domingo, 4 de março de 2012

A ARTE E EU

Poucas meninas foram tão levadas quanto eu... arteira, diziam minhas avós. Deixava muitos meninos no chinelo e várias vezes fui "relaxar" lá fora para que os professores pudessem fazer o trabalho deles em paz. Tem gente que diz que, até hoje, continuo um pouquinho arteira.

Mas a Arte propriamente dita, de cuja história minha mãe era professora, sempre me fascinou, e com a idade fiquei mais encantada ainda. Aproveitando minha temporada aqui no Texas, fui ao Fine Arts Museum para uma fantástica exposição sobre Tutankamon. Os objetos encontrados na tumba do Rei-Menino, falecido aos 18 ou 19 anos, são realmente deslumbrantes, e adorei descobrir mais coisas sobre os faraós. Completei a tarde visitando a exposição permanente do museu, sem dúvida uma primorosa mostra da Arte através dos tempos.

No Museum District de Houston estão os principais centros culturais da cidade, e em alguns casos é possível ir a pé de um lugar para o outro. Dias depois de Tutankamon, voltei a Houston e fui revisitar The Menil Collection, importante espaço fundado em 1987 pela francesa Dominique de Menil. Ela e o marido vieram da França fugidos da segunda guerra e, com a fortuna que amealharam por aqui no ramo do petróleo, construíram, no final dos anos 60, a fabulosa Rothko Chapel. Após a morte dele, além da Collection, a Sra. de Menil mandou construir a Byzantine Fresco Chapel e a Cy Towmbly Gallery. Sem entrar em considerações mais profundas, cabíveis, sem dúvida, acredito que, de certa forma, pensaram em devolver ao país que os acolheu esses belíssimos centros culturais. A entrada é franca em todos eles.

Na Colletion, temos desde um objeto em terracota datado de 500 AC até obras da arte mais contemporânea do planeta, passando por Picasso, Magritte e outros tantos. Não se vê um texto explicativo, nada além do título da peça, do nome do autor, país, material usado, medidas, enfim, apenas os principais dados, para que seja possível usufruirmos das sensações que as obras despertam sem qualquer interferência do racional, do informativo.

Esquecida do mundo, acompanhava a trajetória do homem no seu modo de ver e retratar o mundo, quando de repente, não mais que de repente, vejo um queijo suiço de cera, cheio daqueles buraquinhos característicos, com a "casca" superior recoberta de longos e verdadeiros fios de cabelo! Eram mesmo humanos, como constava da ficha técnica. Para completar meu susto, logo na parede seguinte, vinha colado um livro antigo, das edições Penguin... nada mais além do livro grudado. Resumindo a ópera, a "arteira" aqui ficou olhando, olhando, provavelmente com cara de idiota. Será que esse livro está colocado de forma especial, e minha ignorância não permite que eu perceba? E esse queijo cabeludo quer dizer alguma coisa? O que é isto?

E não parou por aí. Na lojinha da galeria, encontrei a foto de uma famosa obra, já minha conhecida de outros carnavais, e que acho realmente assustadora. O artista, Edward Kienholz, americano, intitulou-a The Future as Afterthought. Quem tiver tempo, entre com o título no Google. Entendi na hora a mensagem, explícita e perfeita e, filosoficamente, assino em baixo; porém, é uma expressão artística muito agressiva, com a qual ainda não me acostumei. Consciente de minha ignorância, procuro entender, para que possa, um dia, aceitar e gostar Por isso, mesmo sendo um pouco como aquele menino da história da roupa nova do rei, não vou gritar: "- O Rei está nu"! Não sendo boba e certa de estar errada na avaliação, vou dizer bem baixinho se gostei ou não, e apenas para meus amigos.
A obra tem não sei quantas bonecas de plástico, algumas sem braço, outras sem cabeça, vários braços e pernas avulsos, tudo amarrado com fita gomada, no alto de uma coluna de madeira, daquelas que usamos para colocar vasos ou estátuas nos cantos da casa. Esse conjunto é complementado pela cabeça de uma boneca com expressão de choro, boneca essa que vem colada, solitária, sobre a base da coluna. Para mim, realmente, um pesadelo. É claro que o futuro é assustador, se pensarmos na superpopulação, na fome, na violência que grassa pelos quatro cantos do mundo e, sobretudo, na ameaça da bomba atômica. Em tempo - para transmitir isso, a obra lembra a nuvem-cogumelo da explosão nuclear. Esse pavor está presente em todos nós, mas é uma peça que não quero olhar muito e, por me incomodar, quero "passar batido".

Para continuar minha aventura pelo que mais recentemente vem sendo feito, fui ao Contemporary Arts Museum, um espaço pequeno mas sempre com exposições bastante interessantes. Estão agora com obras de vinte e duas artistas, e querem mostrar o quanto a arte feita por mulheres contribuiu para o desconstrutivismo dos anos 70 e 80. Vi coisas bárbaras, enquanto outras me animaram a colocar em prática várias idéias recentes, pois tenho a pretensão de achar que posso fazer coisas tão boas quanto algumas delas. Não se assustem, é um baita de um exagero, de autopromoção, apenas para criar um clima... mas realmente acredito que seja capaz de alguma coisa legal.

