pensamentos, e também por ser uma palpiteira e tanto. Mas todos os comentários são desnecessários. Termino, então, com algumas raridades/barbaridades que não devem ser levadas a sério. Resolvi trazê-las apenas a título de curiosidade, certa de que os homens que estão à nossa volta jamais concordariam com o que está escrito.
“Todas as mulheres que seduzirem e levarem ao casamento os súditos de Sua Majestade mediante o uso de perfumes, pinturas, dentes postiços, perucas e recheios nos quadris, incorrem em delito de bruxaria e o casamento fica automaticamente anulado.”
(Constituição Nacional Inglesa do século XVIII)
“O pior adorno que uma mulher pode querer usar é ser sábia.” (Lutero - século XVI)
“A mulher deve adorar o homem como a um deus. Toda manhã, por nove vezes consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados, perguntar-lhe: - Senhor, que desejais que eu faça?” (Zaratustra – filósofo persa – século VII A.C)
“Inimiga da paz, fonte de inquietação, causa de brigas que destroem toda a tranqüilidade, a mulher é o próprio diabo.” (Petrarca – século XIV)
Foram lembrados, aqui, grandes pensadores, poetas, enfim, pessoas consideradas geniais. Mas o autor (anônimo) que nos legou a filosofia “etílica” que encerra essa conversa foi, sem dúvida, muito criativo – “A cachaça e a cerveja são os maiores inimigos do homem. Mas o homem que foge de seus inimigos é um covarde!” Com uma caipirinha de maracujá na mão, convido todos - Vamos à luta!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O SONHO DE ÍCARO

O avião ainda taxiava na pista do aeroporto em Dallas, quando ouvi a aeromoça avisando, pelo sistema de comunicação, que nove pessoas haviam desafivelado o cinto de segurança antes da autorização do capitão! Que colocassem o cinto novamente, sob pena de terem o número de seus assentos divulgados! Ou seja, todo mundo saberia quem eram os infratores. Imaginei-me estrela” do Big Brother, vigiada a cada segundo! Não posso fazer uma bobagenzinha sequer e sou logo descoberta. George Orwell, sem dúvida, sabia das coisas, e 1984 não pode ser considerada obra de pura ficção. Assustador, não?
Adoro viajar, mas confesso – morro de medo de avião. A preocupação se instala no momento da emissão do bilhete aéreo, e o pavor vai e volta o tempo todo. Resisto bravamente e não desisto nunca. Especialistas dizem que o avião é o meio de transporte mais seguro e, felizmente, todas as estatísticas confirmam. Levantamento feito nos Estados Unidos, englobando um período de cinco anos, mostrou que as mortes em desastres aéreos corresponderam a 0,08% do total, enquanto as fatalidades nas estradas somaram 39%! Estar num carro é 487 vezes mais perigoso do que andar de avião. E mais! As atividades domésticas nos expõem a acidentes 224 vezes mais do que viajar pelos céus. Cada vez que me atrevo a cozinhar, tenho consciência de que o perigo me ronda e, por isso, decidi visitar pouco essa área do apartamento. Por que correr o risco de me cortar com uma faca afiada, ou sofrer uma queimadura dolorosa?
Tais números não me deixam mais calma... o medo é irracional, eu sei, como todos os outros que carregamos vida afora. Provavelmente, é porque não posso abrir a janela e pular para o chão, e também porque o piloto não vai estacionar para que eu desça, caso seja preciso. Psicólogos dizem que esse medo tem a ver com receio de mudanças, pavor de coisas novas, e coisas do estilo. No meu caso, todos sabem que isso não faz o menor sentido... precisam descobrir outra razão para me explicar.
O ser humano, desde que tomou consciência do mundo, quis voar, e temos Ícaro talvez como o mais famoso dos aficionados. Depois que conseguiu fugir do Labirinto de Creta com as asas que seu pai, Dédalo, havia fabricado, não quis mais parar. Inebriado pela sensação de liberdade que sentia, aproximou-se demais do Sol, como sabemos, e acabou morrendo afogado no mar onde caiu.