Numa das paredes, vi o cartaz preparado pelas Guerilla Girls com a denúncia de que apenas 5% das obras expostas no Metropolitan Museum de Nova York são de artistas mulheres, enquanto 83% dos nus retratados e das esculturas são femininos! Não é bem a presença que mais desejamos, e por isso temos que arregaçar as mangas e ocupar os espaços, já que espaço se ocupa, nunca nos é dado de graça. Em tempo, essas Guerilla Girls começaram a atuar em 1985, quando foi aberta uma exposição em NY com obras dos que seu curador considerava como os 169 "melhores" artistas da arte contemporânea. Nessa seleção, todos os artistas eram brancos, europeus ou americanos, e apenas 13 eram mulheres. O tal curador não conseguiu disfarçar seus variados preconceitos, tornando-se alvo das críticas de uma boa turma.

Depois da arte contemporânea, fui para a Byzantine Fresco Chapel, cujo nome já diz tudo. Datados do século 13, os afrescos vieram de Chipre e, segundo o acordo feito com a Fundação The Menil, pertencerão ad eternum ao governo e à igreja daquele país, que foi, bom lembrar, o primeiro lugar do mundo a ser governado por um cristão. Vieram "alugados". Simplesmente deslumbrante a concepção arquitetônica que une o antigo sagrado ao novo, já que foram usados, no prédio, concreto, aço e vidro e, no teto dessa construção super moderna, estão os afrescos ! A estrutura fragmentada do vidro traz uma leveza impressionante para um lugar sólido como qualquer outro templo religioso feito de concreto. Luz e sombra fazem igualmente um jogo de contraposição, como se a confirmar que o antigo se integra suavemente ao atual, trazendo um novo significado.

Para terminar o passeio, fui até a Rothko Chapel. O casal de Menil, que conhecia as capelas francesas com trabalhos de Fernand Léger e de Matisse, além da capela de Ronchamp, de Le Corbusier, decidiu construir uma em Houston na mesma linha. Para a empreitada, foi contratado o pintor Mark Rothko, que teve a mais completa liberdade para criar. O artista trabalhou com três importantes arquitetos, e foi construído um templo octogonal, capaz de abrigar 14 imensas telas pintadas por ele, Rothko.

Os dois corredores que nos levam àquele maravilhoso espaço oferecem, em duas prateleiras baixas, os livros sagrados das religiões com mais seguidores. Estão lá a Biblia, a Torá, o Corão, o Cânone Pali, do Budismo, todos em mais de uma língua.

No interior da capela, construída para que os fiéis das diferentes religiões possam meditar, encontramos apenas 4 bancos de madeira, em círculo, e as telas nas paredes. Como disse John de Menil - "É um lugar onde um grande artista, pensando no Absoluto, teve a coragem de pintar quase nada e fazer isso magistralmente." As telas, enormes, mostram apenas o preto ou o roxo, sem qualquer símbolo, nada que faça constraste, nada que direcione o pensamento... É de tirar o fôlego Temos a sensação de estar em solo sagrado, sagrado pela paz, pelo silêncio comovente dos que ali vão orar. Sente-se apenas o ser humano em sua mais profunda consciência. Quem vier por esses lados, não pode perder.

Uma obra de arte, segundo Hauser, é um desafio e, para interpretá-la, usamos nossos maiores esforços para encontrar um significado. É arte qualquer criação que nos afete, que nos desperte sensações, sejam elas quais forem. O artista, quando cria, deseja comunicar-se com cada um de seus espectadores, que reagirá com a alma, através de suas percepções, mas sempre com liberdade para gostar ou não do que está vendo.

Quando se trata de arte contemporânea, sinto-me dividida. Vejo coisas fantásticas, adoro Vik Muniz, Waltercio Caldas, e chego a me aventurar fazendo alguns objetos interessantes. Desses passeios culturais, devo dizer que achei o conjunto das obras muito bom, mesmo continuando desconfiada e sem entender bem algumas delas. Por outro lado, espero que todos me perdoem as heresias perante o compromisso que ora assumo de que vou me aprofundar no tema e deixar de falar besteira.

No final das contas, tenho certeza de que, ainda hoje, sou muito mais arteira do que artista. Sei que a definição de arte é controversa, sobretudo na filosofia contemporânea, e o que é vulgar para uns pode ser lírico para outros. Vou tentando, pelo menos, ser uma boa artista no palco da vida, nesse palco que não dá chance para um ensaio geral, mas que oferece, se prestarmos atenção, grandes possibilidades de mudança de enredo no segundo ato.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012


NA TERCEIRA JUVENTUDE

Curiosíssima, fui ver The Artist. Com a tecnologia presente, hoje em dia, de forma até mesmo assustadora, Hazanavicius ousou fazer um filme mudo, à moda antiga. Eu tinha visto no Zoológico aqui de Houston, há alguns dias, um 4D sobre nosso belíssimo planeta, mostrando uma natureza tão deslumbrante e tão real que, quando uma orca saltou para pegar seu alimento predileto, uma foca, senti respingos da água do mar no rosto. Pois é, com tantos efeitos especiais à disposição, o cineasta decide ficar no preto e branco, com legendas apenas em alguns momentos para sabermos o que os personagens dizem... e apesar disso (ou seria por causa disso?), faz um filme delicioso! Pensando bem, como negar a genialidade de filmes sem som como A Corrida do Ouro, O Garoto e as deliciosas comédias do Gordo e Magro?