Nós, brasileiros, temos Santos Dumont, considerado pioneiro da Aviação por nós e pelos franceses. Aqui nos Estados Unidos, como na maioria dos países, são os irmãos Wright que levam o crédito. Consta que esses dois voaram três anos antes do 14-Bis dar seu show, mas fato é que não foi um vôo com motor aeronáutico, não houve testemunhas e, o mais grave, não estava lá um comitê científico para aprovar o feito. O “avião” deles foi catapultado, tendo apenas o mérito de se manter um tempo no ar... e isso me parece bem diferente do vôo realizado pelo nosso brasileiro.
Vindo de família próspera, Santos Dumont pode aperfeiçoar seus conhecimentos de mecânica na França, onde, em outubro de 1906, realizou o primeiro vôo com um aparelho mais pesado do que o ar, que havia levantado vôo por seus próprios meios, sem o auxílio de catapultas. O 14-Bis cumpriu um circuito pré-estabelecido, na presença de especialistas do Aeroclube da França e de testemunhas, percorrendo 60 metros, a 2 metros do chão. Menos de um mês depois, diante de muitas testemunhas, nosso gênio conseguiu voar a cerca de 6 metros de altura por 220 metros! Digam o que disserem, para mim, é ele o pai da Aviação. Foi uma pena que ele não tenha patenteado suas invenções, como fizeram os outros de sua época. Seria a prova perfeita para apresentar aos fãs dos Wright. Ele era, provavelmente, um ser humano modesto, a quem não interessavam as honrarias. Não pude comprovar, mas li que, embora eleito para a Academia Brasileira de Letras, não assumiu a cadeira que lhe foi reservada.
Nosso Ícaro não se afogou no mar. Apressou sua partida definitiva para o céu, em 1932, afogado num mar de desilusão e de tristeza ao ver seu invento usado para levar a morte, durante a Primeira Guerra Mundial. Uma pena.
Para alegrar essa conversa, mudo de assunto. Voltava da Philadelphia para Houston e, como tinha pouco tempo até a hora do embarque, não quis me atracar com o livro que levava na bolsa. Achei que seria muito mais interessante apreciar o espetáculo da vida, cujos atores são as pessoas que transitam por aí, a maioria sem ter tido, ainda, seus 15 minutos de glória. Eis que surge, empurrando um carrinho de bebê rosa, uma loura cinquentona, corpo bem feito recoberto por um conjunto de plush preto, uma daquelas a quem todos chamam de “perua”. A madame chamava atenção, sem dúvida. E logo, logo, todos ostentavam um sorriso debochado. Não era um lindo bebê que ia naquele carrinho: via-se uma cachorrinha poodle, daquelas mínimas, que bem parecia filha da Madame, uma verdadeira peruinha. Com mil lacinhos fúcsia, fazia o maior charme recostada na bolsa de fraldas padrão onça que também fazia parte do show.
Depois que as duas entraram no finger, a funcionária responsável pelo embarque comentou que se diverte muito observando quem passa por aquela sala de espera. Não mencionou diretamente o carrinho de bebê com a cachorrinha, mas era óbvio que era isso que a fazia rir. Toda essa história me distraiu e, quando entrei no avião, sentia menos medo.
A tal funcionária deve ter estímulos de todo tipo para se divertir, pois o movimento nos aeroportos americanos sempre me impressiona, mesmo acostumada a ir também à Europa, onde está o aeroporto com maior volume de vôos internacionais, o Heathrow, em Londres. Mas aqui nos Estados Unidos, as estatísticas são, realmente, um assombro.
Tenho vindo para Houston pela Delta, que oferece bons preços e viagens bem confortáveis. É obrigatória a escala em Atlanta, que tem seu aeroporto de inacreditáveis dimensões sempre lotado. São 182 pontos de embarque, com 1.300 vôos diários para 150 destinos internos e 95 no mundo afora. Em 2008, foram nada mais, nada menos do que 978 mil pousos e decolagens, com 90 milhões de passageiros passando por seus terminais. Ouvi dizer que ultrapassou os números do de Los Angeles, igualmente enorme e freqüentado. Para se ter uma idéia desses dados, é só comparar com o nosso Galeão, que tem vôos para 32 destinos no Brasil e 19 internacionais.