A grande questão - quando o mundo se transforma. como nos adaptarmos ao novo? Como ter coragem para mudar se antigos padrões nos parecem tão acolhedores? O personagem permanece no que é conhecido, em sua zona de conforto - resiste e insiste, não se curva perante o inevitável e sucumbe. É o medo paralisante do novo, que mesmo oferecendo a possibilidade de ser maior e melhor, assusta a todos nós. A esposa, mera peça decorativa na grande mansão, com quem raramente estabelece qualquer diálogo, faz a pergunta - que sabemos qual é pela legenda, e que tem, no caso, duplo sentido:- "Por que não fala?" E eu acrescento - Por que não muda?

Voltando à tecnologia. Fiquei bastante impressionada ao ver duas senhoras que, estou certa, beiram os 80 anos, desligando os celulares apenas no último segundo antes do início do filme. Enquanto passavam os traillers, as duas mandavam e recebiam mensagens. E, mal acabou o filme, ligaram os aparelhos e recomeçaram. Ou seja, estão conectadas o tempo todo!. Eu, que me aflijo com os jovens e seus inseparáveis Iphones, Ipads, esses objetos que passaram a fazer parte do próprio corpo humano, fiquei abismada ao constatar que o fenômeno da comunicação do século 21 também capturou, definitivamente, a terceira juventude!

E como a turminha mais antiga virou assunto, lembrei-me da propaganda de um banco tailandês sobre alguns velhinhos de 81 anos que saíram viajando por 13 dias, em suas motocicletas, deixando de lado suas dores, problemas seríssimos de saúde, seus medos, e frustrações, voltando, felizes, à primeira juventude. A mensagem é de que vivemos por causa de nossos sonhos, e achei o trabalho de extrema sensibilidade. Aproveitando a dica sobre a importância dos amigos, aceitei o convite para almoçar no parque onde ainda fazem corrida de cachorro aqui nos Estados Unidos, e lá fui eu com mais quarenta companheiras da terceira idade.

Eu, na verdade, não gosto de corrida de cavalo, muito menos de cachorro, e somente quis aproveitar a oportunidade para não só estar com minhas amigas americanas, mas também para saber mais um pouco sobre esse "esporte", Os bichinhos são galgos italianos e podem competir até seus três ou quatro anos. Li, em um dos sites acessados, que são muito mal tratados e que quando não podem mais competir são sacrificados. Disseram, ainda, que também os coelhos, que servem de estímulo para que os "atletas" corram, sofrem muito. Por isso, somente em sete estados tais corridas são permitidas, já estando formalmente proibidas em outros trinta e oito.

Desconfio que não seja nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Quando li que passam fome, fiquei de pé atrás. Se ficarem muito fracos, não vão correr, e o objetivo se perde. Provavelmente, não são alimentados antes das provas, pois ficariam tão pesados quanto nós ao sairmos da mesa de almoço, mas não posso crer que fiquem mal alimentados o tempo todo.

Ouvi, há tempos, que os cavalos de corrida no Brasil são mais bem tratados do que seus tratadores. Comem do melhor, são monitorados pelos veterinários o tempo todo... por que seria diferente com os cães? Ah! Não usam coelhos, e sim um bichinho de pelúcia para fazê-los correr mais. Bem, como disse - nem cá, nem lá. Mesmo ficando no meio termo, continuo não gostando nem um pouquinho dessas coisas.

Como estão todos acostumados comigo pulando de um assunto para outro sem a menor cerimônia, volto agora para a antiga idade. O problema é que estou longe e fico louca para escrever sobre tudo que me vem à cabeça!

Recebi um interessante video com Jane Fonda falando dessa coisa maravilhosa, maior do que a revolução tecnológica, que é a longevidade adquirida pelas últimas gerações Vivemos, hoje, em média, mais 34 anos do que nossos bisavós. Isso representa uma revolução - social, previdenciária (somos um problema, vivendo tanto), cultural; enfim, uma coisa realmente extraordinária. Mas aí nos deparamos com um dilema - O que fazer entre os 60 e os 90? Como usar esse terceiro tempo que nos foi dado no jogo da vida?

Eu, menos ansiosa, cobrando menos de mim mesma e vendo, bem de dentro, a velhice, fiz uma reavaliação e, como Jane sugere em sua palestra, libertei-me do passado, fazendo as pazes com ele. Isso é um pouco melodramático, mais para dar um tom sério à crônica, já que, cá entre nós, nunca tive grandes problemas com meu passado. Ele não me condena! De qualquer forma, olho para trás com tranquilidade, bastante serena, muito alegre com as conquistas, profundamente triste com as perdas das pessoas amadas, mas sabendo que não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe. E vou levando razoavelmente bem, pelo menos até agora. Como diria Sinatra, "I did it my way..."

Enfim, gostei de ver o cinema francês prestando homenagem à história de Hollywood. Charmoso, inteligente, com um happy end que não incomoda e nem mesmo tira o brilho do conjunto, é, sem dúvida, um filme que merece ser visto. Pode não ser um grande obra, daquelas que ficam para sempre, mas ajuda a gente a se lembrar de tudo que faz do cinema aquilo que realmente ele é.

E o melhor de tudo - comprova que coisas antigas também podem ser interessantes, reservando, muitas vezes, grandes e inesperadas surpresas. Em tempo - mesmo achando que nós, mais antigos, podemos ser ótimos, devemos ter cuidado em não nos considerarmos "demais". Aprendi que tudo o que é demais sobra... e o que sobra vira lixo... e acaba sendo jogado fora! Portanto, menos, amiguinhos da terceira juventude, menos!

sábado, 17 de dezembro de 2011

ÀS ONZE, RODANDO BOLSINHA NA PRESIDENTE VARGAS

Dizem que, enquanto envelhecemos, vamos deixando pelo caminho a noção do ridículo, a consciência do que podemos ou não fazer, do que é apropriado em sociedade; enfim, parece que perdemos os limites e o senso crítico. Outro dia, peguei-me dizendo para um corretor que achava um absurdo o que a empresa dele estava fazendo, sem sequer usar meias palavras. Foi quando tive certeza de que cheguei, finalmente, à idade do “não estou nem aí para o que vão pensar”. Não há mais trava na língua... quando você vê, já disse... Não há trava em quase nada... quando se vê, está feito.
E deve ter sido essa falta de bom senso que me fez protagonista de uma das maiores imprudências que uma pessoa, qualquer que seja a idade, pode cometer. Simplesmente, enfrentei dois rapazes que queriam assaltar-me, na saída do metrô da Presidente Vargas.
O título dessa crônica é, como todos já perceberam, uma brincadeirinha, tipo manchete de jornal popular. Lembram-se do “Violada no palco”, quando Sergio Ricardo quebrou o violão no festival da Record em 67? Pois é, mas eu, literalmente, rodei bolsinha na Av. Presidente Vargas. Confesso que foi às 11 da manhã, e juro que não estava a oferecer meus favores...Também, quem ia querer ?
Acabara de jogar o celular na bolsa, já no último degrau da boca da estação, quando dei de cara com os jovens que, a poucos metros de mim, fizeram um sinal com as mãos que, sem deixar dúvidas, significava que eu tinha sido a “escolhida”. Não pensei duas vezes... nem uma só. Aproveitando-me da distância que nos separavam, peguei a bolsa que trazia nos ombros e comecei a rodá-la rapidamente, como se fosse uma funda. Eu era o próprio Davi contra Golias... E, como ele, venci os filisteus... os meus são cariocas. O corpo imitava movimentos que poderiam, muito de longe, é verdade, lembrar a ginga dos lutadores de capoeira. E os meliantes, na certeza de que a velhinha aqui é louca de pedra, deram meia trava. Enquanto olhavam, perplexos, aquela cena ridícula, o sinal fechou, oferecendo-me a oportunidade de atravessar a rua e buscar refúgio no estacionamento em frente.
Quando olhei para trás, já a salvo, vi que obrigavam uma jovem a abrir a bolsa e entregar o celular. Ela nem estava com o aparelho na mão, o que significa que estar ou não conversando ao telefone não faz qualquer diferença.
Sobre correr riscos quando não é realmente necessário, tenho profunda curiosidade para descobrir o que leva alguém a fazer alguma coisa cujos desdobramentos podem oferecer perigo. Jamais saltaria de asa delta da Pedra da Gávea, mesmo sabendo que o que se vê lá de cima é deslubrante, tampouco escalaria o Pão de Açúcar, ou seja, coisas do gênero não me atraem. Meu signo em Touro, com ascendente em Virgem, “obriga-me” a ficar com os pezinhos grudados no chão.
Por outro lado, o que seria de mim se Santos Dumond não tivesse voado no 14-Bis, mesmo podendo cair lá de cima e se arrebentar aqui no chão ? Estaria sentada nesta mesma cadeira, sem ter visto um centésimo do mundo maravilhoso que existe por aí. Isso sem falar em Colombo, em Cabral. Se não tivessem se mandado de lá, procurando o novo, apesar dos riscos que já sabiam existir além do horizonte azul, como estaria a vida nesse planeta? Se bem que há quem diga que estaria melhor...
E o que seria, também, de todos nós, se não ousássemos deixar um emprego chato e sair por aí procurando algo desafiador, se não nos aventurássemos em um novo relacionamento? Mas convenhamos, enfrentar dois assaltantes apenas rodando bolsinha é um pouco demais! A única certeza que tenho é que, em certos aspectos, tenho que tomar jeito e recuperar um pouco de juízo e de bom senso.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Q.I. DE AMEBA

“Além de atuarem sobre a distensão celular, as auxinas produzidas pelo meristema apical do caule inibem a atividade das gemas axilares. Fala-se, então, em dominância apical. Ao se retirar a gema apical, verifica-se que as gemas axilares saem do estado de dormência, dando origem a ramos laterais, folhas e flores.“ Juro que isso estava escrito em um livro de Ciências para o Segundo Grau. Como alguém pode imaginar que vai despertar o interesse dos jovens de 16 ou 17 anos com um texto como esse, enquanto o mundo, aqui fora, oferece coisas tão mais interessantes e menos enroladas?