Falando em Brasil, temos uma estatística muito desagradável no que se refere ao aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, que é o sexagésimo sexto em movimento no mundo e, ao mesmo tempo, o terceiro em número de vôos atrasados!
Goethe perguntava – “Almejas voar, mas temes ficar tonto?”. Fico bastante tonta com os vôos de minha fértil imaginação, que me leva muito mais alto e mais longe do que qualquer avião ou foguete levaria. Sinto-me para além desse universo conhecido. Deve ter sido essa tonteira gostosa que os sonhos nos causam que levou Cecília Meirelles a nos dizer: “Liberdade de voar num horizonte qualquer, liberdade de pousar onde o coração quiser.” E lá vou eu, ao sabor do destino e da imaginação, decidindo, sem medo, onde vou querer pousar.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O PARAISO PERDIDO
Maio de 2010.


Os primeiros que o perderem foram Adão e Eva. Essa história da maçã e da serpente é uma grande complicação. A versão dada pela cultura judaico-cristã é aquela que conhecemos bem - eles foram proibidos de comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal; como desobedeceram, acabaram expulsos, deixando-nos, como herança, o pecado original. Eduardo Duseck, em seu CD Adeus, Batucada, canta que, por causa da serpente tentadora, o nosso Mestre os expulsou do Paraíso, mas que, para compensar, o coração de Adão, que era pobre, pobre de amor, cresceu e multiplicou o delicioso pecado original.
Já segundo o Alcorão, Deus acabou perdoando os dois, que vieram para a Terra como seus representantes. Adão é considerado um Profeta, na tradição islâmica. Interessante também é que uma das correntes dessa religião, corrente bastante importante, não considera que teria sido Eva a induzir Adão ao pecado. Ambos seriam responsáveis pelo que fizeram, enquanto que, para cristãos e judeus, Eva, pelo que fez, tornou as mulheres para sempre “culpadas”.
Descobri, para minha surpresa, que a versão sobre os filhos de Adão e Eva no Islamismo assemelha-se bastante ao Caim e Abel da Bíblia. Dentre outras coisas em comum, deparei-me com os Anjos Gabriel e Miguel atuando junto a Deus, e vi que, além do Adão, Noé, João Batista, Moisés, Abraão e, nada mais, nada menos, do que Jesus Cristo de Nazaré são profetas citados no Alcorão! E ficamos brigando em nome de um Deus que é, reconhecidamente, o mesmo para todo mundo!
Quanto a essas duas figuras na arte e na literatura, soube que, num determinado período, muitos pintores entraram em crise. Como colocar “umbigos” em Adão e Eva, se eles não nasceram com um cordãozinho que os ligasse ao útero materno? Alguns artistas, então, procuravam disfarçar essa área do corpo dos dois, cobrindo com a mão ou com folhas de parreira, para não terem que, de certa forma, posicionar-se quanto a essa questão. Curiosa, fui conferir num livro a “Criação de Adão”, de Michelangelo, aquela no teto da Capela Sistina, e que é uma das pinturas que mais me tocam a alma. Ali, encontrei o umbigo.
Na literatura, também são personagens contados e recontados através dos tempos. Talvez John Milton tenha feito a mais completa “reportagem” sobre a vida deles, em seu célebre poema épico “Paradise lost”, do século XVI. Quem sabe um dia eu me aventuro e vou ler por inteiro sobre essa perda do Paraíso? Deve ter detalhes bastante interessantes...
O tempo passou, e a palavra “paraíso” ganhou outros tantos significados, a maioria sem qualquer sentido religioso. Aqui na Terra, cada um de nós tem o seu, ou melhor, os seus, dependendo a qual compartimento do dia-a-dia pretendemos nos referir. Quando alguma coisa nos agrada muito, acabamos qualificando como um paraíso.