Lembrei das auxinas ontem, ao espichar o olho para o livro do meu companheiro de assento no metrô. O tal senhor provavelmente é psiquiatra, psicólogo, ou coisa do gênero, já que, na contracapa da obra, apareciam os nomes de Freud e Lacan. O capítulo falava no aparente do aparente. Mesmo sendo algo bem deselegante, tentei ler um dos parágrafos da página aberta bem pertinho de mim. Seria mais fácil se o texto fosse em grego... Não consegui saber do que se tratava e só posso atribuir isso a um castigo divino pela minha indelicadeza em ficar olhando livros alheios por cima dos ombros. Naquele tal texto didático de Ciências que me assustou, pelo menos deu para entender que eram estudos sobre vegetais. No aparente do aparente, nada me apareceu aos olhos, ao cérebro ou à memória.

E lá fui eu, uma senhora moderna, procurar o que poderia ser isso na enciclopédia do século XXI, mesmo sabendo que nem sempre essa fonte é confiável. O Google logo me ofereceu um sítio da Editora Rocco sobre “O Segredo Judaico da Resolução de Problemas”, de Nilton Bonder. O autor faz um verdadeiro passeio entre as dimensões que atribui à Realidade, traduzindo-as em quatro mundos - o aparente do aparente, o oculto do aparente, o aparente do oculto e o oculto do oculto. Chico Buarque, quando compôs Construção, fez uma farra daquelas trocando as palavras de cá para lá. No comecinho, diz que alguém tropeçou no céu como se fosse um bêbado, enquanto, no final, diz que tropeçou no céu como se ouvisse música... Em outro verso, tinha atravessado a rua com seu passo bêbado, e tinha dançado e gargalhado como se ouvisse música... Quando um poeta joga as palavras de um lado para outro brinda-nos com a mais bela poesia. Enquanto isso, alguns intelectuais, com o mesmo jogo, causam um curto circuito no cérebro da gente!

O texto se propõe a demonstrar que não se pode olhar os problemas de forma rígida, dentro de um único contexto. Fiquei tentada a comprar o livro, mas desisti logo, lembrando-me de que não consegui nem mesmo entender o tal parágrafo do vizinho. Isso me confirma a sensação de que alguns intelectuais acham que a demonstração do saber passa por explicações muito complexas, ininteligíveis. Resultado - nós, pobres mortais, ficamos alijados do processo de conhecimento ao desistirmos no primeiro parágrafo.

A sorte é que acabo me divertindo horrores com minha ignorância, e tampouco me abala a autoestima não compreender, por exemplo, o que Roland Barthes queria dizer quando afirmou que a burrice não estaria ligada ao erro.Explicou que “Sempre triunfante (impossível de vencer-se), o seu triunfo tem a ver com uma força enigmática: É o estar-presente nu e cru, no seu esplendor. Daí um terror e uma fascinação, a do cadáver. (Cadáver de quê? Talvez da verdade: a verdade como morta.) A burrice não sofre (Bouvard e Pécuchet: mais inteligentes, sofreriam mais). Então, ela está presente, obtusa como a Morte.” Juro que não inventei isso tudo... podem conferir no livro “A Imagem”, de 1977.

Cá com meus botões, pergunto-me se essa linguagem complicada seria o jeito de, disfarçadamente, manter o conhecimento longe da massa ignara - conhecimento é poder, já dizia Bacon no século XVII. A verdade é que, em alguns momentos, sinto total afinidade com a ameba, que representa uma das formas de vida mais simplificadas do planeta. Uma única célula... não consegue nem ter dois neurônios! Até para a reprodução, nesse protozoário a coisa vai pela forma mais fácil - divide-se em duas e pronto, resolvido o problema da perpetuação da raça, sem obedecer regras, esperar o macho querer, sem envolver qualquer sentimento, cobrança e sem precisar agradar o outro. Em compensação, é um processo muito do sem graça.

Voltando ao aparente, ao oculto, assunto do tal livro que compartilhei no metrô. No primeiro momento, tudo me parece óbvio, pois aprendi há tempos que as aparências enganam e que não podemos acreditar que tudo que vemos é realmente como estamos vendo. Acreditei que tinha entendido tudo – que temos o aparente do aparente, o aparente do oculto, o oculto do aparente e o oculto do oculto. Mas como o livro tem 200 páginas, a explicação não deve ser tão simples assim. Ou tem aí um pulo do gato que eu, na minha ignorância ímpar, não percebi, ou, então, a coisa é simples mesmo e o sábio está querendo complicar. Não me considero oligofrênica, nem mesmo em seu grau mais leve, mas tem horas que meu cérebro não apresenta qualquer diferença em relação ao daquela ameba já falada. Meu quociente de inteligência não se localiza entre 0 e os 90 graus e, sim, de menos 90, de tão difícil que se torna o entendimento de certos textos. Por isso, classifiquei-me como ameba quando desconfiei ter um único neurônio, razão pela qual não entendi o que Barthes falou sobre minha burrice!