Tem o fiscal, por exemplo, muito em moda atualmente... Esse é objeto do desejo da imensa maioria, mas enquanto alguns poucos chegam lá, os comuns dos mortais não têm a menor idéia para que lado fica. Em Brasília, estão alguns que sabem, e o que nós, cidadãos, sabemos muito bem é de onde sai o dinheiro que vai para esse tipo de paraíso... do nosso bolso, mas para a conta deles!
De vez em quando, a gente ouve falar de algum político que está ameaçado de perder o que colocou nesse “Jardim do Éden”. Mas se trata, sempre, de mera ameaça... Como pertencem a um grupo muito unido, todos acabam conseguindo preservar o que consideram de sua propriedade... Para eles, é um paraíso imperdível!
Nessa semana, tomei conhecimento de uma das mais terríveis perdas de paraíso que alguém pode sofrer - Helena, uma lourinha de 5 anos que mais parece um anjinho barroco, linda, com um sorriso aberto e sincero, é filha de um dos alunos de jiu-jitsu na academia do Vinicius. Como nem sempre o pai tem com quem deixá-la enquanto treina, ela ajuda Mônica no escritório, escaneando os cartões de presença dos alunos para depois guardá-los na mais perfeita ordem alfabética. Uma menina esperta, comunicativa, encantadora. Pois não é que está fazendo um cursinho de 3 dias para aprender a evitar seu próprio seqüestro? Isso é, realmente, inacreditável! E, por mais terrível que possa parecer, é real. Como o número de crianças seqüestradas nesse país é significativo, existem esses treinamentos. Enfim, dói ver que as sociedades são tão cruéis com suas próprias crias que precisamos fazê-las amadurecer antes da hora e roubar-lhes, assim, o paraíso da inocência.
E temos as aves-do-paraíso, um grupo com mais de 40 espécies diferentes. A plumagem dos machos é a característica marcante desses pássaros, enquanto as fêmeas apresentam uma cor muito da sem graça. Acredito que sejam todas dotadas de uma grande beleza interior, que é o prêmio de consolação que todos oferecem para nós que não nascemos Giselle Bündchen – dizem que o que conta, na verdade, é a beleza interior. Acreditar? Talvez seja bom... Em contrapartida, os machos são normalmente solitários, enquanto as fêmeas estão sempre em grupo, desfrutando de uma bela vida social.
Essas aves perderam o paraíso quando os europeus chegaram aos seus habitats, lá pelos lados da Austrália e Nova Guiné. Mataram todas as que puderam para tirar suas penas e, assim, enfeitar os chapéus das madames, ou para exibi-las aos amigos, já taxidermizadas. O resultado é que existem, hoje, de uma dessas espécies, pouco mais de 10 exemplares no mundo! Enfim, mais um paraíso perdido.
Eu, recentemente, perdi o maravilhoso paraíso dos queijos, dos sorvetes, enfim, de tudo que é feito com leite ou um de seus derivados. Estou com a tal da intolerância à lactose, por falta da enzima lactase. Acho que ainda se trata de mera intolerância, não um caso de alergia, que seria muito mais complicado. Mas não deixa de ser deveras desconfortável. Tenho que escolher com muito cuidado o que vou comer nos restaurantes, por exemplo. Na casa dos outros, pior ainda. Fácil imaginar a saia justa quando a anfitriã aparece trazendo, como prato principal, por exemplo, uma enorme travessa de um Fettucine Alfredo... ou uma pizza aos quatro queijos. O fato de não comer essas delícias é uma frustração daquelas, e que vem acompanhada da desconfortável necessidade de explicar a razão da recusa... sinto-me quase uma hipocondríaca. E a realidade é que estou sentindo uma falta danada de um sundae de caramelo com duas enormes bolas de sorvete de creme! De um estrogonofe com muito creme de leite, de morango com creme... de muita coisa mesmo.
Pois é, cada um de nós já perdeu um paraíso, ou até mais de um... porém, podemos ter certeza de que tem sempre um outro ali na frente, esperando para dar o bote e nos fazer feliz. A gente precisa é reconhecer... e ir atrás, arriscando. E saber que não vem pronto, não, há que se trabalhar nele... Prontinho, foi só para Adão e Eva... E eles jogaram fora, justamente por não terem ajudado a construir... quem recebe pronto não dá valor. E mais, uns paraísos, para nos deliciarem depois, dão mais trabalho do que outros! Há que perseverar!
Cá entre nós, mesmo tendo perdido o paraíso dos queijos e de tantas outras coisas, continuo achando a vida um verdadeiro paraíso!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

ANDAR DE BICICLETA, DANÇAR E ... A GENTE NUNCA ESQUECE
Maio de 2010.


Depois de quase um ano sem participar do grupo de line dance do Senior’s Center de League City, voltei semana passada disposta a reaprender cada coreografia. Tinha saudades daquelas manhãs animadas, quando eu, além de exercitar minha perna prejudicada, aproveitava para dançar conforme a música. Eram valsas, charleston, country music, pop music; enfim, os mais variados ritmos.
Cheguei mais cedo um pouco e encontrei apenas uma senhorinha, de uns oitenta anos, muito animada, cabeça toda branca, que logo veio falar comigo. Perguntou-me se era minha primeira vez, e eu contei que frequentara o grupo por cinco meses, mas que tinha ficado muito tempo no Brasil, meu país. Foi super simpática, como todos quando conto de onde venho. Apresentou-se como Irene e foi logo me contando que tinha começado no início de janeiro, por insistências dos filhos, que não queriam mais vê-la enfurnada em casa.
Logo chegaram outros tantos “seniors”, alguns meus conhecidos. Entrou Diana, novata também, uma setentona de belo porte. E aí Irene, na maior sem cerimônia, foi logo perguntando como era mesmo o nome dela, pois não se lembrava e o esforço sobre-humano que fez não adiantou nada. Aproveitou para propor que todos sempre se reapresentassem ao chegar, para evitar constrangimentos. Ninguém podia se esquecer da idade dos componentes do grupo, todos, provavelmente, com memória fraca... Achei interessante essa auto-avaliação. O mais interessante é que a memória não funciona muito bem, mas a dança saiu perfeita! Ela não perdeu um passo!
Desde que acordara, estava preocupada, imaginando a terrível performance que apresentaria no meio de tanta gente mais velha do que eu, alguns bem mais velhos mesmo e que, pelo que me lembrava, faziam tudo muito bem. Eu pagaria um “mico” sem tamanho indo para a esquerda quando era para dançar à direita, e daí por diante.
Qual não foi minha surpresa ao perceber que conseguia executar a maioria dos passos com a bastante desenvoltura! Melhor dizendo, com razoável desenvoltura. Fiquei muito animada. E, para completar, Ruth Ann, que é a professora, anunciou no microfone que The Girl from Ipanema estava de volta. Depois dos animados aplausos e do rosto roxo de vergonha, continuamos a aula. Confirmei, mais uma vez, que tudo na vida é relativo - no meio de tantos idosos, acabei sendo a “garota”.
No final da aula, ainda sobrou conversa, e ficaram todos trocando idéias e se divertindo muito. As risadas eram deliciosas. A iniciativa de oferecer, aos idosos, atividades variadas, além da oportunidade de estarem juntos, é tão louvável, que fico penalizada de não termos, no Rio, algo parecido. É cobrada uma taxa de um dólar por cada participação, para ajudar na gasolina do professor. São todos voluntários e, ao final de cada aula, recolhem da cestinha o que foi “pago”. Ninguém controla - se pagar, pagou, se não pagar, não faz a menor diferença.
A organização é das melhores. Hoje, recebi a programação do mês e, para minha surpresa, vi indicado, no dia 11, o meu aniversário! Tudo feito, sem dúvida, com o maior carinho. Tem um grupo que vai só para jogar bridge, aquarela, desenho, mas a maioria vai mesmo para a line-dance, sapateado, jazzercise, e para a tal da Zumba Gold, que ainda não assisti, mas ouvi dizer que é a mistura das danças latinas – samba, merengue, salsa... Estou curiosa. Não sei se meu piloto automático vai funcionar nessa aula.