Enfim, hoje, finalizo o dia com a certeza de que sou uma ameba; infelizmente, apenas uma ameba comum, não uma ameba dançante, daquelas que a Pietrina Checcacci eterniza em seus lindos quadros. E como Sócrates dizia que “a maneira mais fácil e mais segura de vivermos honradamente consiste em sermos, na realidade, o que parecemos ser”, vou ter que descobrir o que pareço ser. Para ter certeza disso, vou ter que entender, antes, o que é o aparente do aparente, o aparente do oculto, o oculto do aparente e o oculto do oculto... Quando isso acontecer, provavelmente vocês poderão ver-me como realmente sou – uma ameba morena... mas burra.

Renoir dizia que um intelectual seria o homem que se referia às coisas simples de uma forma complicada, e que um artista seria o homem que diria uma coisa difícil de forma simples. Não seria uma ótima ideia se todos nos inspirássemos nos artistas ? Sonho com isso, ainda mais agora, que me encontro em situação desesperadora por causa dessa sofisticação toda usada pelos que parecem mais inteligentes. Não consegui entender o que um intelectual conhecido quis dizer quando afirmou que um filósofo “vive o descontínuo em relação à explanatória de antigo ritmo”. Estou esperando que alguém me ajude na tradução... esperando sentada, é claro.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ESPELHO, ESPELHO MEU...


... existe alguém mais bela do que eu? Tenho mais sorte do que a madrasta da Branca de Neve. O meu espelho não responde. Se o fizesse, diria que tem muitas mulheres mais bonitas do que eu e mencionaria, no mínimo, 5 milhões, começando pela Gisele Bundchen, Paris Hilton, Natalia do Vale, a vizinha do 603, a Maristela...
Há muito, fiz minha cabeça. Não dá para competir, e tenho consciência disso desde pequenininha. O pior é que nem posso culpar a idade e tentar enganar os conhecidos mais recentes, pois as fotos não mentem jamais! Mas devo dizer que não tenho mágoa em relação à Natureza. Ela não foi madrasta... foi apenas mãe ausente. E me deixou por conta dos disfarces da maquiagem, das roupas mais interessantes, e da tal da beleza interior. E é nessa que uns 80 por cento da população feminina precisam investir. Não tem saída!
Voltando ao terrível espelho, Vinicius de Moraes me vem sempre à cabeça com sua terrível ameaça – “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Pois é, e o que fazemos nós, simples mortais? Cortamos os pulsos? Vamos nos queixar ao bispo?
O espelho me olha, sem parar, enquanto eu, desolada, percebo as ruguinhas, as rugonas, o despencado... Plástica? Nem pensar. Apresento apenas um dos muitos motivos – sou alérgica. Portanto, melhor ser caidinha viva do que mortinha com cara de 10 anos menos.
Na manhã de um belo domingo, há pouco tempo, vi um programa de TV em que tudo versava sobre moda e beleza, assunto que, mesmo não me atraindo de maneira especial, vez por outra desperta alguma curiosidade nessa cabecinha metida a intelectual. Acabo, então, de olho no que é “fashion”. A inspiração para essa crônica chegou no momento em que a belíssima apresentadora do tal show, conhecida atriz, afirmou que quase enlouqueceu ao descobrir sua primeira ruga. Ela tem trinta e cinco anos. Foi assustador! Não a tal da primeira ruga, mas o que vi na telinha naqueles trinta minutos seguintes.
Uma jovem de vinte e sete, entrevistada pelo programa, confessou aplicar o tal do botox na testa e preencher seu “bigodinho chinês” com ácido hialurônico já faz algum tempo! Eu, na sexta década, mesmo precisando muito desse tipo de recauchutagem, fico receosa de injetar qualquer substância no organismo. Sei lá o que pode resultar dessa invasão química! E começar tão precocemente me parece uma verdadeira roleta russa. Milhões de mulheres que nem chegaram aos quarenta fazem essas aplicações com bastante regularidade! E ficam todas super aflitas com qualquer risquinho que, por ventura, apareça em seus rostos bonitos...
Fui pesquisar o tal do botox, denominação que é, na verdade, a da marca americana da toxina botulínica; como foi a primeira a ser liberada comercialmente para uso dermatológico, deixou o nome da mesma forma que a gilete, o modess, o gumex... Aplicada em pequenas doses, bloqueia o neurotransmissor responsável pelo envio das mensagens elétricas aos músculos. Minha vontade de ficar mais bonita não supera o pavor ao imaginar que uma toxina dessas vai ser injetada no meu rosto. E se eu ficar ainda pior? E se meu organismo acumular a toxina, e eu acabar contraindo o botulismo? Até me acho meio histérica com relação ao botox, mas aprendi que seguro morreu de velho.
Todo mundo pode rebater minhas exageradas e racionais considerações dizendo que o procedimento segue exatamente o mesmo princípio da vacina, quando pequenas dosagens de uma determinada substância são inoculadas na pessoa. É certo que isso não causa qualquer mal, na grande maioria dos casos; muito pelo contrário, tendo em vista que o organismo cria anticorpos que vão imunizá-lo contra aquela determinada doença. O problema é que a vacina é aplicada uma só vez na vida, em certos casos, algumas vezes, mas sempre poucas. Jamais de seis em seis meses, de ano em ano, como é o botox. Sinto muito, mas não vou me arriscar.
Ficou simplesmente impossível ser uma mulher confiante nessa era em que o culto ao corpo ultrapassou o limite do razoável. Os padrões são altos, mas tão altos, que nossa vida se tornou dificílima. Temos que nos parecer, minimamente, com aquelas beldades que povoam todas as revistas, de moda ou não, que aparecem nas telinhas, na telona... Mal completam dezoito anos, as meninas iniciam seus tratamentos para alcançar a beleza, essa coisa quase inacessível, muitas vezes terrível mesmo. Tornamo-nos escravas da ditadura que é a busca do ideal, vítimas do medo sempre crescente do envelhecimento. Nessa busca, algumas encontram a anorexia, devastadora consequência da expedição ao mundo que estão dizendo ser o da beleza.
Procuro me conformar com o velho ditado de que o belo está no olho de quem vê. O drama é que 90% de nós estaremos ferradas, caso esse determinado olho esteja contaminado pelas pernas da Ana Hickmann, pelo porte da Gisele Bundchen ou pelo corpo da última miss Brasil. Eu, felizmente, acabei aceitando a conversa (consolo, melhor dizendo) de que a beleza interior é a que conta e não tenho tido problemas psicológicos mais sérios com o meu invólucro.
Fiz um esforço enorme para me lembrar da primeira ruga... Não consegui. Vieram à mente o primeiro dia de aula, o primeiro beijo, a primeira noite de amor, o nascimento do primeiro filho (e do segundo, da terceira), a primeira vez que ouvi Jade dizer – vovó! Fui adiante. Das rugas, só me lembro bem das que me deram muita satisfação. Explicando melhor - quando saí da cirurgia de catarata, olhei-me no espelho e vi dezenas delas. Que felicidade! Havia recuperado a visão, aquela visão que me faz ver o mundo colorido, com muito brilho, muitas vezes deslumbrante... foram as ruguinhas mais comemoradas do planeta!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O BRASIL ESTÁ COM METÁSTASE