Domingo passado, fizemos uma apresentação de line-dance para doentes do M.D. Anderson Hospital’s, no hall do “hotel” que a Fundação Jesse H. Jones mantém para os pacientes que não moram em Houston. Enquanto estiverem em tratamento, ficam hospedados, sem pagar pelo quarto, em acomodações que me lembraram o Hilton Garden Inn, onde fiquei em Austin! Tipo hotel 4 estrelas! Fiquei impressionada. Em tempo, essa é a maior fundação privada do Texas, mantendo inúmeras atividades filantrópicas.
É claro que eu só me apresentei nos primeiros números, aqueles mais fáceis. Embora a “platéia” soubesse que éramos um non-professional group, de velhinhos animados e de boa vontade, eu não estava disposta a me expor ao ridículo. Quando começaram os números mais complexos, fui me juntar aos doentes que assistiam o “show” e aproveitei para aplaudir bastante cada dança apresentada. Enfim, levamos um pouco de distração a eles, e isso valeu a pena.
Aproveitadora de primeira linha, nesse grupo de seniors faço, ainda, aula de pintura com aquarela e de desenho. Hoje, a aula foi sobre perspectiva. Tive que desenhar um prédio visto de uma esquina, com postes de iluminação numa das ruas laterais. Acreditem ou não, fiz o melhor desenho de todos os participantes! Podem imaginar a falta de jeito do resto do grupo. Enfim, diverti-me enquanto estava lá, usei os meus “Tico” e “Teco” e saí me sentindo ótima. Lembrei-me das aulas de Desenho no curso ginasial do Instituto de Educação, com a Prof. Maria Elisa, que só faltava dar um tiro na cabeça quando via meus trabalhos. Não sei se o tiro seria na cabeça dela ou na minha. Acho que tudo que ela me ensinou estava guardadinho lá dentro, e eu fui soltando quando chegou a hora certa. Valeram as broncas pelos péssimos desenhos que fazia naquela época.
Depois do susto com o acidente de trânsito, em que vergonhosamente me atrapalhei com a inexistência de embreagem, estou dirigindo como se tivesse tido, sempre, carros automáticos. O processo já se incorporou ao cérebro, e nem presto mais atenção. Ao sair com minha neta Jade para que ela pratique o que vem aprendendo na auto-escola, fiquei ainda mais encantada com o sistema nervoso extrapiramidal. Ela está na fase de incorporar as informações ao dela... ainda tem que pensar para executar cada manobra. Mas, depois de algum tempo, vai poder, como todos nós, ir lá pegar de volta as habilidades quando bem entender. Isso é bárbaro.
Hoje, munida de toda a coragem, comecei a frequentar o grupo de sapateado. Vi entrar um senhor, provavelmente com mais de 80, que andava bem curvadinho, com os joelhos um pouco dobrados. Ele, simplesmente, pertence ao grupo de sapateado e, para minha melhor surpresa, executa todas as coreografias! Eu, entretanto, na minha primeira vez, apenas consegui fazer um barulho danado com os sapatos tacheados. Foi uma delicia ouvir o som... quando fechava os olhos, parecia que eu estava acertando todos os passos. Sentia-me herdeira de Ginger Rogers... faltava somente o Fred Astaire. Viva esse sistema nervoso extrapiramidal! Enquanto o de Patrick, o tal senhor, funciona perfeitamente para o sapateado, o meu ainda tem um longo caminho a percorrer.
Fiquei, então, pensando em quantas coisas a gente faz com a ajuda desse “piloto automático” extrapiramidal, e das quais nunca nos esquecemos. Sempre ouvi dizer que andar de bicicleta é uma delas. Nadar, escrever, também. Eu posso pensar em outras tantas que a gente nunca esquece, algumas delas muito interessantes... Não sei se é o tal do sistema, mas basta começar que tudo volta e o desempenho não fica nada a dever ao passado, remoto ou próximo. Não faz diferença! Podem acreditar! E aproveitar... Bendita memória muscular!