Procuro avaliar os últimos acontecimentos com a máxima isenção possível. As informações, infelizmente, não trazem mentiras ou exageros e o que se vê é de cortar o coração de qualquer brasileiro, mesmo que ele só tenha um pinguinho de amor à pátria.
Não fossem os escândalos suficientes, entendi que nossa autoridade maior exige ser avisada, com antecedência, de toda e qualquer atividade da Polícia Federal. Em outras palavras, precisa saber quem é alvo de averiguações, para que, em nome dos acordos feitos - a maioria acertos espúrios, sabemos bem - possa livrar da lei eventuais amiguinhos. O problema é que tais amiguinhos estão roubando o país; existe outro termo para o que fazem? Não. Por não ser criminalista, fico na dúvida se deveria chamar de furto ou roubo, mas acredito que seja roubo, pois o Código Penal define esse crime como a subtração de coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência. Estamos reduzidos à impossibilidade de resistência a partir do momento em que são os detentores do poder os que praticam tantos atos condenados não apenas pela legislação em vigor, mas também pela moral e bons costumes.
Voltando ao famoso artigo 157, tenho uma dúvida – o futuro de um país é coisa móvel alheia? Para mim, é. O futuro do Brasil é dos quase 200 milhões de habitantes que somos hoje em dia, não deles! Outra pergunta - Quem pratica o crime é apenas aquele que diretamente subtraiu a coisa alheia? No parágrafo primeiro da citada disposição legal, vê-se que se equipara àquele que rouba, e por isso na mesma pena incorre, quem, logo depois de subtraída a coisa, emprega violência contra pessoa ou grave ameaça, a fim de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa para si ou para terceiro. Que coisa terrível constatar-se que os atos de nossos governantes estão descritos como crimes... Um desânimo cívico de deixar qualquer um na mais profunda desesperança.
Não sei se estou exagerando, mas essa determinação, pedido ou seja lá o que for, de que a Presidência da República seja comunicada das atividades policiais com antecedência me parece muito estranha. Será que não poderia ser comparada à solicitação de alguma associação de moradores que, em caso de blitz em sua comunidade, igualmente seja avisada com um prazinho para que possam ser assegurados seus acordos com as “bases”, já que, delas, da mesma forma necessita para o bom andamento da vida em comum? Eventualmente, algumas dessas bases podem ser pessoas da comunidade que não estejam do lado da lei, estejam, por exemplo, comercializando substâncias ilícitas. E os dirigentes comunitários vão se achar no direito de também reivindicar um aviso prévio, pois precisam sustentar os acordos, sejam eles com pessoas do bem ou não.
Por que só deputados podem bater o pezinho e, zangadíssimos, dizer que não cumprirão com as atividades pelas quais são regiamente pagos enquanto seus amiguinhos meliantes estiverem sendo ameaçados de punição pelos crimes que cometeram? Por que não podemos todos dizer que, agora, somos nós que vamos bater o pezinho e deixar de cumprir com nossas obrigações enquanto essa pouca vergonha imperar no país? Henry David Thoreau, em 1849, quando publicou suas idéias sobre a desobediência civil, devia estar sentindo o mesmo desapontamento que os brasileiros honrados carregam na alma nesses últimos tempos. Gritou em alto e bom som que os indivíduos não podem permitir que os governantes estejam acima da lei, com suas consciências atrofiadas, atuando de forma injusta e criminosa.
Lembrei-me da experiência que tive durante minha gestão como diretora de escola na Cidade de Deus. Naqueles anos oitenta, eram 3 as associações de moradores, cada uma com interesses diferentes, pois a comunidade, com cerca de 120 mil habitantes, apresentava características próprias em cada um dos subgrupos. Seus dirigentes davam, sempre, belíssimos exemplos de civismo e responsabilidade. Quando o tema de discussão versava sobre Educação ou sobre problemas na área de Saúde, os interesses do grupo como um todo sobrepujavam os interesses específicos, que eram imediatamente deixados de lado. Atuavam todos em prol do bem comum.
O mundo está à beira de um colapso econômico de trágicas consequências, e nossos parlamentares e administradores públicos decidem fazer greve branca enquanto seus interesses particulares, espúrios, repito, estejam “em perigo”. Para onde quer que nossa atenção se dirija, vemos que são muitos os órgãos contaminados. Por isso, inspirada em conversa com Rosa Furtado sobre esse desastre nacional, decidi falar em metástase, falência múltipla dos órgãos. Seria essa a “causa mortis” de nosso país?
Acabei de receber um email dos queridos amigos Sonia e Chaim que veio a calhar. Ayn Rand, filósofa russa, dizia que : “Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.
Mexi no finalzinho do texto... Escrevera que nada havia a acrescentar, além de meu pedido de desculpas aos leitores de meu blog, que sempre encontram crônicas leves, todas com um razoável toque de humor; porém, nesse momento, é impossível falar de flores, pois nosso país corre um grande perigo... Tive que escrever mais um pouco, já que Maria Sylvia me mandou pensamentos do Saramago, dos quais pude pinçar um que cabe como uma luva por aqui. Um dia, ele disse: - “Estou convencido de que é preciso continuar a dizer não, mesmo que se trate de uma voz pregando do deserto.” Vocês todos topam dizer NÃO ?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

E VAI ROLAR A FESTA!

Junho 2011

A ideia estava lá... há muito. E a hora chegou – vou publicar o livro com as crônicas de viagem. Confesso ainda não ter me livrado daquela mania de professora, e esforcei-me para dar um basta nas infindáveis releituras do que tinha escrito. Emidio, antes de ilustrar e fazer a capa, deu ótimas sugestões e, enfim, coloquei o ponto final e mandei para a revisora. Sei que não terei tempo de aprender as mudanças recentes em nossa língua... preciso do trabalho dela . Fico arrepiada quando penso que devo enterrar a maioria das regras de acentuação que permanecem gravadas na minha memória, das quais me lembro melhor do que do rosto dos mestres responsáveis pelo aprendizado. Ideia não tem mais acento. Como pode? Até onde sei, como segundas vogais tônicas de um hiato, o I e o U ainda são acentuados. Tomara. Enfim, a revisora deu conta do recado. Estava ali... pronto. A boneca ficou ótima, e só foi preciso dizer – pode imprimir. Começou, então, outra coisa deliciosa. Preparar a festa.

É claro que não poderia ser um lançamento tradicional, em uma livraria, com todos os amigos esperando na fila, por mais de uma hora, que chegasse a sua vez. Depois do tormento, cada um receberia o livro autografado, um beijinho, um abraço e só. Ficaria mais um pouco, para conversar com alguns conhecidos e, logo, logo, iria embora.

As livrarias são um dos melhores lugares para se estar, normalmente... mas em noites de autógrafo, temos o problema da fila. Assim, uma entusiasmada contadora de histórias como eu, que escrevi, de maneira tão informal, sobre minhas viagens pelos Estados Unidos, não poderia imaginar uma noite de autógrafos do jeito tradicional. E, mais uma vez, decidi – e vai rolar a festa!
Será no play do prédio onde moro, na Lagoa, com aquela exuberante paisagem oferecendo-se despudoradamente para o encanto de quem estiver por lá. Na verdade, como estarão presentes apenas os amigos, não acredito que pudesse ter escolhido lugar mais apropriado. O leitor compra o livro e vai se distrair com a deliciosa música ao vivo oferecida por Marco Antonio Caixeta, teclado e voz; em determinado momento, Nilson Nunes e Tatiane apresentarão esquetes para alegrar ainda mais o evento. Por seu turno, autora e ilustrador estarão “visitando” as diversas mesas e conversando com os convidados enquanto autografam os livros.

No final, haverá um sorteio com algumas coisas bem interessantes, como a homenagem a Fernando Pessoa criada por Emidio, o livro com a trajetória artística de Marilia Kranz, uma aquarela de Pietrina Checacci, e outras surpresas mais. Estamos quebrando a rotina, para que combine realmente com o fantástico mundo da literatura, que proporciona tanto prazer e alegria.

Hoje em dia, temos a internet, os celulares, o skype, mas ninguém dispõe de tempo para estar com os amigos, que vão ficando cada dia mais distantes no cara a cara, como se fôssemos todos, agora, fastfriends. Pensamos nas pessoas sempre tão queridas e que estão a poucos quilômetros de nós... e raras são as vezes em que estamos realmente juntos.

Portanto, uma das principais razões para que seja organizada uma espécie de festa nesse lançamento é, sem dúvida, para delicada e disfarçadamente fazer com que as pessoas possam se encontrar e celebrar, mais uma vez, a Vida!